E agora? É a pergunta que certamente ressoa de canto a canto, de sala a sala, a cada conversa no café e pausa remunerada dentro das instalações da Red Bull em Milton Keynes, na região das indústrias automotivas da Inglaterra. A revolução que a Fórmula 1 promoveu nas regras para a temporada 2022 sempre apresentaria dificuldades que levariam tempo para serem superadas, isso estava claro, mas as equipes deveriam entender como fazer carros rápidos. A Mercedes, por exemplo, não conseguiu; a Red Bull, sim. O problema é que o carro não aguenta o tranco e vê outra rival despontar, tomar o lanche e sumir com ele horizonte afora. Com apenas três corridas disputadas, a situação é simples: hora é de acender a luz de emergência e apelar para as armas mais pesadas à disposição. Se não for assim, o campeonato vai embora sem chance de retorno.
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Acontece que, enquanto outras equipes tentam resolver suas questões e fazer suas análises próprias, a Ferrari entrou na temporada com o melhor motor, o carro mais equilibrado, mais adaptável e tão rápido quanto o da Red Bull. O mais importante disso tudo, porém, é que o carro é resistente. Aguenta o tranco e marca os pontos mesmo quando, como na Arábia Saudita, é a rival quem tem alguma vantagem.
O problema maior não é o fato das contagens a favor da Ferrari: as duas poles contra uma ou as duas vitórias contra uma. Isso seria um detalhe menor, que separaria as equipes e seus principais pilotos por poucos pontos com 20 etapas pela frente. Seria um detalhe numa amostragem tão pequena. Mas a Red Bull tem problemas mecânicos e no motor que afetam a ela e a irmã menor, AlphaTauri. Até agora, em todas as corridas um dos quatro carros abandonou. Na equipe italiana, problemas no motor que as duas compartilham; na Red Bull, há uma tentativa hercúlea de demonstrar que o motor não é o que deixa na mão. Pouco importa. Se não é o motor, fica sendo somente uma preocupação a mais que se soma.
O abandono do Bahrein foi, de acordo com a equipe, um problema com o fluxo de combustível nos dois carros. Embora também relacionado ao combustível, a Red Bull garante que a falha da Austrália é de outra ordem. Mas que seja. Os problemas de motor que Yuki Tsunoda sofreu na Arábia Saudita são, segundo o consultor Helmut Marko antes da corrida em Melbourne, algo que a Red Bull temia acontecer com Max. Além dos abandonos, Verstappen já teve de lidar com uma barra de direção enrijecida, superaquecimento de pneus e a equipe mexendo no câmbio instantes antes da largada na Austrália. São tantos problemas que sempre parece questão de tempo até que o carro simplesmente pare, como parou, novamente, no Albert Park.

“Ainda não sabemos qual é o problema. Parece um problema no sistema de combustível externo ao tanque que causou o abandono. Precisamos entender exatamente o que causou essa falha, foi uma corrida muito frustrante a esse respeito. Não terminar essa corrida foi um resultado muito, muito decepcionante”, lamentou o chefe Christian Horner à rede de TV inglesa Sky Sports.
“Não acho que isso teve relação [com o primeiro abandono], mas é tudo prematuro até que tenhamos o carro de volta. Está em quarentena, as partes vão obviamente retornar ao Japão [fábrica da Honda] e vamos tentar entender o problema o mais rápido possível”, prometeu.
A questão é que a Ferrari não deixa pontos pelo caminho salvo por erros individuais, como os de Carlos Sainz na Austrália. Em três corridas, construiu um império sobre a Red Bull no Mundial de Construtores: 49 tentos de diferença, 104 x 55. A Mercedes tem dez pontos a mais que os energéticos, mas, por enquanto, em nada assusta a Ferrari. O carro não é bom por lá.
Entre os Pilotos, Charles Leclerc tem os 71 de duas vitórias, um segundo lugar e três voltas mais rápidas em três corridas. Verstappen tem somente os 25 da vitória na Arábia, está até atrás dos 30 de Sergio Pérez. São 46 pontos entre Charles e Max, uma diferença inacreditável de ser construída em três corridas.
