RIO (Rest In Power) – A pole de Hamilton agora há pouco em Spa foi, novamente, cheia de significados. O inglês dedicou o resultado a Chadwick Boseman, ator que morreu ontem aos 43 anos de câncer no cólon. Boseman foi o protagonista de “Pantera Negra”, um super-herói preto num mundo em que super-heróis, no cinema, […]
Publicado em 29/08/2020 às 13:49
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RIO (Rest In Power) – A pole de Hamilton agora há pouco em Spa foi, novamente, cheia de significados. O inglês dedicou o resultado a Chadwick Boseman, ator que morreu ontem aos 43 anos de câncer no cólon. Boseman foi o protagonista de “Pantera Negra”, um super-herói preto num mundo em que super-heróis, no cinema, são invariavelmente brancos.
Wakanda forever.
E que pole… Lewis colocou 0s511 em cima de Bottas, o segundo colocado, com uma volta muito próxima da perfeição em 1min41s252. “Um extra-terrestre”, como definiu Toto Wolff. A exemplo de seu companheiro de equipe, larga amanhã com pneus médios. A Mercedes andou com mais asa que o normal, perdendo um pouco de velocidade nas retas, mas compensando plenamente no segundo setor da pista, mais sinuoso. Ali, o equilíbrio do carro e seu comportamento aerodinâmico fizeram a diferença. Além do mais, o time espera chuva para amanhã. Se vier, andar com mais pressão aerodinâmica será essencial.
Foi a 93ª pole da carreira de Hamilton, sexta em Spa, quinta no ano. É o melhor momento da carreira do inglês.
O grid: sim, a Ferrari conseguiu passar para o Q2!
Lewis, ao contrário da maior parte dos pilotos, nem foi atrás de vácuo nas longas retas de Spa para garantir alguns décimos aqui e outros ali. “Não queria ninguém na minha frente”, falou. Entende-se. A grande vantagem nas curvas de alta poderia ser perdida se alguém deixasse um rastro de ar “sujo” diante de si. Ele disse que andou estudando os dados para tomar essa decisão. Para colar no chão, o carro negro precisava estar de cara para o vento, como se diz. Tudo funcionou 100%. Especialmente o piloto.
Em quarto e sexto no grid, com Ricciardo e Ocon, a Renault foi a surpresa do sábado, conseguindo seu melhor desempenho no ano em classificações. Antes do australiano, para variar, ficou Verstappinho, vice-líder do campeonato e único piloto que de vez em quando cutuca a dupla da Mercedes. Max ficou muito perto do tempo de Bottas, meros 0s015. Albon, com o outro carro da Red Bull, foi o quinto.
Ricardão: P4 no melhor fim de semana da Renault em 2020
Duas equipes acabaram decepcionando — não, não foi a Ferrari, sobre quem falaremos daqui a pouco, como sempre, deixando as informações mais sórdidas para o final. Uma delas foi a Force Point, apenas em oitavo e nono com Pérez e Stroll. A outra, a AlphaTauri. Depois de um quarto e um sexto no Q1 com Olha o Gás Ly e Dani²l K-Vyda Loka, a filial rubro-taurina empacou no Q2.
A McLaren, com sétimo e décimo, foi a outra equipe que chegou ao Q3, mostrando que os motores Renault, na Bélgica, estão funcionando direitinho.
McLaren: sétimo e décimo com Sainz e Norris
O sábado amanheceu frio e com nuvens ameaçadoras sobre as Ardennes e a classificação foi realizada com temperatura na casa dos 16°C. No fim, não choveu. Estava todo mundo de olho no Q1 porque, depois de apresentar um desempenho patético no último treino livre, a Ferrari era candidata forte a se juntar aos piores do dia.
E foi por pouco. Vettel e Leclerc se livraram do vexame maior passando em 13º e 15º, superando Raikkonen, o 16º, por 0s089 e 0s087. Entre os cinco eliminados, quatro motores Ferrari: os de Kimi, Grojã (17º), Giovanudo (18º) e Magnólia (último). O único intruso foi o fraco Lentifi, da Williams, em 19º.
Foi quase um milagre. Quando Hamilton fez a melhor volta no Q1, Leclerc estava 1s905 atrás e Vettel, a 2s231. Os dois arrancaram das carroças vermelhas mais do que dava para passar à segunda fase da classificação. No Q2, não tinha santo que pudesse ajudar. A dupla ficou atrás dos dois carros da AlphaTauri e à frente apenas de Russell, da Williams. Para Hamilton, o primeiro colocado: Charlinho a 0s982, Sebastião a 1s247. O monegasco sai em 13º; o alemão, em 14º.
E pensar que no ano passado Leclerc fez a pole e venceu na Bélgica… Claro, agora todos sabem: a Ferrari estava trapaceando nos motores, foi pega no pulo, perdoada, mas acabou enquadrada pela FIA e a performance da sua unidade de potência ficou muito parecida com a de um Uno Mille.
Cúpula da Ferrari: combinando a hora da festa
Gola Profonda me ligou agora há pouco, e foi difícil entender o que dizia por causa do barulho de fundo. Onde você está?, perguntei intrigado com a música alta. “Party mode! É a última do ano e a gente resolveu festejar!”, gritou Gola. Party Mode é como chamam o negócio que a Mercedes tem no motor aos sábados, que a partir da próxima corrida será proibido. Vocês estão comemorando isso?, berrei ao telefone. “Não estou te ouvindo direito, mas se você está querendo saber por que estamos fazendo festa, é porque passamos do Q1 e enrabamos a Alfa e a Haas!”, respondeu Gola. Mas não foi isso que perguntei, ia repetir, mas nem deu tempo porque de repente entrou alguém no telefone e gritou “chupa Latifi!” e Gola falou: “Desculpa, foi Seb que passou por aqui e tirou o telefone da minha mão, ele tá meio alterado, feliz da vida!”, explicou. E está todo mundo na festa?”, perguntei o mais alto que pude. “Peraí, Charlito quer dizer alguma coisa”, e outra voz entrou na linha berrando e gargalhando “chupa Russell ahahahahaha!”, e nesse momento a linha caiu.
Horas depois Gola mandou a foto abaixo, com a mensagem: “Seb tomou todas, saiu da festa assim, com uma dor de cabeça dos infernos. Mas prometeu que amanhã vai estar bem”.
Tomara, tomara.
Vettel: tomou todas para comemorar a passagem ao Q2
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.