SÃO PAULO (zzzz) – Chata pra cacete. Eu estava até com saudades de corridas chatas. Mas já passsou. Que voltem as boas.
Bom, vamos a alguns números. Porque se esse GP da Europa foi ruim, pelo menos deixou algumas marcas importantes. Foi a corrida que teve mais carros recebendo a bandeira quadriculada na história. Os 24 que largaram chegaram ao final. Nunca tantos tinham terminado uma prova. Karthikeyan, portanto, tornou-se o pior piloto de todos os tempos. O único capaz de terminar um GP de F-1 em 24º. Que merda, hein, Karthikeyan?
Foi a terceira vez na história em que todos os pilotos que largaram chegaram ao final. As outras foram na Holanda em 1961 (15 carros) e em Monza em 2005 (20).
Vettel venceu pela sexta vez em oito corridas neste ano. Nas outras duas, chegou em segundo. Foi a 16ª vitória de sua carreira. Isso o coloca em 14º nas estatísticas, ao lado de Stirling Moss. Passou Hamilton, que tem 15. Tião Alemão é o terceiro, entre os que estão em atividade, em número de vitórias. Perde para as 91 de Schumacher e para as 26 de Alonso.
E o que mais? Mais nada.
Sobre a corrida, dois destaques, ambos espanhóis. El Fodón de Las Astúrias e Jaime Alguersuari. Alonso lutou, como sempre. Foi passado por Massa na largada, mas Felipe perdeu a curva seguinte, defendida por Webber. E aí Fernandinho se aprumou em terceiro. Depois da primeira bateria de pit stops, Hamilton ganhou o quarto lugar de Massa e Alonso foi para cima de Webber. Passou. Na segunda janela de paradas, o australiano recuperou o segundo lugar. Mas na terceira, quem ganhou a segunda posição foi Alonso, num raro bom trabalho da Ferrari, preciso e cirúrgico. Faltavam dez voltas, ainda, Webber poderia até atacar, mas não conseguiu porque começou a ter problemas de câmbio.
Alguersuari parou só duas vezes e saiu de 18º para oitavo. Quando um dos destaques de uma corrida é o Alguersuari, fodeu. É porque foi ruim, mesmo. Não aconteceu muita coisa porque as diferenças de tempo entre os pilotos que lutavam por alguma coisa foram esticando ao longo da prova, e o uso das asas móveis foi muito limitado, apesar das duas retas onde elas eram permitidas. Mesmo com 24 carros na pista o tempo todo, as brigas foram escassas.
Essa pista é uma porcaria, em resumo. Cenário muito bonito e tal, mas se nem com pneus-farofa e asas móveis deu jogo, pode riscar do calendário. Ou, então, que pelo menos mostrem umas minas de topless na praia. Em Mônaco tem.
Massa e Barrichello? Bem, Massa largou legal. E só. Depois foi ficando para trás, como sempre. Ah, a Ferrari atrasou um pit stop! Sacanearam o Felipe! Felipinhoooooooo! Já tem gente escrevendo essas coisas, aqui e no Twitter. Gente… Deixa pra lá. Barrichello teve algum problema? Nem vi. Parece que falaram, na TV, num buraco aerodinâmico. Procede? O que seria um buraco aerodinâmico?
Quanto à história do regulamento, da proibição da mudança de mapeamento do motor, não adiantou picas. Vettel largou, olhou no espelhinho, viu que não tinha ninguém muito perto e ficou esperando terminar. Foi tudo tão previsível que nem meu informante Gola Profonda telefonou. Acho que o vi na praia, numa daquelas imagens antes da largada.
E vocês? Gostaram ou dormiram?
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.