SÃO PAULO (ô dia longo…) – Crianças, desculpem o atraso. Claro que quem está lendo esta postagem quase protocolar — por causa do horário — já sabe tudo que aconteceu de madrugada em Xangai. Tivemos um treino livre pouco depois da meia-noite, o único do fim de semana, e formação do grid da Sprint. Stroll […]
Publicado em 19/04/2024 às 17:26
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Norris: pole na chuva
SÃO PAULO(ô dia longo…) – Crianças, desculpem o atraso. Claro que quem está lendo esta postagem quase protocolar — por causa do horário — já sabe tudo que aconteceu de madrugada em Xangai. Tivemos um treino livre pouco depois da meia-noite, o único do fim de semana, e formação do grid da Sprint.
Stroll foi o mais rápido no treino solitário. A pista estava esquisita, com pouca aderência, e todos estranharam tudo — tipo de asfalto, piso do box, iluminação, arquibancadas, zebras, idioma, comida. Afinal, o último GP na China foi disputado em 2019, antes da pandemia. As quatro edições seguintes foram canceladas por causa da covid.
A F-1 em 2019 era outra, os carros eram diferentes, as rodas tinham 13 polegadas (hoje são de 18), os pneus tinham perfil alto, a Alpine se chamava Renault, a Toro Rosso ainda não tinha virado AlphaTauri (e já mudou de nome outra vez), a Aston Martin patrocinava a Red Bull e não tinha equipe própria (depois compraria a Racing Point), Bottas corria pela Mercedes, Sainz era companheiro de Norris na McLaren e Vettel estava na Ferrari.
Era outro mundo. E faz só cinco anos.
Stroll e os tempos do TL1: único treino de Xangai
Stroll, no treino livre, virou na casa de 1min36s302. Para se ter uma ideia de como estava tudo diferente em Xangai/2019, a pole de Bottas naquela temporada foi cronometrada em 1min31s547.
Este é o primeiro de seis eventos com Sprint no ano. A Liberty mexeu de novo no regulamento e, para quem não lembra, agora é assim: um treino livre único e definição do grid da Sprint na sexta; corrida curta de meia hora abrindo os trabalhos no sábado e, depois dela, classificação para formar o grid da prova principal, quando é definido o pole-position para o GP de domingo.
Assim, hoje, as equipes tiveram pouco tempo para se preparar para o Shootout, nome dado à classificação para a Sprint, um pouco mais curta do que a sessão tradicional. E encontraram um asfalto menos aderente, sujo, que teve até pequenos incêndios no gramado na curva 7, algo que até agora não sei o que foi — se alguém explicou, ainda não encontrei; só sei que teve até bandeira vermelha por causa desse fogo-fátuo da Shopee.
Hamilton, Zhou e Norris: destaques do dia
Foi uma daquelas sextas-feiras típicas de Xangai, cinzentas, ar carregado, poluição insuportável, cenário de “Blade Runner”. E acabou chovendo ácido sulfúrico entre o SQ2 e o SQ3, determinando os rumos da classificação para a Sprint.
Na primeira parte, o SQ1, Gasly, Ocon, Albon Tsunoda e Sargeant foram os eliminados, ainda com pista totalmente seca. Aí, uma pequena decepção: a posição de Tsunoda, que vinha andando bem em classificações. Tem a chance de melhorar amanhã, porque hoje disse que não entendeu o que aconteceu com seu carro.
No SQ2, Russell, Magnussen, Hülkenberg, Ricciardo e Stroll ficaram pelo caminho. Foi frustrante para o inglês da Mercedes, que quando saiu para sua segunda tentativa de volta rápida pegou os primeiros pingos d’água caindo dos céus plúmbeos da metrópole sínica. Aí não vem tempo. E a surpresa foi a passagem dos dois carros verdes da Sauber para o SQ3, para alegria do público chinês — que viu seu representante avançar para a turma dos dez primeiros.
A chuva veio com alguma intensidade antes do SQ3, e foi com pneus intermediários que todos tiveram de buscar seus tempos. Houve algumas escorregadas, escapadelas, uma batida leve de Leclerc numa barreira de pneus, mas nada grave.
Quem soube lidar melhor com as condições adversas foi Norris, fazendo a pole-que-não-conta-como-pole. E quem também deu sinal de vida foi Hamilton, com a segunda colocação. No seco, não estava andando nada. Alonso e Verstappen formam a segunda fila, seguidos por Sainz, Pérez, Leclerc, Piastri, Bottas e Zhou.
O grid da Sprint: chance de Landinho ganhar uma
E agora vamos a algumas caixinhas…
SAINZ & AUDI – Quem meteu a língua nos dentes sobre o estágio das negociações entre Sainz e a Audi foi Helmut Marko, o guru da Red Bull — dando a entender que há, ou pelo menos havia, certo interesse da equipe no espanhol. Ele falou que já lhe ofereceram um contrato de três anos, que é muita grana e que os alemães têm pressa.
PÉREZ & RED BULL – O interesse seria, claro, para a vaga de Pérez. Mas a saída do mexicano não são favas contadas. Ele é vice-líder do campeonato, não incomoda muito, e está negociando a permanência. Disse que é questão de tempo para renovar. Eu acredito que acaba ficando, mesmo.
Xangai, 2009: primeira vitória da Red Bull
15 ANOS – Como o tempo passa, não? Hoje, 19 de abril, a Red Bull comemora os 15 anos de sua primeira vitória na F-1. Foi justamente na China, debaixo de chuva, com Vettel. E dobradinha, com Webber em segundo. Button e Barrichello, dupla da incrível Brawn, ficaram em terceiro e quarto.
19 ANOS – E foi há 19 anos que Alonso, também em Xangai, ajudou a Renault a ser campeã de construtores pela primeira vez. O GP da China, em 2005, era o último do campeonato. Fernandinho já tinha garantido o título de pilotos. Renault e McLaren chegaram a Xangai separadas por apenas dois pontos. Com a vitória do espanhol, a taça foi para o time francês. O grid ainda tinha Minardi e Jordan… Alonso é, realmente, interminável.
Xangai, 2005: Alonso vence e Renault é campeã
HORÁRIOS – Não se percam no fuso! A Sprint é hoje, terá 19 voltas e começa à meia-noite (se preferir, à 0h do sábado, que é a mesma coisa). Os carros então saem do regime de Parque Fechado e a definição do grid acontece a partir das 4h. O GP da China será disputado às 4h do domingo. Depois da balada. Ou antes de abrir a padaria. A estratégia é de vocês.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.