SÃO PAULO (lovely) – É possível que esse GP da Inglaterra tivesse sido tão legal quanto foi mesmo sem os pneus que se despedaçaram nos carros de Hamilton, Massa, Vergne e Pérez. Os dois primeiros seriam protagonistas de qualquer forma. Os dois últimos, bem menos. Lewis e Felipe, por conta do que aconteceu com sua borracha, tiveram seus resultados finais comprometidos. Um poderia ganhar a prova; o outro era forte candidato ao pódio. Precisaram remar a corrida toda para recuperar o que perderam e fizeram corridas excepcionais — e bem distintas, já que Lewis parou duas vezes e Felipe, quatro.
Massa fez a melhor largada de sua vida, lembrando muito as minhas. Todo mundo se espremendo por dentro, ele foi por fora. É um atalho que só os visionários utilizam. Pulou de 11° para quinto, mudando totalmente sua perspectiva de prova. Rosberg foi mal e perdeu o segundo lugar para Vettel. Alonso também patinou. E Webber, que tem largado mal, ainda levou um chega-pra-lá de Grosjean e caiu de quarto para 14°. Neste momento, a lógica do comentarista global se fez notar: “É uma dificuldade largar no meio, porque você tá exatamente no meio”, teorizou, com brilhantismo.
Tínhamos uma corrida, a partir dessa largada que jogou alguns bons para trás e lançou certos improváveis para a frente. Hamilton liderava com bravura, até seu pneu voar pelos ares na volta 8, depois que ele tinha passado da entrada dos boxes. Caiu para último. Na 10ª volta, foi o pneu de Felipe que explodiu. Estava em quarto, já. Caiu para último. Foi a senha para os mais cautelosos abrirem a primeira janela de pit stops.
Vettel, na ponta, não abria de Rosberg. A Mercedes, em que pese o que aconteceu com Hamilton, parece que resolveu seu problema de perda de performance que era crítico no começo do ano por causa do desgaste excessivo de sua borracha. Quando Vergne sofreu da mesma mazela pneumática, na volta 15, colocaram o safety-car na pista para limpar o asfalto, repleto de detritos, pedaços de borracha, fibra de carbono, um nojo.
Nessa intervenção, três pilotos apareciam em posições de destaque: Alonso já estava em quarto; Di Resta, que largara em penúltimo, surgia em 11°; e Hamilton já era o 14°. A relargada aconteceu na volta 22. Na altura da 30ª, nova janela de paradas. A tática-padrão seria de três pit stops, com algumas exceções — Hamilton, por exemplo, começou a perder rendimento, mas estava decidido a fazer apenas dois pits para recuperar o tempo perdido no início da prova.
Sem conseguir abrir de Rosberg, Vettel mantinha um ritmo muito forte, cagando para as zebras, sempre com o alemão mercêdico fungando em seu cangote com seus cabelos loiros esvoaçantes. Até que na 42ª volta seu carro quebrou. As marchas pararam de entrar e ele abandonou o automóvel na reta dos boxes. Aparentemente, quebrou a quinta e moeu a caixa. Mais um safety-car para remover o defunto rubrotaurino estendido no chão.
Alonso tinha acabado de fazer seu terceiro pit stop, iria perder posições por isso, mas teria pneus médios novinhos para as voltas finais. Rosberg, na ponta, e Webber, que vinha voando lá de trás, aproveitaram o safety-car e foram para suas derradeiras paradas. Raikkonen, segundo colocado, não parou. Perguntou pelo rádio se tinha sido a melhor opção e ouviu um “agora é tarde, bonitão”.
Na relargada, a seis voltas do final, tínhamos: 1) Rosberg (3 paradas); 2) Raikkonen (2); 3) Sutil (2); 4) Ricciardo (2); 5) Webber (3); 6) Pérez (2); 7) Button (2); 8) Alonso (3); 9) Hamilton (2); 10) Grosjean (3); e 11) Massa (4).
E foram seis voltas alucinantes. Webber, Alonso e Massa, com pneus novos, decolaram e foram abrindo caminho entre os que estavam mais lentos por terem optado por dois pits. Hamilton, mesmo com pneus mais velhos, também estava a fim de briga e foi buscar o que lhe era de direito. O australiano da Red Bull e o espanhol da Ferrari encheram os olhos de todos lá na frente. Um pouco mais para trás, Hamilton e Massa fizeram o mesmo.
Fim de papo com Rosberg, Webber e Alonso no pódio, seguidos por Hamilton (“Recuperação épica, Lewis”, disse Ross Brawn pelo rádio), Raikkonen (“Desculpe pela estratégia, Kimi”, ouviu o finlandês), Massa, Sutil, Ricciardo, Di Resta e Hülkenberg na zona de pontos. Notem: em seis voltas, depois da relargada, Alonso saiu de 8° para 3°; Raikkonen caiu de 2° para 5°; Webber foi de 5° para 2°; Hamilton, de 9° para 4°; Massa, de 11°para 6°; Ricciardo, de 4° para 8°; Sutil, de 3° para 7°. Só essas seis voltas valeriam o domingo inteiro.
Números: terceira vitória de Rosberguinho, 25ª corrida de Raikkonen nos pontos, novo recorde intergalático. São os que me ocorrem agora. No campeonato, o abandono de Vettel foi um presente de São João para Alonso. A diferença dele para Tiãozinho era de 36 pontos depois de Montreal. Agora é de 21. Descontou 15 pontos na buena, quando o normal seria ver essa distância aumentar consideravelmente com a previsível vitória do alemão.
O campeonato está aberto? Não acho. Sebastian segue favorito absoluto. E seja lá o que acontecer com os pneus (Todt convocou reunião para quarta-feira em Paris com equipes, borracheiros e autoridades eclesiásticas), não será algo que vá mexer demais com performance. O lance agora é segurança.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.