Gasly na pole: a primeira de um francês desde 1997

SÃO PAULO (e agora?) – Pierre Gasly quebrou várias bancas hoje. O francês da Alpine conseguiu a pole-position para o GP da Itália, 13ª etapa do Mundial.

Como assim?

Assim: fazendo uma volta espetacular no apagar das luzes da classificação em Monza.

Só isso?

Sim, só isso.

Um milagre?

Não exatamente. Seu carro, atualizado recentemente e empurrado pelo ótimo motor da Mercedes, vinha se comportando bem desde o início da classificação. Foi o mais rápido no Q1, o terceiro no Q2 e cravou a pole.

Mas foi uma surpresa, não?

Enorme. Gasly tem 30 anos, estreou em 2017, está na décima temporada, carrega 189 GPs no lombo e nunca tinha feito uma pole na F-1. Sua equipe, tampouco. A Alpine estreou com esse nome em 2021 e tinha como melhor grid um segundo lugar de Fernando Alonso no Canadá em 2022. Como Renault, seu nome anterior, o time registrara a última pole em 2009, também com Alonso. E o último francês a largar na posição de honra de um grid, bem, esse é do século passado: Jean Alesi no GP da Itália de 1997 pela Benetton.

Alguns números mostram com mais clareza a enormidade da surpresa. Façamos um recorte na F-1 a partir de 2010. A escolha não é aleatória. 2009 foi o último campeonato realmente esquisito da história, vencido pela Brawn, um time de uma única temporada – nasceu do espólio da Honda e em 2010 foi vendido para a Mercedes. 2010 marca o início da era que vivemos hoje, de quatro grandes equipes dominantes: Red Bull, Mercedes, Ferrari e McLaren. Dessas, só a Ferrari não ganhou títulos no período. Mas ganha corridas, pelo menos, com aceitável frequência. Dos 16 campeonatos de pilotos disputados entre 2010 a 2025, oito foram vencidos pelos rubro-taurinos, sete pelos prateados e um pelos papaias.

Pierre ainda nos treinos livres: equipe nunca tinha feito pole

Mas é de poles que estamos falando. De 2010 até domingo retrasado, na Holanda, foram formados 341 grids na F-1. Em 336 deles, 98,5% do total, o pole-position era piloto de uma dessas quatro equipes. Foram 145 poles da Mercedes, 106 da Red Bull, 51 da Ferrari e 34 da McLaren. As avulsas, para quem ficou curioso: três da Williams (Nico Hülkenberg no Brasil/2010, Pastor Maldonado na Espanha/2012 e Felipe Massa na Áustria/2014), uma da Racing Point (Lance Stroll na Turquia/2020) e uma da Haas (Kevin Magnussen no Brasil/2022, mas ele largou na pole da Sprint, cujo resultado determinava o grid da corrida principal pelo esdrúxulo regulamento daquela temporada; formalmente, porém, a pole foi dele e para ele é contabilizada nas estatísticas oficiais).

A pole de Gasly, portanto, é apenas a sexta nos últimos 342 grids da F-1, já contando o de amanhã em Monza. Isso dá 1,7% de todas as poles reservadas às “outsiders” pequenas e médias da categoria desde 2010. Resumindo, o que Pierre fez é muito raro. Como rara foi sua vitória lá mesmo em Monza no GP da Itália de 2020, pela pequenina AlphaTauri – hoje Racing Bulls (sem palhaçada com cartões de crédito, por enquanto). Foi uma das seis vencidas por equipes externas ao quarteto já citado no mesmo período, proporção idêntica à de poles.

Vai ganhar amanhã? Difícil, bem difícil. Seria outra surpresa gigantesca, já que até agora o máximo que a equipe francesa conseguiu, neste ano, foram dois sextos lugares – na China com Gasly e no Canadá com Franco Colapinto. Nas últimas cinco corridas, marcou meros seis pontos, sendo ultrapassada na briga pelo quinto lugar entre os construtores pela Racing Bulls. No ano passado, lembremo-nos, a Alpine foi a lanterna da competição, o que levou a Renault a descontinuar seus motores para ser cliente da Mercedes.

Hamilton: na segunda fila, chances de vitória

Tem gente mais preparada para vencer o GP da Itália neste domingo, mas Pierre pode almejar um pódio, quem sabe, para reparar a injustiça cometida pela FIA ontem. Sim, ontem. Foi ontem que a entidade comunicou ao francês que o terceiro lugar de Mônaco foi devolvido a Isack Hadjar, da Red Bull, depois da revisão do resultado de pista. “Fomos roubados”, resmungou o piloto. Tendo a concordar com ele. Mas já falamos sobre isso ontem, e nesse episódio aí Inès est morte.

George Russell, o segundo no grid, é um dos que parecem ter mais condições de erguer o troféu das tigelas e canecas amanhã. Seu tempo foi apenas 0s060 pior que o de Gasly e ele mandou um “uau” pelo rádio quando soube que tinha sido batido pelo francês. O terceiro colocado era Oscar Piastri, da McLaren, mas ele foi punido com a perda de três posições no grid por atrapalhar Liam Lawson, da Red Bull, e caiu para sexto. A segunda fila, assim, terá os dois carros da Ferrari, Charles Leclerc subindo para terceiro e Lewis Hamilton, para quarto. Ambos também têm chance de vitória, considerando o biom ritmo de corrida do time vermelho. Depois vêm Max Verstappen e Piastri. Colapinto parte em sétimo, seguido por Lando Norris, Arvid Lindblad e Gabriel Bortoleto nas dez primeiras posições. Kimi Antonelli, que fez o sétimo tempo na classificação, larga do fim do pelotão porque a Mercedes trocou seu motor. Com ele, para o fundão, foram igualmente deslocados Lawson e Alexander Albon. Red Bull e Williams também trocaram os motores de seus carros.

