Verstappen: 72 vitórias na carreira

Não foi aquela moleza, mas Max Verstappen confirmou seu favoritismo e venceu o GP do Bahrein disputado na Malásia hoje pela manhã. Manhã, sim, porque a corrida deveria ter começado de madrugada, mas quando a largada foi autorizada o sol já dava as caras por trás do skyline paulistano — que diviso das amplas janelas de meu apartamento construído entre 1969 e 1970 em concreto armado, no mais puro estilo brutalista soviético; meu prédio é o máximo, mas o condomínio é muito caro.

Para o relato que segue, adotemos o horário de Brasília como fio condutor dos acontecimentos pré-corrida. Se quiserem saber o horário local, façam as contas: o fuso é de 11 horas a mais na Malásia em relação ao nosso.

A largada estava marcada para as 4h (15h locais, pois), mas chovia muito naquela hora, uma chuva forte o bastante para não permitir arroubos de valentia por parte de ninguém em Sepang, circuito velho de guerra alugado pelos promotores barenitas para que pudessem fazer sua etapa do Mundial. No caso, a 16ª desta temporada.

Chuvarada em Sepang: largada adiada

Era uma situação típica daquela região. Calor — bem menos que nos dias anteriores, é verdade, com termômetros anotando 25°C — e intensas pancadas de chuva que vêm e vão sem muita cerimônia. Não havia previsão de chuva para a hora da corrida, como dissemos ontem, mas ela podia chegar a qualquer momento, como também dissemos ontem. É muito fácil ser meteorologista em Kuala Lumpur. O sujeito vai à TV e decreta: não há previsão de chuva para hoje, mas pode chover a qualquer momento. Pronto, não tem erro.

Às 4h40, depois de algumas voltas percorridas pelo safety-car para verificar as condições da pista, equipes e pilotos finalmente saíram dos boxes para o alinhamento no grid. Mas a volta de apresentação, atrás do safety-car, foi caótica. Alguns carros aquaplanaram, outros apagaram no meio do circuito com panes de todos os tipos — em geral eletrônicas, mas também pode ser que a água tenha molhado distribuidores ou entrado pelo escapamento, já aconteceu isso comigo — e o procedimento foi cancelado. É bom lembrar que os carros dessa geração ainda não correram com chuva de verdade. Por isso, tudo que a água trouxesse era novidade.

O drama mais visível foi de Lewis Hamilton, segundo no grid, que foi parando, parando e só conseguiu fazer o carro funcionar depois de reiniciar o sistema — que é exatamente isso: desligar, esperar dez segundos e ligar de novo, como deve ser feito quando seu computador trava, ou a caixinha da NET (minha caixinha ainda é da NET e acho chique).

Caos na largada: safety-car no meio do pelotão

Com aquela zona absoluta, carros parados espalhados pela pista, outros piscando as luzes como se pedissem socorro, a direção de prova mandou que todos voltassem aos boxes. Só uma mensagem um pouco mais otimista entre os pilotos havia sido emitida pelo rádio. Foi de Kimi Antonelli para seu engenheiro da Mercedes: “Está secando muito rápido”, falou o italiano.

A única unanimidade no grid para aquela largada abortada das 4h40 eram os pneus. Todos estavam com os intermediários, que levantam menos spray e funcionam bem, atualmente, quando a chuva não atinge níveis assustadores. Àquela hora (os relógios de parede da minha sala, que os tenho, dois charmosíssimos, marcavam exatamente 5h), a água dera uma trégua. Nos barrancos que servem como arquibancadas naturais ao longo do traçado, o povo que lotou as dependências do autódromo começava a fechar os guarda-chuvas.

Às 5h23 apareceu a mensagem nas telas dos computadores e da TV: o início da prova dar-se-ia dali a dez minutos. O número de voltas original, 56, caíra para 55. A pista, pelas imagens aéreas, parecia estar quase seca. Já não chovia havia algum tempo. As equipes, claro, estavam de olho no que as câmeras mostravam. Não seria surpresa nenhuma se algum cabra mais destemido optasse por pneus slick para a largada. “Quem não arrisca não petisca”, comentou um engenheiro, que pediu anonimato, ao seu chefe de equipe, para justificar a escolha feita. “Explique”, pediu o chefe. “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir!”, devolveu o engenheiro, cheio de marra. O chefe comentou com o diretor do time, na cadeira ao lado. “Vou mandar esse cara embora”. “Por quê?” “Porque nunca sei o que ele está pensando. E quem não se comunica se trumbica”, explicou.

