SÃO PAULO(tudo como dantes…) – A euforia da Ferrari, da torcida inglesa, dos fãs espalhados pelo mundo e de Lewis Hamilton passou. Kimi Antonelli despejou sobre todos eles um balde de água gelada ao vencer a Sprint de Silverstone, a quarta desta temporada. Foi a primeira vitória do italiano da Mercedes em corridas curtas da F-1. Como seu companheiro George Russell terminou em quarto, Kimi abriu mais três pontos sobre ele na classificação. Agora são 43 de vantagem.
Hamilton, que já venceu um GP neste ano, em Barcelona, fizera a pole ontem surpreendendo todo mundo. Ele, inclusive. Mas suas esperanças de vitória na prova curta terminaram na oitava volta, quando foi ultrapassado pelo líder do campeonato. A Mercedes segue dominante no ano. Além de vencer sete das oito etapas realizadas até agora, ganhou três das quatro Sprints. Fez todas as poles do ano. E, em grids das corridinhas, foram duas de quatro. Hamilton, com a já citada vitória de Barcelona na prova principal, e Lando Norris, na Sprint de Miami, foram os únicos que riscaram a carenagem do time alemão nesta temporada.
O sol voltou a brilhar em Silverstone neste sábado, com temperaturas parecidas com as de ontem, na casa dos 25°C. Casa cheia, muita torcida por Hamilton e Norris – parece que ninguém liga muito para Russell, coitado – e a turma alinhou para as 17 voltas da prova pocket.
A largada foi tranquila, mas no fim da primeira volta começou o agito. Russell passou os dois carros da McLaren e foi para terceiro. Os pilotos do time papaia – que corre em Silverstone com pintura branca e verde, bem mais bonita –, tinham largado bem, mas começavam a oscilar. Norris se recuperou e, na volta 2, retomou o terceiro posto de George. A prova começava no ritmo ioiô, visto no início deste Mundial com novo regulamento de motores.
Norris, terceiro: boa recuperação
Max Verstappen entrou na festa e também passou o Mercedes #63. Só Hamilton e Antonelli, mais à frente, tinham alguma paz no começo da corrida. O passa-repassa era condicionado pelo nível de bateria de cada um, numa pista em que a recuperação de energia é problemática pela falta de pontos de frenagem e excesso de curvas de alta velocidade.
Bem mais atrás, registre-se, Gabriel Bortoleto perdeu cinco posições na largada, caindo de 11º para 16º. E registre-se, da mesma forma, que quase todos os pilotos largaram de pneus médios. Valtteri Bottas, Lance Stroll e Fernando Alonso foram de macios. Lá no fundão, não faria diferença nenhuma. Poderiam ter largado com dois pilotos e oito rodas que ninguém notaria.
Os oito que pontuaram em Silverstone
Com cinco voltas, Hamilton e Antonelli se distanciavam em primeiro e segundo, deixando os demais a léguas de distância. Norris, vinha 6s atrás, com Verstappen, Russell, Charles Leclerc, Oscar Piastri e Liam Lawson nas oito primeiras posições. Kimi perseguia Lewis de perto, a menos de 1s de distância. E a partir da sétima volta passou a atacar o inglês, que tem idade para ser seu avô. OK, pai.
Kimi passou no final da oitava volta, enchendo o motor de energia economizada no último terço da pista, atacando o espaço e quebrando as linhas do ferrarista. Russell, Verstappen e Leclerc, quarto, quinto e sexto, batalhavam trocando posições com algum frenesi, gerando movimentação e balançando aquele bloco da corrida.
Divertido de ver, era. Para os pilotos, talvez menos. Porque era passar e esperar ser ultrapassado – a bateria esgotava em algum momento e cada um ficava vulnerável em algum ponto do circuito. Antonelli, por sua vez, respirava na ponta. Abriu rapidamente mais de 1s sobre Hamilton e mostrava que a Mercedes, entre as baladas da noite de sexta e a ressaca da manhã de sábado, ajeitara as coisas depois de perder a pole para Lewis de forma surpreendente.
O troca-troca se estabilizou lá pela volta 14, depois que todos gozaram de seus momentos de prazer na suruba elétrica. Hamilton nem tentou atacar Antonelli, que recebeu a quadriculada com quase 3s de vantagem para o piloto da Ferrari. Lewis contentou-se com o segundo lugar, refreando o entusiasmo da véspera. Norris levou a terceira medalhinha do dia, tendo saído da sexta posição no grid. Russell, Leclerc, Verstappen, Piastri e Lawson terminaram nos pontos. Bortoleto foi o 14º.
Medalhinhas para Hamilton, Antonelli e Norris
Eu tinha escrito outro dia, já nem lembro quando, que estava na hora de tratar Antonelli como adulto e parar com essa coisa de piá, guri, garoto, moleque, petiz, pirralho, criança, bacuri, fedelho, pimpolho. Tentarei. Mas é difícil olhar para esse rostinho angelical e sorridente sem dizer: danadinho, esse menino!
Ao meio-dia sai o grid do GP da Inglaterra. Kimi x Lewis deverá ser o duelo da sessão. Qualquer outro resultado entrará na categoria “surpresa”. Tipo Cabo Verde ganhar da Argentina. O que acabou não acontecendo.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.