E vamos saber, passo a passo, como foi esse sábado de Monza que se inscreveu na história da F-1 como um dos mais surpreendentes dos últimos tempos.

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Início da classificação: muito calor em Monza

A volta da Aston Martin à condição de carro de corrida empurrado por motor de scooter facilitou a vida de todo mundo no Q1. Seus dois pilotos seriam eliminados junto à dupla da Cadillac, isso era certo. A eles, provavelmente, juntar-se-iam os da Williams. Se um deles se salvasse, entraria na fila da degola alguém da Haas – provavelmente Esteban Ocon, que não recebeu o motor atualizado da Ferrari e está desde ontem com um 1.3 de Uno SX – Oliver Bearman, por sua vez, foi agraciado com a nova unidade de potência.

Mesmo assim, quase todo mundo saiu torrando pneu macio, já que para a corrida o esqueminha será muito simples: uma parada, um jogo de médios e outro de duros, na ordem desejada. Lawson e Russell fizeram suas primeiras saídas com médios e foram as exceções. O neozelandês tinha motivo para tal: foi para a pista sabendo que iria largar do fundo do grid. Aproveitou para experimentar os médios no calorão de 33°C, com 56°C no asfalto. Sua missão, um pouco mais tarde, seria apenas fornecer o vácuo a Verstappen.

No fim, a surpresa entre os que empacaram no Q1 foi Yuki Tsunoda, em 17º, permitindo o avanço dos dois da Haas e de um da Williams – no caso Carlos Sainz. Depois do japonês vieram Albon, Valtteri Bottas, Sergio Pérez, Alonso e Stroll. Foi a 100ª eliminação do canadense em Q1, recorde desde que o formato foi adotado, em 2006. O segundo lugar nessa estatística indesejada é de Magnussen, com 74 degolas em Q1. Já o japonês da Você Pode Usar Um Cartão Virtual decepcionou. Lindblad, seu companheiro, tinha feito o quinto tempo. O mais rápido na primeira parte da classificação foi um surpreendente Gasly com 1min22s612, seguido por Verstappen, Norris, Colapinto e Lindblad.

O início do Q2 foi bem doido, com Piastri, Norris e Gasly fazendo os três melhores tempos logo na primeira saída dos boxes. Tudo com motor Mercedes. E por onde andavam os favoritos? Mais para trás, alguns perigosamente. Após a primeira leva de voltas rápidas, Hamilton, em 11º, era o mais pressionado. A melhor volta até então, do australiano da McLaren, era de 1min22s017.

F1 2026, ITÁLIA, CLASSIFICAÇÃO, MCLAREN, OSCAR PIASTRI
Piastri: primeiro no Q2

A segunda bateria de tentativas começou mal para a Red Bull. Lawson teve sua volta prejudicada por Piastri, não conseguiu melhorar e não poderia, assim, ajudar Verstappen no Q3. Os últimos instantes foram tensos especialmente para a dupla da Ferrari. Os dois acabaram passando em nono e décimo. Hamilton avançou com uma volta 0s001 melhor que a de Bortoleto, que abriu a trupe dos eliminados. “Foi meio apertado”, concluiu o inglês. Meio? Depois do brasileiro da Audi vieram Bearman, Hülkenberg, Lawson, Sainz e Ocon. Antonelli acabou o segmento em primeiro com 1min21s882, o primeiro a baixar da casa de 1min22s no fim de semana.

A Mercedes mandou Kimi para à pista à frente de Russell logo que os boxes foram abertos para o Q3, dando o vácuo ao companheiro na reta principal de Monza. George desfrutou da ajuda programada e virou 1min21s929, colocando-se em primeiro provisoriamente. Piastri fechou seu tempo apenas 0s037 atrás e Gasly, àquela altura o “dark horse” do sábado, foi o terceiro a 0s072 do inglês da Mercedes. (De péssimo gosto a referência a “azarão” em inglês. Peço perdão a Gasly, à Alpine, a todos os franceses e aos meus leitores, que não são obrigados a se deparar com o termo assim, sem mais nem menos. Se desconfiarem que recebi alguma coisa pela menção, serei obrigado a aceitar a suspeita. Mas não recebi nada, vos garanto.) Quem estava mal era Hamilton, com uma volta 0s795 pior que a de Russell, aparecendo em nono. Ninguém deu o vácuo ao inglês e ele saiu de Monza, de novo, reclamando da falta de camaradagem que sente em Maranello. Antonelli, quando todos foram para os boxes, voltou à pista sozinho e, sem se valer do vácuo que é tão decisivo no circuito italiano, fez uma volta muito boa, ficando a 0s164 de George. Foi um aviso: iria voar na corrida.

O grid em Monza: Antonelli na penúltima fila

Faltando pouco mais de dois minutos para o encerramento da sessão as equipes liberaram seus pilotos para a derradeira saída. Fechavam a fila os dois da Alpine. Piastri cometeu um erro no começo da volta e saiu da briga. Ninguém se aproximou de Russell, que caprichou na segunda volta voadora e melhorou seu tempo, batendo o cronômetro em 1min21s846. E, então…

Então Gasly passou pela quadriculada em 1min21s786.

E ninguém acreditou. Pierre Gasly na pole-position. Nove anos de espera, desde a estreia na Malásia em 2017 pela Toro Rosso. Nove anos.

Quem acredita sempre alcança.