“É desesperador e frustrante, como Max [Verstappen] disse”, reconheceu Horner. “É completamente compreensível sua frustração. É frustrante não estar acumulando esses pontos. Mas só tivemos algo em torno de 10% do campeonato, então ainda temos um longo caminho pela frente”, comentou.
“Nessas duas corridas, Max deixou de ganhar 36 pontos. A equipe, 50 pontos. Quando você olha assim, os dois campeonatos poderiam estar bem diferentes. É um longo campeonato e temos a base de um carro rápido e competitivo, mas precisamos resolver esses problemas rapidamente. Não podemos aceitar abandonos, precisamos entender o que é esse problema e vamos resolvê-lo”, ressaltou.
“Não tínhamos o ritmo das Ferrari, então parabéns ao Charles [Leclerc]”, afirmou. “Eles estavam em um ritmo só deles. Acho que nosso equilíbrio estava ruim. Parece que estamos pegando pesado com os pneus. Você consegue vê-los se desgastando rapidamente na corrida, e isso normalmente quer dizer que você não encontrou o equilíbrio do carro”, analisou.
Ainda é cedo demais no campeonato, mas algo está evidente e Horner transparece nestas declarações: a Red Bull precisa de uma resolução urgente, porque já não pode mais estar do lado errado de um golpe do destino. Com um combo de pancadas na temporada que nem bem tinha acordado, a Ferrari colocou a rival contra a parede. É muito improvável que o time de problema endêmico de confiabilidade apresentado pela Red Bull se resolva de uma hora para outra, mas é exatamente disso que a equipe precisa para chegar às férias de verão viva. Neste momento, pois, sequer isso, chegar com a briga caminhando em duas pernas, parece improvável.
“Existem duas ou três questões diferentes para nós. A primeira é sobre os problemas de confiabilidade. Não tivemos muitos problemas assim no ano passado”, falou Marko. “A distância para a Ferrari também foi alarmante em Melbourne. Eles controlaram o ritmo e sem degradar muito os pneus. Se Max tivesse atacado, Leclerc poderia ter reagido facilmente. Ficamos surpresos com a velocidade da Ferrari. Eles conseguem achar um melhor balanço do carro mais facilmente e é isso que precisamos achar também”, avaliou.
“Estamos claramente com um carro mais pesado que o da Ferrari, 9 ou 10 kg. Se convertermos isso para tempos de volta, dá uns 0s3. Mas reduzir o peso é caro. É, primeiramente, uma questão financeira – porque temos o teto orçamentário -, e depois, também está relacionada com a confiabilidade, então fica difícil realocar. Estamos passando por tempos difíceis”, apontou.

“De fato, teremos uma evolução em Ímola. Se funcionar tão bem quanto as primeiras e se conseguirmos reduzir o peso, podemos montar um carro para disputar com a Ferrari. Mas eles também vão progredir, mal tocaram no carro deles desde os testes de pré-temporada. Mas, mais importante, temos que resolver nossos problemas de confiabilidade. Você pode ter um carro rápido, mas se ele não aguenta até o final, é inútil”, finalizou.
As equipes não podem simplesmente fazer o carro evoluir da maneira que historicamente podiam. Com teto orçamentário, não é mais assim que a banda toca. As atualizações estão à espera dos ajustes que farão o carro se tornar mais leve, para que nele se encaixem – em outros tempos, chegariam atualizações para o carro de agora e outras, diferentes, para o carro modificado para a questão do peso. O dinheiro amarra as mãos das equipes neste sentido.
Há quem acredite que a Ferrari ainda está utilizando o motor de modo conservador e que, quando aterrissar na Europa, a partir de Barcelona, sobretudo, a potência fará deste carro ainda mais indigesto de encarar. Aí, quando isso chegar, será uma nova discussão. A Red Bull não pode se preocupar tanto com o desempenho no momento, porque o desempenho não é ruim. O desempenho pode ser trabalhado ao longo do ano caso a equipe marques os pontos que a ela forem devidos. É nos problemas de confiabilidade, de quem tira o direito destes pontos, que deve se concentrar. Com urgência.