SÃO PAULO – Kimi Antonelli voltou a vencer na F-1 depois de três corridas azaradas e problemáticas. Ganhou o GP da Bélgica e chegou a seis triunfos na carreira, todos nesta temporada. Os 25 pontos de vantagem que tinha sobre seu companheiro George Russell na classificação dobraram. O inglês abandonou a prova na primeira volta, após disputa com Lewis Hamilton que acabou para ele na caixa de brita, atolado. Antonelli tem 204 pontos agora, contra 154 de Russell. Que nem é mais o vice-líder do campeonato. Quarto colocado em Spa-Francorchamps, Lewis Hamilton foi a 159.

Charles Leclerc e Max Verstappen subiram ao pódio ao lado de Antonelli, que teve mais dificuldades do que previa para chegar a mais uma vitória em 2026. Um safety-car virtual pouco antes da metade da prova deu a chance a Leclerc de assumir a ponta, que manteve durante algum tempo até a Mercedes se organizar e preparar a retomada da liderança. No fim, deu a lógica. E Kimi esticou a perna dando mais um largo passo rumo ao título deste ano.
A corrida foi boa também para Gabriel Bortoleto. O brasileiro da Audi terminou em oitavo, mesma posição em que largou. Fez uma corrida segura e pontuou pela segunda vez seguida, terceira no campeonato. Com dez pontos, é o 14º na tabela e fez todos os pontos de sua equipe no Mundial de Construtores.

Antonelli se preocupava com a largada e com o ataque que sofreria, inevitavelmente, na primeira volta – Spa é assim, o enorme trecho de aceleração após a curva La Source é um prato cheio para quem vem atrás, no vácuo. Na pole-position, e sabedor das características da pista, o piloto da Mercedes me passou a sensação de entregar a ponta para Verstappen antes da Eau Rouge, para dar o troco nele na subida para a reta Kemmel.
E foi assim mesmo que aconteceu. Perdeu a ponta e recuperou logo depois. Max acabou sendo ultrapassado também por Leclerc e caiu para terceiro. Mais atrás, na Les Combes, a tragédia para Russell. Ele tinha perdido duas posições por causa de algum piripaque na bateria e freou tarde na entrada da chicane, para tentar retomar o terceiro lugar. Dividiu a curva com Hamilton e se deu mal: tocado pela Ferrari, rodou e não conseguiu voltar. Saiu do carro cuspindo marimbondos. Depois, bem mais calmo, descreveu o infortúnio como “acidente de corrida”, sem culpar o colega.

O safety-car foi acionado já na primeira volta. No fundão, uma galerinha da pesada foi para os boxes trocar pneu. A maioria tinha largado de médios, para fazer apenas uma parada e colocar duros até o final. Do pessoal de ponta, Lando Norris fez o inverso e largou com duros, já que estava bem atrás no grid, em 13º. Quando o safety-car deixou a pista, no fim da quarta volta, Antonelli, Leclerc, Verstappen, Oscar Piastri, Hamilton, Liam Lawson, Arvid Lindblad, Franco Colapinto, Bortoleto e Norris eram os dez primeiros.
Na relargada houve um troca-troca entre Piastri e Hamilton, estilão ioiô – bateria que acaba, bateria que volta. Oscar ficou na frente, no fim das contas. Na sexta volta, Verstappen passou Leclerc e retomou o segundo lugar. Piastri tentou o mesmo pouco depois e chegou a tocar na Ferrari do monegasco. O australiano reclamou no rádio. “Sim”, disse. “O quê?”, perguntou o engenheiro. Zak Brown, ao seu lado, traduziu: “Ele falou que o Leclerc não deixou espaço e que poderia ter acontecido um acidente muito grave com terríveis consequências”. Diante do espanto do engenheiro, o chefe da McLaren explicou: “Oscar fala por metáforas”.

