SÃO PAULO (estranha paz) – A pole de Hamilton hoje em Monza foi meio humilhante. Enfiar quase meio segundo no companheiro de equipe é daqueles tapas na cara que ficam ardendo por horas. E é bom que Rosberg passe uma pomadinha, um creme hidratante, algo assim, para não chegar cabisbaixo amanhã a Monza.
O cenário ideal para ele é sair no cangote de Hamilton logo na primeira volta, mas sem forçar na primeira chicane — porque Lewis vai deixar bater, se isso acontecer. Ficar em cima, grudado na caixa de câmbio, ameaçar para um lado e para o outro, mostrar agressividade e apetite. É o que eu faria.
Mas se não fizer nada disso, Lewis largar bem e abrir dois carros de diferença antes de fazer a Parabólica, esquece. Parte para o abraço com a autoridade de quem venceu três dos últimos quatro GPs da Itália.
O tempo de 1min21s135 no Q3 deu ao Comandante Hamilton sua sétima pole no ano, 56ª na carreira. Ele amargava um pequeno jejum de três GPs sem largar na frente. E busca hoje um número importante: 50 vitórias na F-1.
Pelo que se viu na classificação, é franco favorito. O único que pode ameaçá-lo é Rosberg, no esqueminha prescrito aí em cima — vou traduzir para o alemão e mandar para ele. Aliás, vou fazer isso agora mesmo. Peraí que tem uns tradutores na internet que a gente coloca umas palavras de um lado em português e do outro saem todas elas na língua que você quiser.
Out das Genick von Hamilton in der ersten Runde, aber ohne die erste Schikane zwingen – weil Lewis treffen wird verlassen, wenn das passiert. Ist auf geklebt, auf das Getriebe, Bedrohung auf der einen Seite und der anderen Seite zeigen, Aggressivität und Appetit. Es geht nach oben und stoppt spineless zu sein.
Boa. Mudei só uma coisinha outra do original lá em cima, porque estou falando direto para ele. Mandei pelo WhatsApp. Vamos ver o que responde.
Enquanto isso, voltemos à classificação. A Ferrari, que sempre tenta dar alguma satisfação aos seus torcedores em Monza, ficou com a segunda fila com Tião Italiano, desta vez, à frente de Kimi Dera Tivessem Dado Uma Surra Naquele Moleque Quando Ele Estava na Escola. Sapattos surpreendeu e apareceu em quinto, deixando as duas Red Bull em sexto e sétimo, Ricardão mais rápido que Verstappinho. Pérez, Hülkenberg e Gutiérrez fecharam o top-10. Massa é o 11°.
[bannergoogle]Como comecei pelo fim, apenas registremos os outros Qs. Kvyat, Nasr, Ericsson, Palmer, Magnussen e Ocon foram os degolados do Q1. Nenhuma grande novidade, a não ser pelo vexame monumental da Renault, de andar atrás até da Sauber. Massa, Grojã (que perde cinco posições por trocar a marca do creme de barbear), Alonso, Wehrlein, Button e Sainz Jr. foram os que caíram no Q2. Como se vê, uma classificação bem “standard”, sem grandes surpresas.
Fez calor de novo no norte da Itália e a previsão amanhã é de sol e 30 graus na cachola. Vamos ver o que dá. A prova terá tática padrão de uma parada e é a mais veloz, em média, e rápida, em duração, da temporada. Quem acordar depois das 10h não vai ver quase nada.
E agora vamos jantar.
Opa, espera um pouco. Chegou resposta do Rosberg no WhatsApp.
Wenn Sie etwas über Rennen wusste, dass keine alten Autos laufen mit einem Voyage Rennen lächerlich. Ersparen Sie mir. Will man in der Straße jagen.
Achei desnecessária a grosseria.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.