Quando as mantas térmicas foram retiradas dos pneus, a surpresa: nem todos optaram pela segurança dos pneus intermediários. Verstappen, Antonelli, George Russell, Isack Hadjar, Liam Lawson, Carlos Sainz, Esteban Ocon, Alexander Albon e Arvid Lindblad, precavidos, ficaram com eles. Formavam uma minoria, nove carros. Os outros 13 no grid estufaram o peito e optaram pelos slicks acreditando que o asfalto secaria rapidamente, obrigando os covardes com pneus de chuva a um pit stop prematuro.

Início de prova: grande largada da Mercedes

Mas já na volta de alinhamento, atrás do safety-car, deu para ver que os valentões iriam se dar mal. Pierre Gasly rodou e foi para a brita. Conseguiu voltar, mas como as voltas já estavam contando, perdeu posições e não pôde recuperá-las. Cientes de que haviam ultrapassado a linha do bom-senso, alguns dos corajosos, antes mesmo da largada, foram para os boxes com o rabinho entre as pernas colocar intermediários para corrigir o rumo: Oscar Piastri, Gabriel Bortoleto, Lance Stroll, Nico Hülkenberg e Sergio Pérez. Tiveram de largar do pit lane.

E às 5h40, finalmente, a corrida começou. Neste humilde lar da zona sul da capital paulista, a luz da manhã invadia a sala por entre as frestas das persianas translúcidas. O café fumegava da xícara de louça branca rústica e resistente. E lá do outro lado do mundo, em Sepang, Verstappen, na pole, patinou.

Patinou na largada, o pole, e Antonelli passou por ele assumindo a liderança. Russell, vindo lá de trás, sétimo no grid, partiu feito um raio e chegou à primeira curva em segundo, atrás do jovem companheiro. Quem insistiu nos slicks para manter a fama de mau despencou na classificação. Porque a pista até parecia seca. Mas não estava. Antonelli, Russell, Verstappen, Lawson, Hadjar, Sainz, Ocon, Albon, Lindblad e Piastri eram os dez primeiros. Lindblad ganhou 13 posições na largada. Ocon e Albon, dez. Sainz, sete.

A aposta de alguns desassombrados nos pneus para pista seca tinha sido alta demais. Na quarta volta, Charles Leclerc, um desses remanescentes, parou e colocou intermediários. Na quinta, a Ferrari chamou Hamilton, que também tinha largado de slicks. Mas o inglês resolveu ficar com o que tinha. “Está secando!”, jurou. E não foi para os boxes. Àquela altura, porém, Lewis havia desabado para a 17ª colocação, mais de 1min atrás do líder Antonelli. Quem tinha pneus intermediários fazia tempos na casa de 1min50s. Quem estava de slicks virava voltas de 10s a 15s mais lentas. Um desastre.

Na sexta volta, recuperado da largada claudicante, Verstappen passou Russell. Pouco depois, Hadjar deixou Lawson para trás e assumiu a quarta posição. Os carros da Red Bull rendiam bem no piso úmido. Max, na volta 9, chegou em Antonelli e foi buscar a liderança.

Bottas atolado: primeiro safety-car

Foi quando Valtteri Bottas rodou e atolou na curva 13. O safety-car foi chamado e quem estava de intermediários foi para os boxes colocar slicks, porque naquele momento quem tinha pneu para pista seca já começava a fazer tempos bem melhores. Os pneus de chuva haviam cumprido sua missão, o asfalto secava e a prova seria retomada com todos de pneus lisos. Alguns de macios, outros de duros, outros tantos de médios. Tinha para todos os gostos.

Adotemos nova convenção, agora pneumática, para entender este reinício de prova: S para pneus macios (“soft”), M para médios e H para duros (“hard”). A ordem na relargada, autorizada na volta 13, era Antonelli (M), Verstappen (S), Russell (M), Hadjar (S), Lawson (H), Ocon (S), Lindblad (H), Sainz (S), Bortoleto (S) e Piastri (S). Hamilton, em 15º, era o único que não tinha parado nos boxes. O safety-car salvou seu couro, porque o pelotão se agrupou e a desvantagem de mais de um minuto para os ponteiros foi anulada. Ele perdeu posições, é verdade, mas retomaria a prova junto com todo mundo, sem ter de escalar o Everest para se recuperar.

A relargada de Verstappen foi excepcional. Preparou a ultrapassagem sobre Antonelli nas duas primeiras curvas e completou a manobra na terceira, assumindo a ponta. Russell veio de carona e passou também. Ajudou o holandês o fato de ter pneus mais macios que os do italiano da Mercedes. Não se sabia quanto aquela borracha iria aguentar, porém. Ninguém sabia. Porque em nenhum momento, nos treinos, pneus macios foram usados com o asfalto tão frio — 33°C naquele momento, contra quase 60°C na sexta e no sábado. Na dúvida, Max acelerava.

