A contratação de Rafael Câmara pela Haas para a temporada 2027 da Fórmula 1 coloca o pernambucano em uma tradição que atravessa mais de cinco décadas do automobilismo brasileiro. Campeão da Fórmula Regional Europeia em 2024 e da Fórmula 3 em 2025, o piloto de 21 anos chega à categoria principal com dois títulos internacionais consecutivos, repetindo uma característica presente nas trajetórias de nomes como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Gabriel Bortoleto. Os campeonatos mudaram, assim como os caminhos para alcançar a F1, mas a conquista de títulos nos principais campeonatos de acesso permanece como uma credencial importante.
Levantamento do GRANDE PRÊMIO identifica 16 brasileiros que conquistaram títulos internacionais de formação antes da primeira largada na F1, considerando as categorias que desempenharam papel relevante na preparação de pilotos para a elite em suas respectivas épocas. Câmara ainda não integra esse total, já que sua estreia está prevista para 2027. A relação abrange desde a tradicional F3 Britânica até a atual Fórmula 2, passando pela Fórmula 3000 Internacional, Fórmula Renault Europeia e Fórmula V8 3.5.
F3 Britânica foi principal caminho dos brasileiros para a F1
Durante décadas, a F3 Britânica representou uma das principais portas de entrada para a Fórmula 1. Embora disputado predominantemente no Reino Unido, o campeonato reunia pilotos de diversas nacionalidades e funcionava como uma vitrine internacional para as equipes da categoria principal.
O primeiro brasileiro a conquistar o título foi Emerson Fittipaldi, em 1969. Depois de se transferir para a Europa, o paulista venceu o campeonato e chamou a atenção da Lotus, equipe pela qual estreou na F1 no ano seguinte. Em 1972, tornou-se campeão mundial aos 25 anos, então o mais jovem da história.
José Carlos Pace seguiu caminho semelhante. Campeão de uma das séries britânicas de F3 em 1970, estreou na F1 em 1972, pela Williams, e posteriormente construiu uma carreira marcada pela passagem pela Brabham e pela vitória no GP do Brasil de 1975.
Nelson Piquet conquistou o campeonato britânico de F3 organizado pelo BARC (sigla em inglês para Clube Britânico de Corridas Automobilísticas) em 1978, temporada na qual também estreou na Fórmula 1. O brasileiro passou por Ensign e BS Fabrications antes de iniciar a associação com a Brabham, equipe com a qual conquistaria os títulos mundiais de 1981 e 1983.
O mesmo campeonato também teve papel fundamental na carreira de Ayrton Senna. Em 1983, o brasileiro venceu a disputa contra Martin Brundle e conquistou a F3 Britânica, depois de uma temporada marcada por 12 vitórias. A campanha abriu caminho para sua estreia pela Toleman em 1984.
Outros brasileiros utilizaram a categoria como etapa decisiva de formação. Chico Serra venceu o título de 1979, Maurício Gugelmin conquistou o campeonato de 1985 e Rubens Barrichello repetiu o feito em 1991. Posteriormente, Antônio Pizzonia, Nelson Piquet Jr. e Felipe Nasr também foram campeões antes de chegar à Fórmula 1.
Ao todo, dez brasileiros que conquistaram títulos da F3 Britânica chegaram a largar em GPs de Fórmula 1, segundo o recorte histórico do levantamento.
| Piloto | Título da F3 Britânica | Primeira largada na F1 |
|---|---|---|
| Emerson Fittipaldi | 1969 | 1970 |
| José Carlos Pace | 1970 | 1972 |
| Nelson Piquet | 1978 | 1978 |
| Chico Serra | 1979 | 1981 |
| Ayrton Senna | 1983 | 1984 |
| Maurício Gugelmin | 1985 | 1988 |
| Rubens Barrichello | 1991 | 1993 |
| Antônio Pizzonia | 2000 | 2003 |
| Nelson Piquet Jr. | 2004 | 2008 |
| Felipe Nasr | 2011 | 2015 |
Em determinados anos, a F3 Britânica teve campeonatos paralelos. Pace e Piquet venceram séries específicas, reconhecidas nos registros históricos da categoria.
A importância desse caminho já havia sido destacada pelo GRANDE PRÊMIO em uma retrospectiva de Flavio Gomes sobre os brasileiros campeões da F3 Britânica. A relação completa de vencedores brasileiros também inclui Gil de Ferran e Mário Haberfeld, que não chegaram a disputar corridas na F1.

