Madring finalmente realizou a estreia na Fórmula 1 e nas principais categorias de base, mas o primeiro dia de ação em pista mostrou um erro claro por parte, principalmente, da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Justamente quem regula o esporte e estabelece alguns parâmetros de segurança foi quem mais falhou ao permitir que jovens pilotos ainda em formação disputassem em uma pista que claramente traz um risco a mais.

Um circuito de rua, com muro muito próximo à pista, pouquíssimas áreas de escape e muitos trechos de alta velocidade — com curvas cegas ainda por cima — é a receita para o caos mesmo nas categorias que contam com pilotos mais experientes. É bem verdade que a Fórmula 1 teria passado ilesa pelos incidentes não fosse a batida de Arvid Lindblad no TL2, mas, ainda assim, todos estavam em alerta com o perigo iminente.

Tasanapol Inthraphuvasak destruyó su ART al chocar en la curva 19 del circuito de Madrid (Vídeo: Reproducción / F2)

Durante o dia de mídia na quinta-feira (10), em Madri, George Russell abriu o jogo sobre o quão arriscada acreditava ser a pista. E, após o primeiro contato com o simulador, disse que as 19 bandeiras vermelhas durante os dois dias de testes da F3 foram surpreendentes não por serem consideradas excessivas, mas porque, dada a dificuldade do local, acreditava que poderia haver ainda mais interrupções.

“Depois de andar no simulador, fiquei surpreso que tenham sido só 19 bandeiras vermelhas. É um circuito insano. Diria que é, provavelmente, a pista mais arriscada de todo o calendário. Porque há curvas realmente de alta velocidade, meio no estilo de Jedá. Os muros ficam muito próximos, então não há margem para erro”, explicou o titular da Mercedes.

Assim, o caos foi inevitável durante as atividades das categorias de base. Por incrível que pareça, o dia da F3 ainda foi relativamente tranquilo e, no treino livre, apenas Nicola Lacorte bateu no muro, no minuto final, enquanto Pedro Clerot bateu durante a segunda classificação, quando estava na briga pela pole. Mas, na F2, a história foi diferente.

Bastaram 15 minutos para Thasanaphol Inthraphuvasak perder o controle do carro, bater no muro e ter de abandonar o carro em chamas durante o treino livre. Demorou 25 minutos até que a pista fosse liberada para o retorno da sessão. Na classificação, a situação foi ainda pior.

Kush Maini causou a primeira bandeira vermelha na classificação da F2 (Foto: Reprodução / F2)

Na primeira vez em que todos estavam no limite, Kush Maini, Sebastián Montoya, Nico Varrone e Colton Herta perderam o controle do carro em algum momento da sessão e estamparam o muro. Montoya, que danificou a suspensão traseira direita, conseguiu retornar aos boxes. Os incidentes de Maini e Varrone resultaram em duas bandeiras vermelhas. A batida de Herta, por sua vez, só não paralisou a sessão porque o cronômetro já estava zerado.

A escolha de Madring como palco das etapas da F2 e F3 é um erro da FIA por diversos motivos. Tudo bem que os pilotos em formação precisam enfrentar desafios até para que estejam preparados caso algum dia alcancem a F1 ou qualquer outra categoria de elite do automobilismo. Mas será que colocá-los em Madri logo no primeiro ano da pista era mesmo necessário? Qual seria o problema de, por exemplo, esperar uma primeira avaliação dos mais experientes na F1 para, posteriormente, cogitar a realização de um evento com as categorias de suporte?

É fato que a F3 apresentou uma melhora em relação aos testes de agosto e parte das batidas da F2 se deu pelo completo desconhecimento da pista. Mas, até então, só vimos os pilotos em voltas lançadas, nas quais há sempre a preocupação de dar espaço aos carros que estão por perto para não prejudicar a tentativa de volta rápida.

Porém, o cenário em corrida é totalmente diferente. A pista já apresenta poucos pontos de ultrapassagem e, historicamente, quem está na F2 e na F3 costuma calcular menos os riscos e as consequências de uma manobra mais ousada, o que quase sempre rende uma prova com intervenções do safety car ou bandeiras vermelhas. Diante do que já foi apresentado nas poucas horas de atividade em Madri, é quase impossível imaginar que alguma das disputas ocorra sem uma intercorrência.

A F3 também corre em Madri neste fim de semana (Foto: F3)

Além de colocar em risco a integridade dos pilotos, o âmbito esportivo também fica prejudicado. Safety car e bandeiras amarelas ou vermelhas podem, sim, trazer um tempero especial para o andamento de uma corrida, mas perdem a graça quando se tornam excessivos. O cenário fica ainda pior quando há uma decisão de título na F3.

Portanto, mais uma vez, o aspecto financeiro foi priorizado em detrimento do esportivo. Madri tem um longo contrato de dez anos com a F1 e, antes de a etapa ser confirmada no calendário, o portal neerlandês RacingNews365 apontou que a taxa anual era de aproximadamente US$ 25 milhões (R$ 128,5 milhões na cotação do dia), enquanto o canal espanhol TV3 noticiou que o valor poderia chegar a US$ 52,1 milhões (R$ 267,2 milhões).

A situação com a F2 e a F3 preocupa, e a escolha por Madri foi um tanto precipitada. Agora, é esperar para saber se o fim de semana correrá sem maiores problemas.