“Só quero o mesmo carro”. A declaração de George Russell após o abandono no GP da Bélgica, deste domingo (19), pode até soar como um choro de perdedor, mas esconde um perigoso barril de pólvora dentro da garagem da Mercedes. E que pode, eventualmente, estourar ao menor sinal de fagulha daqui para frente. Isso é impulsionado pela série de problemas enfrentados pelo inglês neste ano, mas também agravado pela maneira como a esquadra alemã tem tratado o caso. Não que o time chefiado por Toto Wolff tenha adotado a mesma tática tantas vezes repetidas pela Ferrari ao longo da história de priorizar publicamente um dos pilotos, mas é inegável que há algo esquisito no ar e uma história mal resolvida.

Não é segredo algum que a Mercedes, embora ocupe uma posição de referência e lidere o campeonato com folga, sofre demais com a confiabilidade em 2026. Tanto é verdade que Andrea Kimi Antonelli, que comanda o Mundial de Pilotos, teve problemas em duas etapas, Catalunha e Inglaterra, enquanto Russell ficou fora de combate no Canadá e teve contratempos técnicos em outros momentos, como na China e na Bélgica. Mas o que chama a atenção é a diferença gritante de desempenho entre os dois pilotos. Antonelli parece se adaptar muito facilmente às exigências do W17 e ao próprio regulamento, ao passo que George coleciona dificuldades. No caso do britânico, para que tudo caminhe normalmente, não pode haver qualquer falha ou mudanças de configuração. Se algo dá errado de início, dificilmente há uma reviravolta.

Esse cenário ficou ainda mais nítido na Bélgica. Enquanto Kimi entendeu rapidamente as demandas de Spa-Francorchamps e driblou as limitações em função do delicado gerenciamento de energia, Russell se viu em uma espiral de horror. A diferença para o companheiro de equipe começou em 1s2 na sexta, reduziu para 0s5 no sábado, mas nunca esteve em igualdade. Em um primeiro momento, a Mercedes indicou que o estilo de pilotagem do britânico talvez fosse o problema. O ajuste geral do carro, a interpretação da gestão da bateria — havia realmente uma perda grave em reta, que se replicou em algumas curvas, sobretudo no setor final.

“Já tínhamos visto isso em Silverstone: pensamos que tínhamos encontrado o problema, pensamos que eram simplesmente os freios, mas não eram os freios. Então percebemos que o problema estava relacionado ao meu estilo de pilotagem, ao acelerador, e eu me convenci de que era minha culpa. Agora temos certeza absoluta de que não é meu estilo de pilotagem e que há um problema sério: a equipe está trabalhando duro para resolvê-lo. Mas a cada volta que dou, quando me vejo perdendo de dois a seis décimos nas retas, é realmente frustrante”, contou Russell no sábado após a classificação, em que viu Antonelli cravar a pole. O piloto do carro #63 ficou em terceiro, ajudado pela punição de Lando Norris.

“Você olha para o volante e vê a velocidade caindo mesmo com o acelerador totalmente pressionado na reta. Toda a minha atenção nas últimas 36 horas esteve focada na velocidade em reta. Não tenho me atentado à configuração do carro, aos pneus ou a qualquer outra coisa, porque estamos todos tentando entender o que está acontecendo”, acrescentou.

No fim, nada definitivo foi encontrado no sábado. Mas o domingo, que trouxe o incidente com Lewis Hamilton logo na primeira volta, também deixou evidente que havia, sim, uma falha com a bateria. “O que está acontecendo com a bateria nas retas? Não tenho bateria! Isso é inaceitável!”, bradou George, ainda no carro após a largada.

“Fiz uma boa largada, fiz uma ótima primeira curva e estava colado logo atrás de [Max] Verstappen”, disse Russell. “Mas, por algum motivo, a bateria decidiu não recarregar. Então, saí da primeira curva com 35% de bateria a menos. Como não carregou, também tive um problema com a pressão do turbo. O turbo não se ajustou corretamente, então fiquei sem potência. Cheguei ao topo de Eau Rouge com 0% de bateria. Sinceramente, foi perigoso. Fui ultrapassado por três carros. Não deveria ter estado nessa situação em primeiro lugar. É por isso que estou tão irritado.”

George Russell se envolveu em um incidente com Lewis Hamilton na primeira volta (Video: F1)

O abandono em função do toque com Hamilton agravou a situação do campeonato, uma vez que Kimi voltou a vencer. George havia aproveitado as mazelas enfrentadas por Antonelli em duas das últimas três corridas, para cortar parte da desvantagem de pontos, mas agora essa diferença escalou para exatos 50 tentos. Mas o ponto que chama a atenção mesmo é a forma como a Mercedes, no papel do chefe Toto Wolff, lida com essa questão.

Em declarações contraditórias, o mandatário viu os números de forma diferente do que Russell expôs. E embora tenha reconhecido que a situação não era justa, também não ofereceu uma solução. Então, diante de tudo que está em jogo, não dá para imaginar que uma equipe de ponta não tenha condições técnicas e avançadas de análise para desvendar as anomalias do carro, mesmo que isso custe eventuais punições. Quer dizer, é um cenário que exige uma revisão completa ou se corre o risco de ver as rivais se aproximarem mais do que o necessário.

Ao fim da corrida, Wolff revelou também que todos os motores da Mercedes apresentaram falhas e não foi uma questão exclusiva de Russell, mas, de novo, não há como entender que uma equipe como a Mercedes leve mais de uma corrida para identificar falhas e decifrá-las. A verdade é que a marca da estrela de três pontas trava uma luta contra si própria neste sentido e flerta perigosamente com um desarranjo sério dentro da garagem em um momento também delicado do campeonato. George já começa a ficar mais vocal em relação aos problemas e é sintomático quando pede por um equipamento igual ao do colega de garagem. Ou seja, é um tipo de problema que a Mercedes não precisa.

A Fórmula 1 volta de 24 a 26 de julho em Budapeste, palco do GP da Hungria, 11ª etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REALalém de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

▶️ F1: confira o calendário completo de 2026
▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GPTV

GP da Hungria de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:

Horários no Brasil*

Horários em Portugal e Angola

Horários em Cabo Verde

Horários em Moçambique

*Horário de Brasília