Quem olha de fora pode até achar que George Russell foi acometido por um tremendo azar, uma zica daquelas ou qualquer coisa nesse sentido, porém, vendo mais de perto, talvez tenha sido um enorme golpe de sorte. E tabela de classificação da Fórmula 1 2022 não deixa mentir. Mesmo tendo nas mãos uma Mercedes claudicante, o inglês de 24 anos parece saber bem como domar o esquisito W13 e, sem qualquer cerimônia, surge em uma inusitada disputa pelo vice-campeonato, uma vez que Max Verstappen está perto de fechar a conta desta temporada e celebrar seu merecido segundo título mundial. Isso por si só já mudaria algumas carreiras. Mas George deve ir além.

A sensação de má sorte vem justamente da fase vivida pela equipe que venceu os últimos oito campeonatos. Piloto da Mercedes desde as categorias de base, foi pelas mãos da montadora que chegou à F1, defendendo a Williams em um primeiro momento. O piloto precisou esperar três longas temporadas para enfim ter a chance de se sentar em um dos cockpits mais desejados do grid. Só teve um problema: depois de impor um domínio nunca visto no esporte, a esquadra prateado simplesmente errou a mão e construiu um carro complexo e cheio de caprichos. Tanto distinto que até agora que o time não tem certeza se vale investir no desenvolvimento.

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QUEM É O MELHOR DA F1 2022 APÓS VERSTAPPEN E POR QUE É RUSSELL | GP às 10

O carro projetado pela Mercedes chama atenção desde o início da temporada e passou por diversas fases. A primeira foi a do espanto, uma vez que a equipe optou por um caminho extremo, apresentando um design radical com sidepods finos em um conceito muito estreito. Dentro do que os engenheiros idealizaram sobre o efeito-solo, o modelo alemão foi o que mais sofreu com o porpoising. O time levou quase metade da primeira parte da temporada em busca de solução. Sofreu em circuitos de rua, por causa das ondulações, e enfrentou problemas em pistas de alta velocidade.

Depois, quando foi capaz de identificar as falhas e promover atualizações, a Mercedes encontrou novos problemas, então passou a ter de levar peças novas a quase todas as etapas, com a meta de compreender melhor a própria criação. Enquanto isso, seus pilotos viviam também situações diversas, com Lewis Hamilton testando elementos e configurações, ao passo que Russell tentava se adaptar à nova garagem.

Com isso posto, a chance de disputa de título desapareceu logo nas primeiras corridas e, no lugar, ficou apenas trabalho para entender o modelo. Porém, Russell parece ter compreendido mais rapidamente como lidar com os enigmas do projeto alemão. Mesmo em momentos que o carro não respondia em termos de velocidade e performance, George foi capaz de mantê-lo na pista. Por isso, a mensagem passada pelo rádio ao fim do GP da Itália diz muito sobre o segredo do britânico.   

“Disse no rádio à equipe, não importa se somos rápidos ou lentos, continuamos a conseguir pódios. Infelizmente, este fim de semana definitivamente não estávamos onde queríamos estar como equipe, mas, no entanto, podemos olhar para trás nessas três corridas e nos contentar com isso.”

É claro que, diante do que a Mercedes já fez na Fórmula 1, pódios não são suficientes, mas é ‘o que se tem para hoje’’, diriam. E Russell segue obtendo até mais do que o que se tem. A pole na Hungria foi um pouco disso. A volta das férias é outra prova: foram duas corridas no pódio (Holanda e Itália) e um quarto lugar. Não fosse o acidente logo na largada em Silverstone, o inglês #63 muito provavelmente sustentaria uma consistência ímpar em 2022 – que só perde mesmo para Verstappen.

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George Russell foi pole na Hungria e esteve no top-5 em todas as corridas que disputou em 2022 (Foto: AFP)

A verdade é que, apesar da oscilação de desempenho da Mercedes, Russell encontra certa regularidade no caos. Tanto que, neste momento, ocupa a quarta posição na classificação. À sua frente estão Charles Leclerc, segundo, e Sergio Pérez (terceiro). Apenas 16 pontos separam George do piloto da Ferrari, restando ainda seis etapas até o fim da temporada.

Ainda que a tarefa seja árdua, levando em consideração que Ferrari e Red Bull possuem carros muito mais competitivos, impressiona a forma como o britânico se colocou nessa equação e o quanto permanece como uma ameaça. E aqui é importante dar um peso à performance do inglês, porque a Mercedes não venceu na temporada, diferente de Leclerc (3 triunfos), Pérez (1) e Sainz (1) – o espanhol, inclusive, aparece com 16 tentos a menos.

Mesmo em pistas em que a Mercedes não obtém qualquer vantagem, como aconteceu em Spa e Monza, lá está Russell próximo do pódio ou nele, tirando proveito da confiabilidade do W13, da instabilidade dos rivais e até mesmo dos infortúnios que às vezes acometem o colega Hamilton. Nada disso, porém, tira o mérito do inglês.

Portanto, com ou sem vice, o piloto estabelece um novo parâmetro para a carreira e atinge às expectativas depositadas nele – o ponto mais importante, especialmente diante do que a Mercedes lhe entregou. No topo de tudo, o resultado da F1 2022 vai moldar muito do caminho daqui para frente. Se seguir assim, tudo que for falado sobre Russell terá o peso da performance apresentada neste ano. E só como um exercício de reflexão, os 203 pontos somados pelo britânico até aqui representam somente 23 a menos do que Valtteri Bottas acumulou em toda a temporada 2021.