SÃO PAULO (ui) – Pois o caso Briatore-Nelsinho-Renault-Cingapura assumiu proporções nunca antes vistas na F-1. Virou um tiroteio de acusações pessoais que hoje chegaram ao auge, suponho, com as insinuações de Briatore de que Nelsinho tinha um caso homossexual com um homem mais velho.
(Claro que se a família Piquet resolver responder no mesmo tom, terá farta munição sobre a não muito ortodoxa vida sexual-porno-erótica de Briatore, que vive posando de tanguinha nas praias da Sardenha. Portanto, o auge ainda pode ser mais alto. Ou baixo, dependendo do ponto de vista.)
O diretor da Renault soltou o verbo em Monza. Disse que a Renault já entrou com processos criminais contra Nelson Filho e Nelson Pai — e se for preciso, vai Nelson Espírito Santo para a roda. Acusações: chantagem e extorsão.
“Nós não fizemos nada. O fato de estarmos processando os dois prova que estamos confiantes. Nelsinho nunca teve performance. É um garoto mimado que sempre correu com sua própria equipe, o melhor carro, sempre teve seu pai do lado. Quando chegou numa competição de verdade, perdeu a cabeça. É muito frágil.”
Aí vem a parte mais escabrosa e cabeluda. Que não carece de apuração. Não tem nada a ver com as coisas da pista. Expõe ressentimentos. Porque mesmo se forem verdadeiras as afirmações de Briatore, dizem respeito à vida pessoal de Nelsinho, e não à sua atividade profissional. Briatore é um escroto. Mas se Nelsinho está mentindo só para implodir sua cabeça, como ele afirma, é compreensível e nada surpreendente que um escroto como ele diga o que disse:
“Ele [Piquet Jr] me acusou pesadamente de lhe fazer romper um relacionamento com um amigo, e isso eu devo dizer, porque foi seu pai quem me pediu isso. Ele vivia com esse senhor. Não se sabe que tipo de relação eles tinham. O pai estava muito preocupado. Viviam juntos, e o pai me pediu para interferir. Fiz Nelsinho se mudar de Oxford para meu prédio em Londres, onde eu podia mantê-lo sob controle.”
Não sei quem é a tal pessoa. Também não me interessa minimamente. Mas sei que Nelsinho é o que a molecada chama de “pegador”. Já ouvi histórias. E foda-se, a vida sexual de ninguém me interessa muito. Neste caso, o que interessa é perceber a que nível as coisas chegaram. Briatore está espumando de ódio. Diz que as denúncias à Renault foram feitas pelos dois Nelsons, e que o pai “todos conhecem”:
“Ele degradou a imagem de todo mundo. Fez isso com Senna, com a mulher de Mansell, todos sabem como ele é.”
Virou briga de rua. Mas que não será tratada como tal pelo Conselho Mundial da FIA — embora o interesse pessoal de Max Mosley pelo caso possa ter aumentado depois do surgimento desse, hum, componente picante na história.
Nelsinho terá de provar que lhe deram a ordem de se espatifar no muro. Provar que fez de propósito não bastará. No máximo, vão lhe dizer que é uma besta, ou um barbeiro. O crime precisa de um mandante. Se não tiver, o criminoso será só ele. Que terá feito o que fez apenas para garantir o emprego e, pior, estaria mentindo para arrastar com ele os pescoços de desafetos.
Existe a chance, ainda, de nada ter acontecido. Sim, de Nelsinho ter apenas errado, batido, feito cagada (não teria sido a primeira), e um ano depois, por conta de uma relação tumultuada e horrorosa com a equipe e seus chefes, elaborar essa história toda para incriminar os inimigos, mesmo sob o risco de dar um tiro na própria cabeça e acabar com sua carreira.
É difícil acreditar em imaginação tão fértil, porém. O depoimento de Nelsinho é muito detalhado, embora Briatore contra-argumente (tem hífen, essa merda?) que seria impossível desenhar uma corrida na 14ª volta, prever tudo que aconteceria depois.
“Massa teve problemas, Kubica teve problemas, seis ou sete tiveram problemas. Como prever isso depois de 14 voltas?”
Já não sei direito o que pensar disso tudo — se é verdade que a Renault pediu e ele obedeceu e se arrependeu, se o time insinuou e ele captou a mensagem, se Nelsinho está mentindo, não pediram nada e ele fez mesmo assim, se não foi nada disso e ele apenas bateu o carro, como disse à época, e Alonso deu um rabo inacreditável.
Dizer que fico triste pelo esporte seria hipocrisia. Caguei, isso não afeta o esporte, e mesmo se afetasse, não tenho nada com isso. No fundo, é apenas um barraco digno dos piores programas de TV. Do ponto de vista jornalístico, o caso é ótimo, rende manchetes e audiência. O povo gosta de uma putaria, quem há de negar?
Sinto, sim, pelo nome Piquet e tudo que representou no passado, para a história do automobilismo brasileiro e internacional. É uma tristeza biográfica, digamos assim. Porque, no fim das contas, ele, ídolo de tanta gente, está metido nessa baixaria toda.
Os ídolos são mesmo de barro. Todos eles.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.