Depois da pole dominante da sexta-feira, a sensação foi de que a Mercedes havia voltado a um ponto de supremacia do início do ano. E não só ela, mas principalmente George Russell. A liderança nos treinos e a voltaça do Q3 remeteram ao desempenho lá de março, mas ainda havia uma dúvida se o inglês seria capaz de converter a posição de honra em uma vitória igualmente categórica. A incerteza era respaldada pela trajetória de George depois daquele GP da Austrália e de todos reveses que atravessou desde então. Só que, neste sábado (26), o piloto do carro #63 contou uma história diferente e ainda que a diferença pífia de 0s196 na linha de chegada para Max Verstappen tente apresentar uma nova versão dos fatos, a verdade é que Russell foi capaz de recuperar o melhor de si e vencer em um momento dos mais decisivos da própria jornada.
Foi uma vitória importante na tentativa de manter viva a esperança de uma briga pelo título, mas foi também um triunfo fundamental de um ponto de vista mental. George foi colocado em frente a um espelho que refletiu todos os perrengues de 2026 e, ainda assim, foi capaz de superar os problemas, porque a performance que apresentou em Baku vai além do primeiro lugar. Russell confirmou algo que havia dito dias atrás, quando revelou que, finalmente, começava a entender o W17 e as demandas de um carro que, embora vencedor, tem lá suas idiossincrasias. A verdade é que o britânico enfrentou muito mais dificuldades de adaptação que o companheiro de equipe, e isso também o afetou fortemente.
Na primeira parte da temporada, após a conquista em Melbourne, Russell emendou várias etapas em que, além dos problemas em razão da confiabilidade, também falhou em extrair mais do carro que tinha nas mãos. Enquanto isso, Kimi estabelecia vitórias em série. Outros rivais tentaram também se infiltrar na briga, mas ninguém com força suficiente. Mesmo assim, George foi ficando para trás e acumulando perguntas sem respostas. O ponto mais delicado foi mesmo o GP da Itália, já nessa segunda metade. Monza surgiu como uma chance de ouro para tentar voltar ao jogo. Punido, Antonelli partia do fundo do grid, enquanto George estava na pole. Era uma oportunidade de capitalizar bem, mas o italiano brilhou naquele fim de semana. Não só pela agressiva recuperação, mas também pela forma como confrontou o colega e venceu. Foi uma humilhação. Tanto que Russell chegou a jogar a toalha.
Mas em Baku algo aconteceu.
O inglês foi capaz de aproveitar tudo o que o carro alemão tem de melhor em uma pista que também abraça essas qualidades. O eficiência aerodinâmica e o excelente gerenciamento da bateria foram essenciais. Pareceu novamente a pré-temporada. Dos treinos livres à corrida, Russell não deu chances a ninguém e nem mesmo a um vacilo no fim. Foi impecável e se colocou por si só em uma melhor posição no campeonato, como também dentro da Mercedes. Naturalmente, também é uma conquista que ajuda a reestabelecer a confiança em si, no equipamento e nas decisões tomadas em conjunto com os engenheiros, porque essa vitória também precisa servir como um trampolim para o que George deseja do futuro — se não o de 2026, certamente o de 2027.
“Com certeza, este foi o fim de semana mais dominante da minha carreira”, disse Russell após a corrida em Baku. “E aconteceu num ótimo momento. Conseguir isso num circuito que exige tanto comprometimento e confiança, me deixa muito orgulhoso, porque teria sido muito fácil para mim perder a fé nesta temporada. Estou muito animado. Isso será um grande passo em frente.”
“A Fórmula 1 é tão difícil, você não tem oportunidades de testar, mas finalmente está ficando um pouco mais intuitivo para mim do que antes, e estou ganhando confiança, especialmente em circuitos como este, isso permite que você explore um pouco mais o limite, chegue um pouco mais perto dos muros. Foi um fim de semana impecável”, continuou. “Já se passaram quatro corridas desde as férias. Larguei na primeira fila em três delas e subi ao pódio três vezes nessas quatro corridas. Sinto que agora posso lutar pela vitória semana após semana.”

Russell ainda resumiu o significado do desempenho em Baku. “Agora sinto que, se a temporada tivesse começado hoje, ou desde as férias de verão, teria muita chance de lutar. Mas estou com esse grande déficit neste momento. Pode mudar rapidamente. Então não estou correndo atrás disso. Estou correndo atrás para vencer todas as corridas, e o que tiver de ser, será.”
Portanto, George precisa aproveitar o momento ao máximo. É hora de empilhar fins de semana de domínio e triunfos. A diferença ainda é substancial e parece difícil de bater um Antonelli que erra muito pouco — só que a etapa azeri também mostrou que o italiano tem seus demônios. E lembra, de vez em quando, que ainda está somente no segundo ano de F1 aos 20 anos.
Falando do líder do campeonato, o GP do Azerbaijão também funciona como um espelho para ele. Se para George o fim de semana termina com a sensação de que se abriu aí uma chance de redenção, para Antonelli é um recado claro de que não há nada ganho ainda. Existe, sim, uma enorme diferença de pontos e que proporciona alguma tranquilidade nesta fase final, mas também não deixa de ser um lembrete importante de que qualquer vacilo pode custar muito caro.
Isso porque Kimi vem flertando com o perigo há algum tempo. São limites de pista, quase batidas, tudo fruto de um enorme arrojo, mas que precisa ser dosado. Em Madri, há duas semanas, o italiano venceu, mas a atuação esteve muito aquém do que já mostrou em 2026. Houve chamadas por atenção aos excessos e um quase desastre no fim da prova. Agora, em Baku, novamente a equipe pediu paciência.
A realidade é que o piloto do carro #12 exagerou no acidente da classificação e pagou o preço, que só não foi tão alto porque a corrida acabou sendo mais tumultuada do que o início da disputa previa. Ainda assim, ele tem razão quando disse que esse foi o “pior fim de semana do ano”. Diante do potencial da Mercedes, o natural era uma dobradinha sem sustos.

“Sempre me senti um passo atrás”, contou Antonelli. “Com o erro na classificação, o nível de confiança não estava alto e hoje o objetivo era minimizar os danos. Provavelmente, a minha cabeça também não estava no melhor lugar. Não estava presente. Não estava realmente concentrado, especialmente depois do que aconteceu, e simplesmente não corri os mesmos riscos. Hoje foi mais um jogo de cautela, sem ataques diretos. Só quero garantir que no próximo fim de semana voltemos ao nível certo.”
É isso. Nesta altura do campeonato, todo cuidado é pouco. E o que fica do Azerbaijão é a sensação de que as lições tiradas vão definir também o futuro de ambos. Ou uma briga segura até o fim, um renascimento definitivo ou um desastre sem volta. O sinal de alerta está ligado.
A Fórmula 1 retorna às atividades no próximo fim de semana, com o GP do Bahrein. Apesar do nome, a 16ª etapa da temporada será disputada no Circuito de Sepang, na Malásia.