AINDA QUE TENHA no currículo algumas das atuações mais brilhantes da Fórmula 1 em 2025, se alguém dissesse a Nico Hülkenberg, antes da largada do GP da Inglaterra deste domingo (6), que chegaria à frente de Max Verstappen, certamente cairia em risos. Afinal, estava saindo apenas em 19º em uma pista difícil e diante de condições nada previsíveis. Seria impossível repetir a façanha de sete dias atrás, quando partiu de último para nono. Agora, se alguém dissesse que o resultado seria o pódio, aí sim tiraria uma declaração meio desbocada e bem-humorada como é da personalidade do alemão. Realmente, parecia surreal, como ele mesmo descreveu depois da festa do champanhe. Sim, Nico enfim se livrou de uma espécie de maldição, e isso só poderia acontecer em um momento em que tudo parecia contra ele mesmo. É que a carreira dele é um pouco assim também.
Hülkenberg estreou na Fórmula 1 pela Williams ainda em 2010, após o título na GP2. Fez uma pole absurda em Interlagos em meio a uma classificação caótica. Somou 22 pontos naquele ano e deixou ótima impressão. No ano seguinte, foi para a Force India e por lá ficou por duas temporada. Defendeu a Sauber na sequência e voltou para a então equipe indiana em 2014. Neste meio tempo, se juntou a Porsche e venceu as 24 Horas de Le Mans em 2015, em um momento que já havia consolidado a carreira na F1. Foi mais um jeito de ratificar o talento e a habilidade. Mas ainda faltava um grande resultado. E a chance passou muito perto mesmo, porque Nico foi chamado pela Renault pouco antes do fim de 2016 — acontece que ele se tornaria um nome forte da lista de Toto Wolff, que se viu sem piloto quando Nico Rosberg, no fim daquele campeonato, decidiu abandonar a carreira após o título. Hülk viu uma oportunidade de ouro passar ali, já que tinha acabado de assinar com os franceses. E Valtteri Bottas ficou com a vaga.
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Por lá, a vida não foi fácil. O alemão acabou deixando a equipe no fim de 2019 e não teve lugar no grid para o ano seguinte. No entanto, foi lembrado por duas vezes pela então Racing Point. Foi chamando para substituir Sergio Pérez e, mais tarde, Lance Stroll, em duas provas daquele campeonato, marcado pela pandemia. Ambos por conta da covid-19. Mesmo parado e sem ter contato com o carro, Nico foi bem nas duas aparições. Em 2022, voltou a ser ‘sub’, mas, desta vez, já pelas cores da Aston Martin, quando entrou no lugar de Sebastian Vettel. Aí pareceu, de novo, que a carreira teria um ponto final, mas Guenther Steiner, então chefe da Haas, telefonou para o alemão e o recolocou no grid. Foram dois anos com a esquadra americana, sendo que, em 2024, foi capaz de retomar o brilho e levar o carro branco e vermelho a resultados surpreendentes. Foi neste momento que surgiu o convite da Audi para fazer parte da transição. E lá foi o alemão se reinventar novamente.
Hülkenberg assinou com a Sauber para ser o cara experiente do projeto, mas a temporada que faz em 2025 vai muito além disso. De cara, foi sétimo em um GP da Austrália maluco em que soube aproveitar as oportunidades que surgiram. Daí em diante, tentou sempre fazer mais do que o fraco carro suíço poderia entregar, até a mudança completa no GP da Espanha. Em Barcelona, a esquadra agora dirigida pelo competente Jonathan Wheatley introduziu um pacote de atualizações muito bem-sucedido. Tanto que Nico sai de 15º para quinto, com direito a uma belíssima ultrapassagem em Lewis Hamilton na parte final da prova. Aí veio o Canadá, com um ótimo oitavo posto e, em seguida, a Áustria, de onde saiu da última posição para pontuar em nono. Então, a Inglaterra.
O que o alemão fez em Silverstone foi qualquer coisa de mágico e também fez justiça a sua trajetória, enfim. Porque Nico ainda tentava se defender de uma indesejável lista de pilotos com longas carreiras, mas sem pódio. E isso acabava mascarando demais seu real potencial e a performance em pista, quase sempre com carros pouco competitivos. Desta vez, Hülk soube bem como traduzir tudo isso em desempenho e resultado, anulando erros, acasos ou simplesmente a má sorte. De uma vez só, o piloto de 37 anos apagou aquela sensação de quase, algo que o perseguia a cada menção ao triste recorde. Também porque ele próprio amargava as chances perdidas, como no Brasil em 2012, no Bahrein dois anos depois e no caos do GP da Alemanha de 2019.
Agora, está livre. A atuação na Inglaterra foi perfeita. Sem equívocos, Hülkenberg largou bem, escalou o pelotão e entendeu a estratégia da Sauber. Antecipou o primeiro pit-stop e foi beneficiado quando a chuva apertou. Fez boas ultrapassagens e ainda teve de lidar com a pressão de um Hamilton correndo em casa. No fim, manteve o carro verde e preto na trajetória e se entregou à merecida festa do pódio e nos boxes da equipe suíça. Foi reconhecido por seus pares e agora já entra para uma lista mais seleta: a dos melhores pilotos da temporada.
“É realmente surreal, para ser sincero. Não sei exatamente como tudo aconteceu. Foi uma luta pela sobrevivência durante boa parte da corrida. Mas tínhamos tudo sob controle: as decisões certas, os pneus certos na hora certa, e não cometemos nenhum erro. Realmente inacreditável”, reconheceu Hülkenberg, que reiterou: não esqueceu como é estar no pódio.
“É claro que me lembrava de como fazer [sobre o pódio]. Fazia muito nas categorias de base. Depois, tive de esperar um pouco. Mas tudo aconteceu tão rápido. Você tem de processar primeiro. São tantas emoções. Muitas pessoas me parabenizando, todos tão positivos. Estou feliz e aliviado. Mas só vai ficar claro o que aconteceu nas próximas horas e dias. Aí tenho certeza de que sentirei ainda mais alegria.”
Também foi uma alegria para quem curte a Fórmula 1 e uma justiça.
A Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho, em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.