Hamilton: último a trocar pneus

Entre os dez primeiros, Lawson, Ocon e Lindblad eram os destaques da prova, por terem largado lá do fundão e já ocuparem quinta, sexta e sétima posições na volta 15. Bortoleto aparecia em oitavo, mas teve de parar nos boxes para trocar o bico de seu carro, danificado numa refrega com Sainz — da qual foi considerado culpado, tomando um pênalti de 10s. Hamilton, por sua vez, recuperava-se rapidamente e era o nono na volta 17.

Verstappen, na volta 20, tinha mais de 3s de vantagem sobre Russell. Antonelli, terceiro atrás do inglês de olhos azuis como duas piscinas na favela (minha mulher fala isso de mim sempre, não sei se é elogio ou pilhéria), mandou seu recadinho pelo rádio: tinha mais ritmo que ele. Queria passar. Dona Veronica, sua mãe, mandou uma mensagem no celular de Toto Wolff: “E aí, não vai fazer nada?”. O chefe da Mercedes, que anda estressado, não respondeu. Hamilton, mais atrás, já era o sétimo depois de passar por Piastri e Lindblad.

Kimi tinha mesmo mais ritmo que George, tanto que passou o inglês na volta 21 sem nenhuma dificuldade, para satisfação da mamma, que então largou a corrida na TV e foi preparar o almoço de domingo — rigatoni à Montecarlo, preparo razoavelmente demorado que demanda refogar carne moída, salsiccia (equivalente à nossa linguiça toscana, não precisa inventar muito) e tomates pelados com cebola e alho, finalizando o molho com creme de leite fresco e pesto de manjericão, que pode ser comprado pronto, mas é sempre melhor fazer em casa, algo de que dona Veronica não abre mão.

Antonelli: bom segundo lugar

E foi embora, Antonelli, deixando Russell a ver navios. Só que seria muito difícil, alcançar Max, 5s à sua frente. Já a escalada de Hamilton, mais atrás, seguia firme e forte, com o inglês da Ferrari chegando à quinta colocação depois de passar Lawson. O próximo alvo, no entanto, estava bem distante: Hadjar, 11s à frente.

Mas havia um dado interessante ali. Hamilton continuava sem pit stop e usava pneus macios. Eles já estavam com 24 voltas e não davam sinal de fadiga. Assim como os de Verstappen, na liderança. Sua vantagem para Antonelli só aumentava: 7s6 na volta 25, com a colaboração do jovem da Mercedes, que deu uma escapada da pista na última curva, perdendo algum tempo. O dado interessante é que os pneus macios, que até ontem pareciam esfarelar no asfalto escaldante de Sepang, passaram a ser os melhores do domingo nublado e bem menos tórrido de Kuala Lumpur.

Na volta 30, Verstappen continuava tranquilo na ponta, agora com 9s sobre Antonelli. Russell era o terceiro, seguido por Hadjar, Hamilton, Piastri, Lawson, Lando Norris, Hülkenberg e Fernando Alonso. Os dois últimos entraram na zona de pontos graças a novas paradas de Leclerc, Ocon e Lindblad. Isack perdia redimento e Hamilton se aproximava. Então a Red Bull convocou o francês para os boxes. E a Ferrari fez o mesmo com Lewis. Ambos pararam na volta 32. Voltaram em sexto e sétimo. Hajdar com macios, Hamilton com médios — por obrigação; se pudesse, ficaria com os mesmos pneus até o final, mas como se sabe um pit stop é obrigatório, e ele ainda não tinha feito nenhum.

Na volta 33, quem veio para mais uma troca foi Russell. Colocou pneus macios e voltou onde estava, em terceiro. Verstappen parou na volta seguinte, seguido por Antonelli. Ambos optaram pelos pneus macios novamente, retomando a prova nas mesmíssimas posições, Max com 10s8 de vantagem sobre Kimi.

Com pneus médios, Hamilton sofreu por voltas a fio atrás de Hadjar, sem conseguir ultrapassar o piloto da Red Bull, agora na briga pelo quarto lugar depois dos pit stops de alguns que estavam à frente deles. “Esses pneus são horríveis”, praguejou o heptacampeão, com saudades dos seus macios.

Demora no segundo safety-car: todo mundo trocou pneus

Então, na volta 43, um safety-car virtual foi acionado por causa do abandono de Albon. Verstappen aproveitou para parar de novo e colocar mais um jogo de pneus macios, assim como Hamilton, que não aguentava mais os médios.

Não deu para entender direito a parada de Max. Ele tinha mais de 15s de vantagem sobre Antonelli, e voltou atrás do líder do campeonato. O espanto durou pouco, porém, porque a Mercedes também acabou chamando seus dois pilotos aos boxes. O mesmo fez a Red Bull com Hadjar. Ninguém queria arriscar nada. Se meu adversário troca os pneus, eu também troco — este parecia ser o mote dos engenheiros aboletados na mureta dos boxes.

