SÃO PAULO (mas vai ser duro…) – Torcemos por Kobayashi, óbvio, mas não creio que nosso samurai vai vencer a corrida. Há dois favoritos claros à vitória amanhã. Um é Button. O outro, Raikkonen.
Jenson fez sua primeira pole pela McLaren. Justo na 50ª corrida pela equipe. O bonitão não está entre os grandes “polemen” de todos os tempos. Longe disso. Foi apenas sua oitava pole. Por serem poucas, não custa lembrar das demais: San Marino/2004 e Canadá/2005 pela BAR, Austrália/2006 pela Honda e quatro com a Brawn em 2009 (Austrália, Malásia, Espanha e Mônaco), naquele primeiro semestre em que trucidou a concorrência. Portanto, mais de três anos sem saber o que é largar sem ninguém na frente.
A McLaren saiu de férias em primeiro e retoma as atividades de novo na frente. Hoje, essa pole teve a ver com a nova asa traseira com canaletas que Button teve e Hamilton, não. A asa nova tem aqueles dutos aerodinâmicos que a Mercedes usa desde o início do ano. Testada no terceiro treino livre, não agradou Lewis, que decidiu usar o modelo antigo. Pelo Twitter, o vencedor do GP da Hungria lamentou a escolha. “Foi um erro. Jenson, com a velocidade que tem, vai ganhar a corrida”, previu.
É o que acho também, mas tem Raikkonen na parada. Kimi correu sete vezes em Spa. Chegou ao fim da prova quatro vezes. E venceu as quatro. Portanto, ou seja, obviamente, como diria Luciano Burti, quando termina, vence. Foi assim em 2004 e 2005 com a McLaren e em 2007 e 2009 com a Ferrari.
Raikkonen foi o quarto colocado na classificação, mas vai largar em terceiro. Isso porque a FIA, mais uma vez, lascou o cartão vermelho no pobre do Maldonado. Ele largaria em terceiro, mas perdeu três posições no grid por ter atrapalhado Hülkenberg no Q1. Não houve prejuízo algum ao alemão, que passou para o Q2. Mesmo assim, carcaram fumo no infeliz venezuelano, que seria candidato ao pódio se fizesse uma corrida simples e eficiente como em Barcelona, onde venceu. Sacanagem ideológica, tenho certeza! Eliseo Salazar é um dos comissários esportivos neste fim de semana. Chileno, meio reaça. Ferraram o Pastor, em resumo. E como ele é meio perturbado, a chance de fazer alguma atrocidade na primeira volta é grande.
Falemos do treino, realizado com sol entre nuvens e 16 graus, um calor danado para os padrões spa-francorchampianos. Maldonado foi o mais rápido na primeira parte da classificação. Antes, pela manhã, a turma andou com pista seca pela primeira vez e Alonso foi o melhor. Caíram os de sempre, os seis das nanicas, mais Rosberguinho, que vive um fim de semana daqueles. Seu câmbio teve de ser trocado e ele ainda perdeu cinco posições no grid. Parte em penúltimo.
No Q2, Button foi o primeiro a entrar na casa de 1min47s. Nem precisou suar. Estava desenhado seu favoritismo. Massa e Bruno Senna empacaram aí. O ferrarista sai em 14°. Explicações à moça da Globo: carro difícil no segundo setor, sai de frente, sai de traseira, não tem bom balanço, a lua não é azul, Ganso vai pro São Paulo mesmo? O primeiro-sobrinho fez uma burrada: abriu a asa-móvel numa curva e perdeu o carro, que passou por cima da zebra atravessado e, segundo ele, ficou danificado. À moça da Globo: “Fiz a curva com o DRS aberto, enfim, paguei o preço, enfim. Danifiquei o carro na zebra, enfim, não foi muito agradável, enfim.” Larga em 17°, enfim.
Schumacher, que faz 300 GPs amanhã, também ficou no Q2 e pediu desculpas à equipe pelo rádio. É o 13°. Sem grandes surpresas, pois, na segunda parte da classificação, exceção feita a Vettel, que não se encontrou ainda em Spa e tem tido uma temporada que se parece com um eletrocardiograma, irregular demais. Webber passou, foi o sétimo, mas também trocou o câmbio e larga em 12°.
No Q3, em Spa, a praxe é dar uma volta rápida só, e a maioria fez isso. Button e Raikkonen fizeram duas tentativas. O inglês cravou 1min47s686 na primeira e 1min47s47s573 na segunda. Kimi foi bem na primeira e mal na segunda. A pole estava garantida. Alonso, que larga em quinto, tinha razão ao dizer que seu carro está longe de ser o mais rápido do lote. Para sua sorte, os dois rubrotaurinos estão atrás no grid, o que lhe dá certa tranquilidade. O mesmo vale para Hamilton. Vai correr para chegar na frente deles e ampliar sua vantagem nos pontos. Raikkonen é o único à sua frente entre aqueles que sonham com o título. Button disse que está na briga, mas é só retórica. Está muito atrás na classificação.
Dizem que não chove amanhã. Veremos. Em Spa, nunca se sabe. Olho nos pneus. Os duros são entre 0s6 e 0s9 mais lentos que os médios, de acordo com a Pirelli. Ano passado, Vettel venceu com três paradas, mas os compostos escolhidos foram outros, macios e médios.
Estávamos com saudades de uma corridinha, não? Então vamos a ela.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.