O automobilismo é um esporte de alto risco e, ao longo dos anos, a Fórmula 1 precisou conviver com acidentes — de maiores ou menores proporções — que não só entraram para a história do esporte por gerarem imagens marcantes, como também impulsionaram a busca por mais segurança tanto por parte dos pilotos quanto da própria categoria. Um dos grandes exemplos disso é a batida de Niki Lauda no GP da Alemanha, em Nürburgring, que aconteceu há exatos 50 anos, em 1º de agosto de 1976.

Naquele domingo, Lauda perdeu o controle do carro na segunda volta da corrida em Nürburgring. A Ferrari acertou em cheio o guard-rail, virou uma bola de fogo e protagonizou um dos momentos de maior tensão da história da F1. O acidente reforçou a importância da segurança no esporte e impulsionou mudanças na categoria. Mas antes de falar da corrida na Alemanha, é preciso explicar o contexto do campeonato.

O CONTEXTO DA F1 EM 1976

Lauda conquistou o primeiro título na F1 com a Ferrari em 1975 e chegou à temporada seguinte com o status de favorito. Afinal, Emerson Fittipaldi, um dos principais nomes do grid, havia deixado a McLaren para se juntar ao projeto da Copersucar, a primeira equipe totalmente brasileira no Mundial. Como substituto, o time britânico escolheu James Hunt, que mais tarde se tornaria o grande rival de Niki em 1976.

Hunt começou o ano mostrando velocidade ao conquistar a pole-position na etapa de abertura, no Brasil, e também na corrida seguinte, na África do Sul. Porém, nas corridas, o domínio era de Lauda. Nas nove primeiras etapas da temporada, o austríaco venceu cinco vezes (Brasil, África do Sul, Bélgica, Mônaco e Inglaterra), enquanto o britânico triunfou apenas na Espanha e na França.

Niki Lauda chegou como favorito ao título em 1976 (Foto: Reprodução)

Apesar da diferença de pontos, a McLaren viveu duas grandes disputas nos bastidores ao longo de 1976. A primeira aconteceu no GP da Espanha, em Jarama. Hunt venceu a corrida, mas uma inspeção técnica concluiu que o carro da McLaren estava 1,5 cm mais largo do que o permitido pelo regulamento. James foi desclassificado, mas a equipe imediatamente recorreu da decisão. Dias após o GP da França, o recurso foi aceito, a desclassificação foi anulada e a vitória da Espanha devolvida ao inglês.

Na Inglaterra, a polêmica voltou a aparecer. Na largada, Clay Regazzoni tocou na traseira de Lauda, que rodou, espalhando destroços pela pista. Hunt e Jacques Laffite também se envolveram no incidente e, diante das condições do traçado, a direção de prova acionou a bandeira vermelha. No entanto, James teve o carro empurrado pelos mecânicos e passou por um trecho que não fazia parte do traçado utilizado pela Fórmula 1 em Brands Hatch. Hunt venceu a corrida em casa, mas Ferrari, Tyrrell e Copersucar apresentaram protestos, o que posteriormente levou à desclassificação do piloto britânico e fez com que Lauda herdasse a vitória.

Assim, a F1 chegou ao GP da Alemanha de 1976 com Lauda liderando o campeonato com 58 pontos, 23 a mais que Hunt. O austríaco, no entanto, estava preocupado com a segurança do circuito e defendeu que a prova não fosse realizada. Apelidado de “Inferno Verde”, Nürburgring já era considerado estreito e perigoso para a velocidade que os carros da época haviam atingido.

Embora a discussão tenha acontecido, os pilotos foram informados de que o circuito tinha contrato para receber a Fórmula 1 por três anos e aquela era a terceira edição disputada na versão modificada da pista. Assim, o evento foi mantido. Para piorar a situação, o clima também preocupava durante o fim de semana. No domingo, a chuva caiu momentos antes da largada, mas parte do traçado já estava seco no início da corrida.

Lauda foi um dos pilotos que optaram pelos pneus slick e, na segunda volta, saiu da pista, bateu violentamente contra o guard-rail e retornou ao traçado com o carro envolto em chamas. Até hoje não se sabe ao certo o que fez o piloto perder o controle da Ferrari, já que Niki não recuperou a memória dos instantes imediatamente anteriores ao acidente. A principal hipótese, no entanto, é uma quebra da suspensão traseira ou uma aquaplanagem em um trecho que ainda estava molhado.

