
Lewis & Valtteri: um com cara de bunda, o outro com sorrisinho maroto
RIO (veranico) – Uma olhada na tabela de tempos depois da classificação em Barcelona assusta um pouco. Bottas mais de meio segundo na frente de Hamilton? Precisamente: 0s634, temporal de 1min15s406 que lhe deu a nona pole na carreira, terceira no ano.
Ô, ô, ô, o Amilton acabô?
Calma. Há algumas razões técnicas que explicam a diferença muito larga no cronômetro, e que têm a ver com a enorme sensibilidade desses carros atuais da F-1 a qualquer coisa — hoje, se você mostrar a língua para um antes de uma volta de classificação é capaz de ele perder um ou dois décimos.
Hamilton teve de abortar sua última volta no Q2 por conta de uma bandeira amarela e, por isso, quando voltou aos boxes, as baterias que alimentam os motores elétricos auxiliares não estavam devidamente carregadas. Isso roubou um pouco da potência disponível para o início do Q3, e então a Mercedes o soltou um pouco mais cedo para que ele pudesse, digamos, carregar o sistema devidamente, e aí ele pegou tráfego e, resumindo, fez uma volta de merda.
A segunda tentativa nem contou, porque como todos perceberam ninguém melhorou seus tempos já que a pista, de repente, ficou mais fria — uma nuvem mais assim ou assada nos céus da Catalunha, um assopro coletivo vindo da arquibancada, uma revoada de andorinhas sobrevoando o autódromo, um ventilador ligado dentro da guarita do segurança, qualquer porcaria hoje afeta o desempenho dos carros. Uma maluquice.
Isso não quer dizer que se tudo tivesse dado certo para o pobre Hamilton seria dele a pole. Não. Valtteri, nosso simpático finlandês, está guiando melhor que seu companheiro de equipe. Ponto. Mais seguro, concentrado, preciso. Nem parece o mesmo piloto apático de anos anteriores. Há quem duvide de que é ele mesmo debaixo daquele capacete. Está arrebentando a boca do balão. Ou, como se diz lá nas quebradas de Helsinque, “se murskasi ilmapallon suua”. Em suma, para usar um conhecidíssimo ditado no gelado país nórdico, “tappoi käärmeen ja osoitti kepin”. Nunca um dito popular fez tanto sentido, vocês hão de concordar.
O que preocupa os desejosos por um campeonato mais disputado é mesmo o desempenho da Ferrari, que parece não só não reagir à superioridade da Mercedes, como às vezes dá a impressão de que está andando para trás. Foi dominante em Barcelona nos testes da pré-temporada. Veio para a corrida com uma atualização do motor. E levou quase um segundo da rival. Vettel larga em terceiro, 0s866 atrás de Bottas. É muita coisa. Verstappinho ficou em quarto. Em quinto, Lec-Lec, que antes do Q3 passou em cima de uma zebra de forma pouco usual e danificou o assoalho. Não deu para fazer muita coisa depois. Gasly fechou o grupo dos seis primeiros e depois vieram os dois da Haas — que, como disse ontem, é a melhor do segundo escalão na Espanha.
O resto foi tudo mais ou menos normal. Ricardão conseguiu um bravo décimo lugar com a Renault (que decepção, esse time; como uma empresa que já fabricou carros como Twingo e Mégane pode andar tão mal na F-1?), mas larga em 13º por conta da punição que levou no Baku há duas semanas. Raikkonen, desta vez, foi bem discreto, e seu companheiro Giovinazzi também não vem fazendo grande coisa. Kimi, pelo menos, pontua. Tonico ainda está zerado. Por fim, a Williams. Está cada vez pior. Um buraco sem fundo. Uma tristeza.
Barcelona é muito ruim de ultrapassar. Não se animem demais com a corrida de amanhã. A Mercedes, que foi para a Espanha com algumas atualizações não discriminadas em seus carros, tende a aumentar sua lista de dobradinhas na temporada. Bottas está por cima da carne seca, agora. Ou, em bom finlandês, “kuivatun lihan päälle” — dispensa traduções. Acho que a torcida, agora, é para que seja um novo Rosberg na vida de Hamilton. E para que a Mercedes deixe os dois fazerem o que bem entenderem na pista.
Até agora, não temos motivos para reclamações, inclusive.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.