QUANDO AS LUZES SE APAGARAM na reta principal do circuito de Ímola, Max Verstappen tinha certeza de que a liderança inicial seria determinante, levando em conta não só a natureza do traçado italiano, que impõe obstáculos às ultrapassagens, mas principalmente ao momento que vive a McLaren na Fórmula 1 2025. Então, quando notou aquela porta escancarada na aproximação da variante, não teve dúvida: se jogou ali, freou muito mais tarde e tomou a ponta de um extremamente cauteloso Oscar Piastri, que saltara da pole — “uma execução brilhante”, como o neerlandês definiu mais tarde. Mas essa manobra seria apenas um dos pontos decisivos, porque o que realmente surpreendeu foi o desempenho a partir dali. O carro #1 passou a ditar o ritmo, o que forçou uma mudança de estratégia na garagem papaia. Mas não deu certo, ao passo que Max já encaminhava a segunda vitória na temporada, para deixar claro de uma vez por todas: se o RB21 se mostrar minimamente competitivo, a briga estará aberta.
A história do campeonato até aqui coloca a McLaren como favorita, porque o MCL39 é um modelo versátil. Tem seus pontos fortes nos traçados mais seletivos, aqueles com uma mistura de curvas de baixa e média velocidade. O calor também é algo que agrada. Não à toa, a esquadra de Andrea Stella se mostrou quase imbatível em provas como Miami, Bahrein, Arábia Saudita e Austrália. Mas é igualmente verdade dizer que a Red Bull conhece bem seu potencial e deficiências. Quando há trechos de maior velocidade, como em Ímola, e um trabalho mais minucioso de configuração geral, o RB21 consegue alguns milagres, especialmente nas mãos de Verstappen. Essa parece ser a tendência deste ano, mas o que aconteceu na Emília-Romanha foi algo além. E pode se tornar um problemão para os ingleses.
Porque simplesmente os taurinos colocaram na pista o melhor carro do domingo. Claro que Max tem enorme peso no sucesso, mas a equipe austríaca também trabalhou firme. O salto de qualidade entre a desastrosa sexta-feira e o dia da corrida, passando por um sábado já muito melhor, entregou ao tetracampeão tudo que ele precisava para entrar na briga. E ainda teve a estratégia. O pit-wall do time de Christian Horner não caiu na armadilha da parada antecipada de Piastri e tratou de construir a própria narrativa. Quer dizer, as chamadas certas nos momentos corretos — em que pese a sorte no momento do safety-car virtual —, sempre devolvendo a bola ao piloto #1, que, como é de conhecimento público, raramente desperdiça chance de vencer.
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E a Red Bull ficou surpresa com a queda de ritmo da adversária, especialmente por conta das altas temperaturas — os termômetros quase alcançaram os 30ºC em Ímola. “As condições estavam um pouco diferentes das de sexta-feira. O asfalto estava mais quente, e isso afetou mais nossos rivais do que a nós. E ficamos surpresos com isso”, explicou o diretor-técnico, Pierre Waché. Também por conta desse melhor gerenciamento de pneus, tática e daquele VSC providencial, Verstappen foi capaz de abrir 20s na liderança. E mesmo quando o safety-car físico juntou o pelotão, não teve dificuldades para abrir distância na relargada e vencer.
Embora o engenheiro tenha se mostrado cauteloso, resumindo a performance técnica como “um passo de cada vez”, não há como negar que, mesmo sem um equipamento 100% dominante ou, ao menos igual ao da McLaren, Verstappen faz muita diferença.
Por outro lado, não há como esconder: a McLaren sentiu o golpe. “Foi o melhor resultado que achei que poderíamos alcançar hoje”, reconheceu Lando Norris, segundo colocado. “Provavelmente não esperava que a Red Bull fosse tão rápida.”
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Terceiro colocado, Piastri admitiu os erros. “Achei que estava bem controlado [na largada], e foi uma boa jogada do Max. Então, vou aprender para a próxima vez, com certeza. Com certeza teria feito algo diferente. Provavelmente teria freado 10 metros depois. Só isso. Vivendo e aprendendo.”
“Mas naquele momento, não estava muito preocupado em não estar na liderança. Mas nosso ritmo simplesmente não era tão forte quanto eu esperava”, emendou o australiano, que segue líder, mas agora com diferenças menores.
As declarações dos dois pilotos resumem bem o que foi a corrida da McLaren. Piastri não foi capaz de aproveitar a vantagem da pole e acabou caindo também em uma tática bisonha. Ao antecipar a parada — na volta 13 e sem qualquer sinal de um desgaste extremo —, a ideia era tentar um undercut, mas o piloto pegou muita gente no caminho após a volta dos boxes, especialmente os pilotos que largaram de pneus duros. Ainda que Oscar tenha sido agressivo na escalada do pelotão, o tráfego lhe tirou qualquer chance de redenção e facilitou ainda mais a vida de Verstappen.
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Neste ponto há um questionamento importante: a equipe inglesa decidiu por esse pit-stop, também baseada no que fizera a Ferrari, que chamou Charles Leclerc pouco antes, desencadeando uma série de visitas aos pits de outros pilotos. Importante dizer que Charles vinha apenas em nono… Então, por que cargas d’águas a McLaren marcava o monegasco? Pergunta ainda sem resposta.
A decisão tirou Piastri da disputa e terminou de enterrar as chances dele no safety-car do fim da prova, quando não o chamou novamente. Mas não acaba aí. Esse mesmo carro de segurança também se mostrava uma oportunidade para atacar o líder Verstappen. É que Norris, que vinha tentando se aproximar de Max e estava na mesma janela de pit-stop, parou e voltou com pneus mais novos, enquanto Oscar seguia com os gastos. Na relargada, a McLaren deixou ambos brigarem, e isso apenas permitiu que o neerlandês escapasse mais uma vez. Ou seja, o time simplesmente recusou uma possibilidade de tentar ganhar a prova.
É um fato que os pneus ocuparam uma posição de protagonistas na corrida deste domingo. Afinal, os médios se mostram pouco eficazes, enquanto os macios foram um mistério. No entanto, é inaceitável que a McLaren ainda bata cabeça com situações inesperadas ou decisões que são relativamente simples. É aí que Verstappen e a Red Bull aparecem. O tetracampeão é um tempero necessário ao campeonato e, na medida em que os taurinos conseguirem equilibrar a balança, o título será muito possível, independente da força papaia.
A Fórmula 1 retorna já no próximo fim de semana, de 23 a 25 de maio, com o GP de Mônaco.