Fórmula 3000 e Renault abriram novos caminhos
A partir dos anos 1980, a Fórmula 3000 Internacional passou a ocupar posição importante na formação de pilotos para a F1. Criada em 1985 como sucessora da Fórmula 2 Europeia, a categoria oferecia carros mais potentes e uma preparação mais próxima das exigências da principal competição do automobilismo.
Entre os brasileiros, Christian Fittipaldi conquistou o título da F3000 em 1991, pela Pacific Racing. O resultado garantiu destaque internacional ao piloto, que estreou na F1 pela Minardi em 1992.
Ricardo Zonta repetiu a conquista em 1997, depois de uma disputa apertada com Juan Pablo Montoya. O brasileiro somou 39 pontos, contra 37,5 do colombiano, e posteriormente estreou na F1 pela BAR, em 1999.
Outras categorias internacionais também contribuíram para a formação dos pilotos brasileiros. Enrique Bernoldi conquistou a Fórmula Renault Europeia em 1996, antes de passar pela F3 Britânica e pela F3000 Internacional. Sua estreia na F1 aconteceu em 2001, pela Arrows.
Felipe Massa venceu a Fórmula Renault Europeia em 2000 e a Euro Fórmula 3000 em 2001. A sequência de resultados permitiu que o brasileiro chegasse à Sauber em 2002, sem disputar a F3000 Internacional tradicional.
Importante distinguir: a Euro F3000 conquistada por Massa não era o mesmo campeonato da F3000 Internacional vencido por Christian Fittipaldi e Zonta.
Pietro Fittipaldi representa outro caminho. O brasileiro conquistou a Fórmula V8 3.5 em 2017, competição derivada da antiga Fórmula Renault 3.5, e estreou na F1 pela Haas no GP de Sakhir de 2020, substituindo Romain Grosjean.
| Piloto | Título internacional de acesso | Estreia na F1 |
|---|---|---|
| Christian Fittipaldi | F3000 Internacional, 1991 | 1992 |
| Enrique Bernoldi | Fórmula Renault Europeia, 1996 | 2001 |
| Ricardo Zonta | F3000 Internacional, 1997 | 1999 |
| Felipe Massa | Fórmula Renault Europeia, 2000; Euro F3000, 2001 | 2002 |
| Pietro Fittipaldi | Fórmula V8 3.5, 2017 | 2020 |
As cinco trajetórias mostram como o caminho até a F1 se diversificou ao longo das décadas. A F3000 Internacional permaneceu como uma referência importante até 2004, quando foi substituída pela GP2 Series, enquanto os campeonatos de Fórmula Renault ofereceram alternativas de formação.

Bortoleto e Câmara representam nova geração de campeões
O sistema atual de formação passou por novas mudanças com a criação da Fórmula 2, em 2017, e da Fórmula 3, em 2019. As duas categorias passaram a integrar de maneira mais direta a programação dos fins de semana de Fórmula 1, oferecendo maior exposição aos jovens pilotos.
Gabriel Bortoleto conquistou a F3 em 2023, pela Trident, e a F2 em 2024, pela Invicta, sempre em sua primeira temporada. O paulista tornou-se um dos poucos pilotos a conquistar os dois campeonatos em anos consecutivos e garantiu a promoção à Fórmula 1 pela Sauber, em 2025.
Rafael Câmara percorreu caminho semelhante. Depois de conquistar a Fórmula Regional Europeia em 2024, o pernambucano estreou na F3 em 2025 pela Trident e conquistou o título com uma etapa de antecedência. A campanha teve quatro vitórias e cinco pole-positions, recorde da categoria.
Em 2026, Câmara passou a defender a Invicta na Fórmula 2, repetindo a sequência de equipes utilizada por Bortoleto. Após 12 etapas, lidera o campeonato com 207 pontos, três vitórias e cinco poles, ainda com a possibilidade de conquistar outro título antes da estreia na Fórmula 1.
O GRANDE PRÊMIO apresentou uma comparação completa dos números de Câmara e Bortoleto nas categorias de acesso. O levantamento mostra que Câmara apresentou maior número de vitórias e poles nas temporadas analisadas, enquanto Bortoleto já confirmou a sequência de títulos da F3 e F2.
Caso conquiste o campeonato de 2026, Câmara repetirá a sequência de Bortoleto nas duas principais categorias de acesso e acumulará três títulos consecutivos em campeonatos internacionais de monopostos.
Quais brasileiros foram campeões internacionais antes da F1?
