Entre erros bobos, momentos de precipitação, resultados surpreendentes e muito aprendizado, Gabriel Bortoleto terminou a temporada de estreia na Fórmula 1 em 2025 como um dos destaques entre os novatos. Agora, no entanto, o brasileiro terá um desafio de gente grande pela frente, já que, ao lado do experiente Nico Hülkenberg, terá de ajudar a Audi a entender as nuances do novo regulamento para, quem sabe, terminar o ano de maneira promissora — na mesma pegada, por exemplo, da antiga Sauber no campeonato passado.

Obviamente, ainda é muito cedo para definir qual será a ordem de forças do grid a partir do GP da Austrália, neste fim de semana, porque ainda que os testes realizados em Barcelona e no Bahrein sejam importantes e indiquem, sim, as equipes que começam um passo à frente, não podem ser tratados como algo definitivo do que vai acontecer. Até aqui, Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull se colocaram como principais nomes, enquanto a escuderia liderada por Jonathan Wheatley e Mattia Binotto começou na parte de trás — o que não deve ser considerado uma surpresa ou tampouco decepção.

O mais importante neste momento é notar que a Audi teve uma performance positiva ao longo da pré-temporada. Claro, nas atividades no circuito da Catalunha, no fim de janeiro, a equipe sofreu com algumas questões de confiabilidade tanto com Bortoleto quanto com Hülkenberg, o que limitou bastante a quilometragem em dois dos três dias escolhidos para levar o R26 à pista. Enquanto isso, em Sakhir, o time alemão andou bem nos seis dias disponíveis, apenas com problemas menores, para terminar as três semanas de preparação com 711 voltas completadas e 3.847 km percorridos — à frente de Alpine (677), Red Bull (672), Cadillac (586) e Aston Martin (334).

Mesmo que os primeiros passos possam ser considerados positivos, ainda há uma longa lista de tarefas a serem cumpridas ao longo dos próximos meses — e é exatamente neste ponto que a ajuda de Bortoleto será importante. Com o novo regulamento da F1, os carros estão menores, mais leves e contam com uma nova aerodinâmica. As unidades de potência, por sua vez, são abastecidas com combustíveis sustentáveis e possuem 50% da potência proveniente da parte elétrica, chegando a 350 kW em vez dos 120 kW da geração anterior.

Em relação à Audi, dificilmente alguém espera que os alemães se coloquem como um dos grandes destaques ou até mesmo marquem presença na zona de pontuação de maneira regular em 2026. Por ser estreante, a esquadra está, de certa maneira, livre desse tipo de pressão, embora exista a expectativa de que uma evolução considerável aconteça até dezembro, indicando que os ambiciosos planos de “se tornar a referência” da categoria no médio prazo realmente são plausíveis. Resumidamente, a cobrança, pelo menos por enquanto, é mais interna do que externa.

Para Bortoleto a história já é diferente. É possível dizer que o brasileiro alcançou o segundo degrau dentro da F1, aquele momento em que erros antes aceitáveis já não serão mais vistos da mesma forma e uma desvantagem tão grande em relação ao companheiro na classificação final do campeonato — 51 x 19 a favor de Nico em 2025, por exemplo — passa a gerar um certo nível de desconfiança, ainda que, é bom mencionar, o veterano esteja completando voltas por aí desde 2010. Mas isso faz parte do esporte, é inevitável — cabe ao piloto lidar com a situação.

Gabriel Bortoleto completou um bom número de voltas com a F1 no Bahrein (Foto: Audi)

Obviamente, há muito potencial do lado do jovem de 21 anos. Em 2025, sem contar as corridas sprint, Gabriel conseguiu largar à frente de Hülkenberg em 12 oportunidades, exatamente em uma área em que o alemão sempre se destacou. Ou seja: sobra ritmo puro por parte do #5, o que falta mesmo é traduzir melhor essa velocidade em bons resultados também aos domingos, o que naturalmente deve acontecer em 2026, já que agora conhece melhor as pistas e a dinâmica da categoria. Mais maduro, erros como os que aconteceram nos GPs de São Paulo e de Las Vegas dificilmente serão vistos novamente.

Os desafios do novo regulamento nem podem ser usados de desculpa — e nem mesmo o brasileiro quer isso. Na verdade, a necessidade de adaptação se tornou algo corriqueiro na vida do paulista, que competiu com quatro carros diferentes entre 2022 e 2025, considerando as passagens por FRECA, Fórmula 3, Fórmula 2 e, claro, F1, na geração anterior. 2026 é apenas mais um degrau nesse processo que já provou ser realizado de maneira muito eficaz.

No entanto, se até nomes experientes como Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Max Verstappen estão reclamando, Bortoleto não deve ser julgado de maneira diferente. A maior dependência da parte elétrica nas novas unidades de potência, que força os pilotos a reduzirem drasticamente as marchas nas curvas e a sofrerem com a instabilidade tanto no eixo traseiro quanto no dianteiro, vai ser uma dor de cabeça para todos. Assim como as ultrapassagens, que agora devem ser calculadas em pontos antes anormais, considerando que a aerodinâmica ativa está amplamente disponível nos setores de reta.

É tudo questão de adaptação, que vai chegar com o tempo. O fato é que, no médio para longo prazo, o desenvolvimento aerodinâmico da Audi vai ser um peso maior nessa balança. Embora a robusta e qualificada equipe de engenheiros fique responsável por essa parte, o feedback do piloto tem um papel fundamental em informar o que deve continuar ou ser substituído, já que a sensação na pista caminha lado a lado com os modernos equipamentos na fábrica. Quanto a isso, Gabriel não deve ter problemas, e uma estreita parceria com o experiente Nico vai ajudar.

Gabriel Bortoleto é peça fundamental na engrenagem da Audi em 2026 (Foto: Audi)

Tudo que o brasileiro precisa fazer é manter a cabeça no lugar, entender o processo e assumir a responsabilidade de ser uma peça fundamental na engrenagem da icônica marca alemã na F1. Não há atalhos. Erros vão acontecer, é inevitável. O que importa é manter os pés no chão e entender que cada fim de semana é diferente do outro. E que 2026 é apenas o primeiro passo.

A Fórmula 1 retorna neste fim de semana, de 5 a 8 de março, com o GP da Austrália, abertura da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

GP da Austrália de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:

SessãoBRA*CBVPOR
ANG
MOZ
Treino livre 122:300:3002:3003:30
Treino livre 202:0004:0006:0007:00
Treino livre 322:300:3002:3003:30
Classificação02:0004:0006:0007:00
Corrida01:0003:0005:0006:00

*Horário de Brasília

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