Há exatos 30 anos, Jean Alesi deixava a torcida da Ferrari em completo êxtase no Circuito Gilles Villeneuve ao conquistar a primeira e única vitória da carreira na Fórmula 1. Em uma temporada que até então vinha sendo marcada pelo acirrado duelo entre Michael Schumacher e Damon Hill, o francês surpreendeu a todos e superou os rivais para, exatamente no dia em que completava 31 anos de idade, cruzar a linhada de chegada na primeira posição no GP do Canadá de 1995.
A corrida em Montreal foi a sexta do campeonato, que já havia acumulado passagens por Brasil — que abria o calendário naquela época —, Argentina, San Marino, Espanha e Mônaco. A briga pela liderança do Mundial ainda era definida em detalhes, com o piloto da Benetton subindo no degrau mais alto do pódio em três oportunidades, em Interlagos, Barcelona e Monte Carlo, contra duas do rival da Williams — o que, em termos de pontuação, traduzia-se em 34 x 29 em favor do alemão.
Por isso, a etapa no Canadá se apresentava como uma grande chance para Hill desbancar o rival e tentar recuperar a dianteira no certame. Mas foi Schumacher quem saiu na frente no fim de semana, já que o tempo de 1min27s661 anotado nos treinos oficiais de sexta-feira foi o suficiente para dar a ele a pole-position — 0s378 à frente do britânico, que cravou 1min28s039 no cronômetro e teve de se contentar com o segundo lugar. David Coulthard, Gerhard Berger e Alesi completaram o top-5 do grid.
Franco favorito à vitória, Michael largou bem no domingo e conseguiu se defender de Damon para se manter na primeira posição. O top-5, na verdade, ficou inalterado, com Jean — que naquele momento era o quarto colocado na classificação da temporada — sendo capaz de se recuperar após uma saída não tão boa e permanecendo à frente de Johnny Herbert nos metros inicias, garantindo-se no quinto lugar.

Não demorou muito para o primeiro incidente da prova acontecer. Logo na volta de abertura, no hairpin da L’Epingle, Herbert acabou sendo tocado por Mika Häkkinen, que tentou ultrapassar o adversário da Benetton por dentro no contorno da curva 10 e acabou deixando os dois enroscados no meio da pista. Sob bandeira amarela, os fiscais tiveram de entrar em ação para tirar os dois carros, mas principalmente a McLaren do finlandês, que ficou estagnada exatamente no traçado ideal dos pilotos.
Mas ainda teve mais. No início do segundo giro, Coulthard perdeu o controle da Williams quando se aproximava da curva 3, rodou e ficou preso na brita — causando, mais uma vez, o acionamento de bandeiras amarelas, desta vez no setor 1. No mesmo instante, Alesi jogou de lado e superou Berger, companheiro de equipe, para subir para o terceiro lugar, atrás apenas de Schumacher e Hill.
Enquanto Michael imprimia forte ritmo e se afastava cada vez mais na liderança, Damon começava a sofrer uma perseguição intensa da dupla da Ferrari, que apresentava um ritmo similar nas primeira voltas no Circuito Gilles Villeneuve. Até que, na volta 17, Jean aproveitou um vacilo do #5 da Williams com os retardatários para executar uma linda manobra na freada do hairpin da curva 10 e, desta forma, assumir o segundo lugar.
Mas a distância em relação ao líder da prova era muito grande, com Schumacher abrindo mais de 11s no 20º giro, enquanto o francês ampliava para 3s3 a vantagem sobre Hill, que, por sua vez, sofria com a aproximação de Berger. Seis voltas mais tarde, Gerhard colocou de lado na chegada da curva 3 e não tomou conhecimento do britânico, que caiu para o quarto lugar, embora ainda alimentasse uma margem de 10s sobre Rubens Barrichello e Eddie Irvine, dupla da Jordan, que seguia em quinto e sexto, respectivamente.

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Na volta 30, no momento em que os carros começavam a ficar mais leves e os pneus mais desgastados, Schumacher continuava se distanciando na ponta, colocando 12s509 de vantagem sobre Alesi. O #27 da Ferrari permanecia a mais de 4s do companheiro de time, que também não tinha dificuldades para gerir uma margem similar em relação a Hill, que fechava o top-4. Quando a contagem bateu os 35 giros, os pilotos da parte da frente do grid começaram a ir aos boxes.
Alesi, Hill e Barrichello puxaram a fila e levaram os respectivos carros para o reabastecimento e troca da borracha. Mas o que mais chamou a atenção mesmo foi a situação desesperadora de Berger, que sofreu uma pane seca e teve de se arrastar por alguns bons metros até o pit-lane, vendo a chance clara de pódio ir por água abaixo. Michael, por sua vez, parou três voltas depois e ainda voltou à pista com uma vantagem de 30s sobre o francês da Ferrari.
Tudo seguia normalmente após os pit-stops, com o alemão tranquilo na dianteira, enquanto Alesi, Hill, Barrichello e Irvine completavam a lista dos cinco primeiros colocados. Porém, o cenário começou a mudar a partir da volta 50, quando Damon encarou problemas com o sistema hidráulico do câmbio e foi obrigado a retirar o FW17 #5 da corrida, abrindo passagem para que o brasileiro da Jordan pudesse sonhar com o pódio. E não parou por aí.

Na volta 58, foi a vez de Schumacher, líder incontestável em Montreal, deparar-se com um problema elétrico no câmbio do B195 #1. Com a terceira marcha travada, o campeão do ano anterior teve de se encaminhar aos boxes para os devidos reparos: além de precisar trocar o volante, um dos mecânicos teve de conectar um laptop ao carro para reprogramar o câmbio. Como a visita aos boxes foi longa, Michael voltou à pista apenas na sétima posição. O alemão ainda contaria com um incidente entre Berger e Martin Brundle nos instantes finais para receber a bandeira quadriculada em quinto.
Sem ter nada a ver com a história, Alesi assumiu a primeira posição, com uma ampla margem de 23s128 sobre Barrichello, que aparecia em segundo, quase 4s à frente de Irvine. O francês não teve problemas para administrar a vantagem e cruzou a linha de chegada como grande vencedor pela primeira e única vez na carreira, levando os canadenses ao delírio, já que competia com o famoso #27 da Ferrari, que marcou época nas mãos do herói local, Gilles Villeneuve.
Eufóricos, os torcedores invadiram a pista antes mesmo de Barrichello e Irvine terminarem a prova, e, por isso, a dupla da Jordan — que pela primeira vez colocava dois pilotos no pódio — teve de desviar da multidão no momento da bandeirada. Depois, a direção de prova decidiu anular a volta 69 e o resultado que valeu foi o do giro anterior, sem qualquer mudança no resultado final, que teve Olivier Panis em quarto, além de Schumacher e Gianni Morbidelli completando a zona de pontuação.
A vitória de Alesi também foi a 150ª da escuderia de Maranello na F1 e a primeira em Montreal em dez anos. “Vencer com a Ferrari é especial, algo que você não consegue com nenhum outro time”, disse, na época. “Não poderia ter pedido um presente de aniversário melhor”, comemorou.
A Fórmula 1 volta de 13 a 15 de junho no Canadá, décima etapa da temporada 2025.