“EU REALMENTE PRECISAVA DISSO”. A frase foi dita por um aliviado Charles Leclerc ao deixar a Ferrari #16 no parque fechado do Red Bull Ring. Foi a primeira vez desde o GP da Austrália, em abril, que o monegasco subiu ao posto mais alto do pódio – aliás, o piloto não figurava no top-3 de uma corrida da F1 desde a etapa de Miami, em maio último. De líder do Mundial após as cinco primeiras corridas, Leclerc caiu para um melancólico terceiro posto logo depois, em razão de uma inacreditável sequência de erros e inconsistência técnica da casa de Maranello. “Antes estava dando tudo deu errado”, disse mais tarde. De fato, o cenário se tornava cada vez mais desolador e atingiu uma espécie de ápice na semana passada, quando os italianos cometeram mais um equívoco enquanto Charles liderava o GP da Inglaterra. Portanto, vencer da forma como fez na Áustria tira um peso dos ombros, mas não completamente. Isso porque a Ferrari novamente falhou quando tinha tudo para impor uma dura derrota à rival Red Bull.
Ainda que Max Verstappen tenha conquistado a pole e a vitória na sprint, a sensação no laranja circuito austríaco era de que os carros vermelhos tinham mais a mostrar. De fato, a F1-75 chegou bem acertada ao traçado de Spielberg. A performance sólida nos trechos de alta velocidade e, principalmente, o controle dos pneus estavam em seus pontos fortes, mas uma briga desproposital entre os dois ferraristas no sábado colocou tudo a perder e deixou a impressão de que a bola estava com os taurinos. Mas o domingo revelou uma realidade diferente. A Red Bull passou a enfrentar um desgaste acentuado dos pneus – de ambos os compostos, inclusive – e não foi capaz de gerenciar essa degradação. Assim, Verstappen, inteligentemente, lançou mão da tática de limitar os prejuízos. Enquanto isso, a Ferrari voava.
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Leclerc acompanhou o pole Max na largada, mas rapidamente entendeu que tinha a performance a seu favor, por isso não deixou o rival escapar. Foram três ultrapassagens ao longo da corrida, em um trabalho impecável dos homens de Mattia Binotto nos boxes. O desempenho superior também foi visto pelo lado de Sainz – que, desta vez, ficou fora de qualquer embate com o companheiro de equipe. Com a situação muito clara dentro dos boxes italianos, o espanhol fez uma prova consistente, aproveitando bem o comportamento dos pneus.
Quer dizer, a Ferrari dominava a Red Bull dentro da casa da rival e não só por meio de um ritmo de corrida surpreendentemente superior, mas também por decisões certeiras no pit-wall. De forma muito pensada, os italianos caminhavam para uma dobradinha redentora neste domingo. Até que a confiabilidade traiu a escuderia – de novo.
O doloroso estouro do motor do carro de Sainz, já perto do fim da prova e no momento em que o espanhol se encaminhava para superar Verstappen, apagou toda a história de reparação ferrarista. Ainda há lacunas a serem preenchidas em Maranello. E sim, é preciso ter um carro/motor que não quebre para levar a disputa até o fim. “Certamente, o abandono de Carlos é a parte dolorida da prova de hoje. Sinto muito, porque era outra dobradinha em potencial e não conseguimos levar para casa. Isso mostra que ainda não estamos seguros com os problemas de confiabilidade e temos de trabalhar ainda mais. Vamos analisar os dados, vamos tentar entender, para encontrar uma solução de curto prazo”, disse o chefe Binotto, antes de reconhecer que não esperava ver uma performance tão forte na Áustria.
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“Não esperávamos ser tão fortes. No sentido de que, na sprint, tivemos a sensação de ter algo mais do que eles, mas não tanto. Então, bem, às vezes, as coisas mudam, os pilotos estudaram os dados da corrida sprint para entender melhor o comportamento dos pneus. Entre sábado e domingo, Charles percebeu que tinha de colocar pressão em Verstappen nas primeiras voltas, para não perder margem e depois atacar. Por isso, era uma questão de forçar Max a desgastar os pneus, essa foi uma escolha certa. Foi o resultado do trabalho feito em conjunto com os engenheiros”, completou o dirigente.
É verdade que a Ferrari evolui em muitos quesitos, mas o trabalho em termos de confiabilidade parece aquém e frágil. Não só Sainz abandonou a prova em um momento em que concretizava a dobradinha, como também Leclerc enfrentou problemas com o acelerador. A falha, inclusive, tirou de Binotto a atenção na corrida. “Nas últimas 4 voltas, com o problema do Leclerc, parei de ver a corrida. Fiz qualquer outra coisa, não olhei os dados, apenas escutei o rádio dos engenheiros, esperando que pudéssemos chegar ao final”, contou o dirigente.
Portanto, a vitória de Leclerc é um passo importante na briga com os taurinos, mas não pode ser comemorado a pleno. A Ferrari precisa corrigir seus pontos fracos e as pequenas e grandes falhas. Ainda está atrás no campeonato, tendo uma rival que sabe como disputar títulos ponto a ponto, que entende como a pressão e publicidade agem em momentos cruciais. No mais, é importante colocar aqui que a Red Bull não sai completamente derrotada da Áustria, e Verstappen ainda tem certa folga que lhe dá a chance até de um eventual revés. Serão semanas menos tensas em Maranello, mas não tranquilas.
A temporada 2022 da Fórmula 1 continua entre os dias 22 e 24 de julho, em Paul Ricard, com GP da França.