Hamilton passou Piastri na volta 9 e foi para a quarta colocação. Pouco depois, foi avisado de que receberia uma punição de 5s pelo incidente com Russell na primeira volta. Teria de pagar a multa na hora de trocar pneus. Os cinco primeiros andavam bem próximos. Na décima volta, eram Antonelli, Verstappen, Leclerc, Hamilton e Piastri. Lindblad, o sexto vinha mais distante, puxando outro trenzinho com Norris, Lawson, Colapinto, Pierre Gasly e Bortoleto.
Lewis estava tomado pelos capetas da floresta no começo da prova. Atacou Leclerc duas vezes, não passou, entrou no rádio e pediu providências para a Ferrari. “Tenho mais ritmo que Charles!”, alertou. A resposta foi o silêncio.
A primeira parada dos ponteiros foi de Verstappen, na volta 18. Antes do pit stop, estava 2s5 atrás de Antonelli. Voltou em sexto, à frente de Isack Hadjar – que já tinha trocado de pneus duas vezes, durante o safety-car, para ficar com duros até o final da corrida. Max também colocou pneus duros. Naquele momento, um safety-car virtual foi acionado por motivo incerto e não sabido, mas durou pouco. Kimi correu para os boxes para trocar pneus e não ganhou tempo com a ação. Voltou à frente do holandês da Red Bull, em quinto. Leclerc, Hamilton, Piastri e Norris eram os quatro primeiros, sem paradas. Na volta 20, Landinho – que para quem não lembra é o campeão vigente – passou Piastri, mas trocaram de posição de novo logo depois.

E aí apareceu um aviso de safety-car virtual outra vez, para um fiscal recolher um pedaço de carro de alguém, possivelmente da Visa Quer Acabar com o Pix. Era, já, a volta 21. Foi o momento chave do GP, definindo tudo que aconteceria depois. Leclerc correu para os boxes. Hamilton também. Na saída, um mecânico quase foi atropelado – escorregou e caiu – e Lewis seria vítima de uma investigação dos comissários após a prova, por saída perigosa do pit stop.
Tendo parado no safety-car virtual, vejam só, a Ferrari acertou em cheio na estratégia. Devolveu Leclerc na frente de Antonelli e entrou na disputa pela vitória pra valer. Norris assumiu a liderança, é verdade, mas tinha de trocar pneus, ainda. Kimi tinha um déficit de 4s em relação ao #16 da equipe italiana.
Leclerc passou Norris na volta 23 e virou líder. Antonelli, resiliente, ia chegando. Na 26ª volta, também deixou Lando para trás. A briga pela vitória, então, começou. Charlinho tinha 3s de vantagem sobre Kimi. O italianinho teria 18 voltas para recuperar o que perdera no safety-car virtual. Leclerc, Antonelli, Norris, Verstappen, Piastri, Hamilton, Hadjar, Bortoleto (que também parou na hora certa), Lindblad e Lawson eram os dez primeiros.

Norris era o único que ainda tinha de trocar pneus. Com borracha mais desgastada, virou presa fácil para Max na volta 29. Só então, na 31ª, parou nos boxes. Voltou em oitavo, atrás de Bortoleto. Mas, com pneus médios novos, logo passou o brasileiro.
Na ponta, Antonelli declarou aberta a temporada de caça à Ferrari. Reduziu a desvantagem para Leclerc para 1s5 e perguntou onde ficava o botão de farol alto para começar a piscar. Na volta 33, a diferença era inferior a 1s, o que permitia ao piloto da Mercedes acionar o tal modo ultrapassagem – um botão, ou alavanca, ou interruptor, nunca vi direito esse negócio.
A primeira tentativa real foi feita na volta 34, no mergulho para a Eau Rouge. Calibrou a mira no bico, aprumou o automóvel e no meio da reta Kemmel superou o piloto da Ferrari.

Não foi necessária uma segunda. Só que Charlinho, que é monegasco e não desiste nunca, como diz aquele comercial da TV, não deixou o líder do campeonato escapar. Foram várias voltas bem próximo, emoldurado pelo retrovisor de Kimi. Quem também tinha uma Ferrari no espelhinho era Piastri, em quarto. Na volta 39, Hamilton grudou nele e preparou o bote. Passou na 40ª, sem dramas.
Antonelli tinha duas prioridades na reta final do GP belga: ficar mais de 1s à frente de Leclerc, para não sofrer ataques com o modo de ultrapassagem do rival, e não exceder os limites da pista, porque os comissários estavam de olho nele. Mas a duas voltas do final, estafado e ofegante, Charlinho desistiu da briga. Kimi abriu 2s5 e respirou aliviado.
Antonelli, Leclerc e Verstappen receberam seus troféus no pódio, entregues por autoridades da Bélgica – entre eles o rei Filipe I, descendente direto de Leopoldo II, um dos maiores flhos da puta da história da humanidade. Hamilton, Piastri, Hadjar, Norris, Bortoleto, Lindblad e Colapinto completaram os dez primeiros.
Deu a lógica. Mas não foi um passeio.