Sem conseguir tirar o carro de Albon do lugar, os fiscais de pista tiveram de colocar um trator em cena, o que fez a direção de prova chamar o safety-car de verdade, anulando novamente as diferenças entre os pilotos. Quem não tinha parado, parou. Verstappen, Antonelli, Russell, Hadjar, Hamilton, Leclerc, Piastri, Norris, Lawson e Alonso eram os dez primeiros. Apenas Piastri tinha pneus médios. Os demais, macios.

A relargada demorou muito e só aconteceu na volta 52, nove depois do irrelevante acidente do tailandês da Williams. E, antes dela, dois dramas. O primeiro, de Russell: seu carro, de repente, apagou na reta dos boxes. E Norris escapou da pista, caindo para 11º. O inglês abandonou, dando adeus ao pódio e ao campeonato de vez. A equipe suspeita de algum problema no motor.

Verstappen, como de hábito, relargou bem e não deu chances a Antonelli de atacá-lo pela vitória. Mas ainda tinha briga na zona de pontuação. Hamilton, com pneus macios de novo, engoliu Hadjar e foi buscar seu troféu, assumindo o terceiro lugar. Leclerc fez o mesmo, passando o francês. Alonso, num excepcional oitavo lugar, agarrou-se a ele como se fosse o último colete salva-vidas do Titanic, com Norris em seus calcanhares.

Os dez primeiros em Sepang

E assim terminou o longo GP do Bahrein na Malásia, com Verstappen recebendo a bandeirada 3h20 depois do horário original de largada da corrida, com 2s3 de diferença para Antonelli. Hamilton fechou o pódio depois de uma recuperação comovente, após o início com “pneus secos” em pista molhada. Leclerc, Hadjar, Piastri, Lawson, Alonso, Norris e Lindblad completaram a zona de pontos. Bortoleto terminou em 18º.

Max chegou a 72 vitórias na carreira, a primeira desde o GP de Abu Dhabi do ano passado, exatos 301 dias atrás. É a 11ª temporada seguida em que vence pelo menos uma corrida — só Michael Schumacher e Hamilton conseguiram isso e um pouco mais, ambos com triunfos em 15 Mundiais consecutivos. Deve ganhar mais algumas até o final do ano. A Red Bull acordou tarde, mas acordou. E todos sabem do que o holandês é capaz quando tem um carro vencedor nas mãos. Neste ano, já tem oito pódios. E repetiu o primeiro lugar que obtivera na Malásia em 2017, na última visita da F-1 ao país. Naquele dia, tinha acabado de completar 20 anos de idade. Era sua segunda vitória na categoria.

Para o campeonato, o resultado apenas consolidou o caminho de Antonelli rumo a seu primeiro título. Ainda que Toto Wolff tenha dito que foi o pior fim de semana da Mercedes no ano — ele não se conformou com a quebra de Russell bem na terra da Petronas, principal patrocinadora do time —, as coisas não foram tão ruins assim. Ao menos para Kimi, que agora tem 320 pontos contra 236 do coleguinha, 84 de diferença. Nas sete etapas restantes do campeonato, são 183 pontos em jogo, contando a Sprint de sábado que vem em Singapura. Russell precisaria descontar 12 pontos por etapa em relação a Antonelli para ser campeão. Não vai conseguir. O campeonato acabou. Faz tempo, aliás.

Fisichella recebe troféu de Interlagos em Ímola: última vitória da Ford

E se embromamos um monte ontem para falar da primeira pole de um motor Ford desde 1999, que se faça algo parecido agora em relação à vitória de Verstappen empurrado por uma unidade de potência que leva a estampa do oval azul no cabeçote.

A última tinha sido em abril de 2003 com Giancarlo Fisichella, da Jordan, em Interlagos. Vitória em dois turnos, só confirmada alguns dias depois, por um problema de cronometragem — a prova terminou sob bandeira vermelha e, num primeiro momento, Kimi Raikkonen, da McLaren, foi declarado vencedor. Na prova seguinte, em Ímola, eles destrocaram os troféus.

E o que estava acontecendo no Brasil em 2003?

Entre outras coisas, Lula começava seu primeiro governo, eleito que fora em 2002.

Sinais, meus filhos. Sinais.

E que o destino desta nação seja luminoso, depois de hoje. Apesar de tanta gente, com seu fetiche quase sexual pelo fascismo, ainda optar pelas sombras e pelo obscurantismo, pelas armas e pelo ódio, pela homofobia e pela machismo, pela misoginia e pelo racismo, apesar de tanta gente que não se importa em entregar seu voto a quem defende a tortura, nega a ciência, despreza o meio-ambiente, ataca a cultura, entrega o país.

Não ajude a fazer do Brasil o pior lugar do mundo para viver. Tudo que queremos é que este seja um belo lugar. Bora, Lula!