A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (dá tempo, ainda) – Aconteceu tanta coisa ontem e hoje na F-1 que a gente mal lembra do GP da Hungria. Mas nosso rescaldão nunca falha. Como imagem do domingo, fico com a desolação de Leclerc, que continua até agora sem entender por que a Ferrari colocou pneus duros […]
Publicado em 02/08/2022 às 20:25
Atualizado em
6 min de leitura
Compartilhar
A IMAGEM DA CORRIDA
Leclerc arrasado: crise na Ferrari
SÃO PAULO(dá tempo, ainda) – Aconteceu tanta coisa ontem e hoje na F-1 que a gente mal lembra do GP da Hungria. Mas nosso rescaldão nunca falha. Como imagem do domingo, fico com a desolação de Leclerc, que continua até agora sem entender por que a Ferrari colocou pneus duros em seu carro no segundo pit stop. A equipe foi a grande derrotada do fim de semana. E virou motivo de chacota…
O gráfico abaixo mostra as posições de pista de cada um ao longo da movimentadíssima corrida magiar. Acompanhem as linhas de Leclerc. Notem como ele liderava numa posição quase confortável até a segunda parada. Depois, foi um desastre.
Volta a volta em Hungaroring: prova foi muito movimentada
HUNGRIA BY MASILI
Nosso cartunista oficial Marcelo Masili finalmente desvendou como a equipe italiana define suas estratégias de corrida. Genial.
“Foi problema mais de ritmo do que de estratégia”, defendeu-se o chefe Mattia Binotto. “A estratégia do Carlos foi a mesma que a do Hamilton e não funcionou. O carro é que não funcionou.” OK, é uma explicação. De fato, a Ferrari não andou bem, o frio dificultou o aquecimento de seus pneus, o favoritismo evaporou no asfalto gelado de Hungaroring num fim de semana em que só fez calor mesmo na sexta-feira. Depois, o caos: chuva no último treino livre, temperaturas baixas até o domingo.
Mas o que ninguém entende é a falta de confiança no seu principal piloto. Leclerc foi assertivo: “Eu disse que os pneus médios aguentavam mais, a gente não precisava parar naquela hora”, contou. “Não sei qual foi a lógica que eles seguiram.”
Até agora, nenhuma cabeça rolou em Maranello.
O NÚMERO DA HUNGRIA
10º
…lugar a posição no grid de Verstappen, que venceu a prova. De suas 28 vitórias, foi aquela em que largou mais atrás. Antes, sua pior posição de largada em corridas que venceu havia sido um quarto lugar. Isso aconteceu quatro vezes: na Espanha/2016, na Áustria/2018, no GP do 70º Aniversário em Silverstone/2020 e na Arábia Saudita/2022. Largar em décimo e vencer não é fácil em momento algum da história. Os últimos que conseguiram, antes de Verstappen: Ricciardo (Azerbaijão/2017), Gasly (Itália/2020) e Hamilton (Brasil/2021).
Max no pódio: nunca venceu largando tão atrás
Detalhe que passou despercebido em meio à festa do holandês: ele correu sério risco de não terminar a corrida, se não tivesse tido um problema no… sábado! Na última volta de classificação, Max perdeu potência e nem conseguiu fazer tempo — o que explica sua décima posição no grid. Christian Horner, o chefe da Red Bull, revelou que o motor de sábado, pelos cálculos da equipe, quebraria se rodasse mais 12 km. Por isso, componentes foram trocados de um dia para o outro — dentro do limite que evitasse punições.
Decisões rápidas e precisas foram a chave para a oitava vitória de Verstappen no ano. Uma delas, a de largar com pneus macios. A ideia inicial era ir de duros, estratégia clássica para quem larga a trás e estica o primeiro stint. Eram os macios que estavam calçados nos dois carros do time quando eles foram para o grid. Ambos disseram que a aderência era baixíssima. Se com os macios estava daquele jeito, com os duros seria uma tragédia. Mudaram tudo que haviam pensado e foram com os mais aderentes, mesmo.
Nem precisa dizer que acertaram na mosca.
A FRASE DE BUDAPESTE
“Se não fosse o problema da asa móvel no sábado, eu teria largado na primeira fila. E lutaria pela vitória. Nosso último stint foi muito especial.”
Lewis Hamilton
Hamilton com o pole Russell: Mercedes reagindo
Parece bem claro que a Mercedes já não é aquela coisa claudicante e complicada das primeiras corridas do ano. Hamilton foi o segundo colocado e Russell terminou em terceiro. George fez a pole, a primeira de sua carreira. Nas últimas seis etapas, os prateados somaram 170 pontos, contra 135 da Ferrari. Em pódios, 11 para os alemães, dez para os italianos. Lewis levou um troféu para casa nas últimas cinco provas.
Os números estão aí embaixo. Alguém duvida que os mercêdicos ultrapassarão os ferraristas na reta final do campeonato?
A Red Bull não precisa se preocupar com nenhuma das duas e vai para as últimas nove provas do Mundial com a tabela debaixo do braço e fazendo contas. As prioridades agora são outras. Nesta terça-feira, a equipe informou que estendeu o acordo de assistência técnica que tem com a Honda até o final de 2025. Os japoneses, inexplicavelmente, resolveram deixar a F-1 no fim do ano passado. Cederam seus motores ao time austríaco e, através de sua subsidiária HRC (Honda Racing Corporation), se comprometeram a tocar produção e manutenção por dois anos, 2022 e 2023. Afinal, a Red Bull não tem experiência ou tecnologia para fabricar motores. Foram alocados equipamentos e funcionários junto ao time para que o parceiro não ficasse na mão.
Com esse novo acordo, é bem provável que a marca Honda volte a aparecer com algum destaque nos carros da Red Bull e da AlphaTauri nos próximos três anos. Hoje, há apenas um discreto adesivo da HRC no capô. A partir de 2026, já está certo um acordo entre a Red Bull e a Porsche para quando passar a valer o novo regulamento de motores da categoria. Até lá, pode ser que a Honda decida fornecer suas unidades de potência para quem se interessar.
HRC: braço de competições da Honda no carro da Red Bull
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS muito, demais mesmo, de ver Nicholas Latifi liderando a folha de tempos num treino oficial. Foi na terceira sessão livre, sábado de manhã, com chuva. E o cara enfiou 0s661 no segundo colocado, Charles Leclerc! É para imprimir, emoldurar e pendurar na parede. Mas…
Latifi no sábado de manhã: maior glória da carreira
NÃO GOSTAMOS de vê-lo em último grid algumas horas depois. A vida é muito cruel nessa tal de Fórmula 1.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.