Após retornar à pista, Lauda ainda foi atingido pela Surtees de Brett Lunger. O norte-americano saiu do carro sem lesões graves e foi o primeiro a tentar socorrer o piloto da Ferrari. Pouco depois, Harald Ertl e Guy Edwards também chegaram ao local, mas foi Arturo Merzario quem conseguiu retirar o austríaco das ferragens.

Niki Lauda ainda voltou para a disputa da temporada 1976 da F1 (Foto: Reprodução/F1)

Embora tenha deixado o cockpit consciente e caminhando por conta própria, o acidente teve consequências gravíssimas. A espuma do capacete se deslocou e deixou parte do rosto de Niki exposta às chamas. O austríaco sofreu queimaduras graves, fraturas faciais e inalou uma grande quantidade de fumaça.

A corrida foi interrompida e, pouco tempo depois, a direção de prova decidiu reiniciá-la. Hunt venceu a prova, enquanto Jody Scheckter e Jochen Mass completaram o pódio.

Lauda, por sua vez, foi levado de helicóptero ao hospital Bundeswehr, na cidade de Koblenz. Posteriormente, foi transferido para a Clínica Traumatológica de Ludwigshafen, referência no tratamento de queimaduras. O austríaco entrou em coma, correu risco de morte e chegou a receber a extrema-unção. O fogo consumiu grande parte da orelha direita, além dos cabelos, da sobrancelha e dos cílios do mesmo lado do rosto. A inalação da fumaça também provocou graves danos ao sistema respiratório.

Em recuperação, Niki perdeu os GPs da Áustria e dos Países Baixos e viu Hunt reduzir a diferença no campeonato para apenas dois pontos. Assim, apenas 41 dias após o grave acidente na Alemanha, voltou ao paddock da F1 para disputar o GP da Itália. Além de superar Hunt na classificação, terminou a corrida em quarto lugar, enquanto o rival abandonou após rodar e parar na brita.

O impacto no campeonato

Nas corridas seguintes, James aproveitou a evolução da McLaren e venceu no Canadá e nos Estados Unidos, enquanto Lauda pontuou apenas com um terceiro lugar na penúltima etapa da temporada. Dessa forma, o campeonato chegou à rodada decisiva, no Japão, com o piloto da Ferrari liderando a disputa por apenas três pontos.

Com a ausência de Niki Lauda, James Hunt cresceu na briga pelo título (Foto: Reprodução)

Um verdadeiro dilúvio tomou conta de Fuji naquele fim de semana e colocou a realização da prova em risco. Os pilotos se reuniram para decidir se a corrida deveria ou não acontecer. Lauda posicionou-se contra a realização do evento, porém, mais uma vez, foi voto vencido.

Na corrida, o piloto da Ferrari largou em terceiro, logo atrás do rival. Mas após completar a primeira volta, recolheu o carro aos boxes e abandonou a prova por decisão própria. Nas voltas seguintes, Larry Perkins, José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi tomaram a mesma decisão.

Hunt seguiu na corrida e, embora tenha enfrentado dificuldades e perdido posições ao longo da prova, recuperou-se para terminar em terceiro. O resultado lhe garantiu 69 pontos no campeonato, contra 68 de Lauda.

“Eu sinto muito por Niki, sinto muito por todos que correram nessas circunstâncias ridículas. As condições estavam perigosas, e eu respeito completamente a decisão de Niki. Depois de tudo o que enfrentou, o que mais poderia fazer? Eu senti que merecia vencer o campeonato. Também senti que Niki merecia vencer e gostaria que pudéssemos dividi-lo”, disse Hunt ao fim da corrida.

Niki Lauda foi um dos responsáveis pela chegada de Lewis Hamilton à Mercedes (Foto: Reprodução)

Lauda voltou a conquistar o título mundial com a Ferrari em 1977 e venceu o tricampeonato pela McLaren em 1984. As sequelas do acidente em Nürburgring o acompanharam pelo resto da vida. O austríaco precisou passar por dois transplantes de rim, em 1997 e 2005, além de um transplante de pulmão em 2018. Cerca de um ano depois, morreu, em maio de 2019, aos 70 anos. Antes do transplante de pulmão, atuou como presidente não executivo da Mercedes e foi o responsável por convencer Lewis Hamilton a deixar a McLaren para defender a equipe alemã a partir da temporada de 2013.

A história de Lauda na temporada de 1976 da Fórmula 1 foi eternizada no filme ‘Rush: No Limite da Emoção’.