SÃO PAULO (outono, outono) – Pois vamos lá. Vettel é um monstrinho, não? Danado, diria minha avó. Foi à pole pela 17ª vez na carreira, e foi muito mais difícil do que se poderia imaginar.
Foi difícil porque a McLaren está melhor do que se poderia imaginar, também. Depois de algumas sessões de autoesculacho na pré-temporada, Hamilton e Button receberam já na Austrália um carro danado de bão, também. Como diria minha avó.
E, assim, foi graças ao talento bem acima da média que Vettel conseguiu bater ambos, e por pentelhésimos, depois de uma batalha bonita em Sepang. Não fosse o KERS, não conseguiria. Foi o que ele mesmo disse. É que o KERS mclariano é bão de doer, como dizia minha avó.
Tô brincando, minha avó não dizia bão e nem gostava de F-1.
Vettel x Hamilton é o que está pintando de briga neste ano, embora eu ainda ache que a Red Bull tenha mais carro. Mas é ótimo ver a McLaren perto, porque é uma chance de impedir o domínio especulado na coluna de ontem. E Button também pode entrar na briga, porque de bobo não tem nada. Webber? Um pouco mais para trás. Talvez venha a ser um fator atrapalhador de mclarens, ajudando Tião Alemão. Mas é cedo para querer adivinhar o futuro. Deixemos o futuro para lá.
Vettel, Hamilton, Webber e Button formam as duas filas. Alonso, coitado, ficou em quinto, quase 1s atrás. A imagem de El Fodón sentado, desolado, vendo a tela de tempos, é, como gostam de dizer os eruditos, emblemática. Estou pensando em promovê-lo de El Fodón de las Astúrias a El Fodidón de Maranello. “Onde fui me meter?”, deve pensar o espanhol.
Brincadeira, a Ferrari tem como reagir nos próximos cinco anos, Fernandinho, relaxa.
Heidfeld em sexto. Uai, ele não era um desastre? Eram os defensores de Bruno Senna que alardeavam isso depois da Austrália. Não, não é um desastre. Heidfeld vai fazer muitos pontos neste ano. Massa em sétimo, normal. Se Alonso apanha do carro, Felipe apanha mais ainda. Mas, para o brasileiro, tem sido um fim de semana mais positivo do que o de Melbourne. Ele andou em quase todos os treinos à frente de Alonso e não ficou muito distante no cronômetro na classificação.
Fechando os dez primeiros, Petrov (danadov, diria minha avó), Rosberguinho e o mítico Kobayashi. Este é o quadro de 2011: as três grandes atuais, Red Bull, McLaren e Ferrari, as duas quase-grandes, Mercedes e Renault, e um ou outro beliscando o Q3. E o que dança deve ser sempre crucificado. No caso, hoje, Schumacher.
Ô Schumacher, tá feia a coisa, não?
O Q2 limou o alemão, as duas Toro Rosso, as duas Force India, Pérez, que começou bem e acabou mal, e Barrichello. Rubens merece algumas linhas. Em entrevista à Globo, senti que ele está desanimado. É raro, isso. Barrichello é um otimista por natureza. Se ele está desanimado, é porque as perspectivas da Williams são sombrias. Tanto que Maldonado foi o exilado no Q1, se juntando ao sexteto nanico dos pilotos da Virgin, Lotus e Hispania.
Nesse sexteto, palmas para a Hispania, que ela merece. Eu achava que não iria largar em nenhum GP. Colocou os dois dentro dos 107%, façanha maior do que a pole de Vettel, considerando-se que esse carro mal andou. E com alguma folguinha. Proeza digna de nota.
Vettel é favorito à vitória. Mas não favoritíssimo. Favorito. Ele que se cuide com a McLaren. Pode ser que chova. Isso muda tudo, em geral. Dependendo do momento em que vier a água, claro. Vai ser uma boa corrida, espero. E aproveito para avisar à macacada que a partir desta prova a rádio onde trabalho, Estadão/ESPN, vai transmitir todas as etapas do Mundial. Abrimos nossos trabalhos às 4h pelos 700 kHz no AM e 92,9 KHz no FM, aqui em São Paulo. Para ouvir pela internet, é só entrar aqui.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.