A reunião dos diferentes períodos permite identificar 16 pilotos brasileiros com títulos em campeonatos internacionais de acesso anteriores à primeira largada na Fórmula 1, dentro do recorte adotado pelo levantamento.
| Piloto | Principal título internacional | Estreia na F1 |
|---|---|---|
| Emerson Fittipaldi | F3 Britânica, 1969 | 1970 |
| José Carlos Pace | F3 Britânica, 1970 | 1972 |
| Nelson Piquet | F3 Britânica, 1978 | 1978 |
| Chico Serra | F3 Britânica, 1979 | 1981 |
| Ayrton Senna | F3 Britânica, 1983 | 1984 |
| Maurício Gugelmin | F3 Britânica, 1985 | 1988 |
| Rubens Barrichello | F3 Britânica, 1991 | 1993 |
| Christian Fittipaldi | F3000 Internacional, 1991 | 1992 |
| Enrique Bernoldi | Fórmula Renault Europeia, 1996 | 2001 |
| Ricardo Zonta | F3000 Internacional, 1997 | 1999 |
| Antônio Pizzonia | F3 Britânica, 2000 | 2003 |
| Felipe Massa | Euro F3000, 2001 | 2002 |
| Nelson Piquet Jr. | F3 Britânica, 2004 | 2008 |
| Felipe Nasr | F3 Britânica, 2011 | 2015 |
| Pietro Fittipaldi | Fórmula V8 3.5, 2017 | 2020 |
| Gabriel Bortoleto | F3, 2023, e F2, 2024 | 2025 |
O levantamento considera campeonatos internacionais de monopostos que serviram como categorias de acesso à Fórmula 1. Ficam excluídos títulos nacionais, Fórmula Ford, Indy Lights e vitórias em eventos isolados, como o GP de Macau. A lista apresenta os 16 casos identificados e documentados, sem pretensão de equivalência técnica entre os campeonatos.
Câmara poderá ampliar a relação quando efetivamente largar em seu primeiro GP, previsto para 2027. Por enquanto, o brasileiro aparece separadamente, com os títulos da Fórmula Regional Europeia e da F3.

Nem todos os campeões conseguiram chegar à F1
A conquista de títulos internacionais importantes nunca representou garantia de promoção à Fórmula 1. Alguns brasileiros tiveram carreiras de destaque nas categorias de acesso, mas não conseguiram uma vaga para disputar GPs.
Gil de Ferran conquistou a F3 Britânica em 1992, um ano depois de Rubens Barrichello. O brasileiro chegou a realizar testes com equipes de F1, mas seguiu carreira nos Estados Unidos, onde conquistou dois títulos da CART e venceu as 500 Milhas de Indianápolis de 2003.
Mário Haberfeld foi campeão da F3 Britânica em 1998, mas também não chegou a disputar corridas de F1. Bruno Junqueira conquistou a F3000 Internacional em 2000 e participou de testes com a Williams, antes de construir carreira no automobilismo norte-americano.
O exemplo mais recente é Felipe Drugovich, campeão da F2 em 2022. O brasileiro integrou o programa de desenvolvimento da Aston Martin, participou de treinos livres e testes, mas não largou em uma corrida oficial.
Câmara chega à Haas com currículo que atravessa duas gerações de acesso
A trajetória de Câmara combina características de diferentes períodos do automobilismo. Assim como Senna, Piquet e Emerson Fittipaldi, o brasileiro conquistou um campeonato internacional de Fórmula 3 antes da promoção à elite. Ao mesmo tempo, segue o sistema moderno de formação, com participação em categorias diretamente associadas aos fins de semana de Fórmula 1 e apoio de uma academia de pilotos.
O pernambucano também chega com experiência acumulada em testes de carros anteriores. Durante 2026, participou de atividades com a Ferrari e com a Haas, incluindo sessões em Portimão que contribuíram para sua avaliação pela equipe norte-americana.
O GRANDE PRÊMIO já detalhou como Câmara superou uma referência de Oliver Bearman em teste da Haas e quais números diferenciam os futuros companheiros.
A conquista da Fórmula 2 de 2026 ainda pode fortalecer o currículo do brasileiro antes de sua estreia. Entretanto, mesmo sem o terceiro título consecutivo, Câmara já reúne duas conquistas internacionais de destaque e passa a integrar uma tradição construída por diferentes gerações de pilotos brasileiros.
A Fórmula 1 tira uma folga neste fim de semana e retorna entre os dias 23 e 25 de outubro, para a disputa do GP dos Estados Unidos. A etapa de Austin será a 18ª da temporada 2026.