Com aposentadoria da Fórmula E marcada para o fim da temporada, Lucas Di Grassi certamente não imaginava o que aconteceria na madrugada brasileira do último domingo (5), durante o eP de Xangai. Uma vitória épica, absolutamente inimaginável para o pior carro disparado entre as dez equipes que competem no grid, mas principalmente recheada de simbolismo. No ano de despedida, o campeão de 2016/17 deixou a marca na China, país de sua primeira vitória, justamente na corrida inaugural na história da categoria elétrica, o eP de Pequim de 2014. Roteiro de cinema, evidenciado pelas lágrimas do brasileiro no dia mais inacreditável da carreira.
É até difícil mensurar o tamanho da vitória de Lucas entre as 14 que já conquistou na carreira. Afinal, a maioria veio em batalhas por título, em momentos de grande protagonismo junto à Audi-ABT, enquanto outras chegaram em circunstâncias menos pomposas. Nada, porém, consegue se comparar ao feito de levar o pior carro do grid da penúltima colocação à vitória.
A categoria é, sim, conhecida por equilibrar as forças e permitir competividade à grande maioria, mas o déficit da Lola Yamaha é de se considerar. Projeto mais jovem entre todos do grid, o carro da equipe deve muito em termos de eficiência, com um trem de força que gasta muita energia e regenera pouco. Assim, competir com montadoras como Porsche e Jaguar, que ainda fornecem seus equipamentos a Andretti, Cupra Kiro e Envision, só para citar alguns exemplos, é uma tarefa árdua.
E foi exatamente por este motivo que Di Grassi chegou por lá. Dos mais experientes da história, presente — e vencedor — desde a primeira corrida de todos os tempos, o brasileiro é visto como o grande norte do projeto dentro das pistas, capaz de fortalecer a estrutura com insights de quem conhece o esporte como poucos. Há algumas semanas, porém, já se sabe que Lucas vai deixar as pistas da categoria de forma permanente, com um anúncio feito pelo próprio piloto.
Dali até o fim, o objetivo era obviamente somar o máximo possível de pontos e se despedir em alta, algo que Lucas vem fazendo desde Mônaco. Após um início truncado e sem pontos, o piloto foi ao top-10 em quatro das últimas cinco corridas, o que já significaria muito na temporada da Lola Yamaha como um todo. Nada, absolutamente nada, que preparasse o paddock da Fórmula E para o que aconteceria em Xangai.

Ciente do déficit em relação às outras equipes, a Lola Yamaha costuma arriscar. E o clima chuvoso do eP de Xangai gerou uma possibilidade para a equipe: apostar em acertos completamente diferentes para Zane Maloney e Di Grassi, de modo que o barbadiano fosse à pista com um carro voltado à chuva e o brasileiro fizesse o oposto, torcendo pelo fim da água e o retorno à pista seca.
Além disso, independentemente do clima, havia um plano claro entre os dois: como a corrida começaria em um traçado bem molhado, Maloney usaria o acerto a favor para ganhar posições e se estabelecer no top-10, enquanto Lucas pouparia energia ao máximo na esperança, novamente, que a chuva parasse.
Por muito tempo, não houve pinta de que isso aconteceria. A chuva até parou, mas o traçado seguiu molhado por muitas voltas e gerou uma corrida de menos preocupação energética, já que a pista úmida força o lift and coast e frenagens prematuras — o que recarrega a bateria. A questão é que, com o passar do tempo, o asfalto foi rapidamente secando e mudando completamente o cenário da disputa.
Pilotos que ocupavam as primeiras posições passaram a sofrer com o ritmo, casos de Maloney e Felipe Drugovich, por exemplo, que viu o carro gastar energia demais com as mudanças de condição. Enquanto isso, aqueles que apostaram em pista seca foram ganhando terreno, como Sébastien Buemi, Jean-Éric Vergne e principalmente Joel Eriksson, capaz de tomar de assalto a liderança e o favoritismo da corrida.

De fato, é preciso dizer: o sueco provavelmente venceria a disputa sem a full course yellow das voltas finais, mas o ‘se’ não existe no automobilismo e o fato é que Maloney quebrou na reta principal, em uma primeira pincelada do roteiro absurdo que se apresentava a Di Grassi. Ganhando posições loucamente com um acerto extremo para pista seca, o brasileiro viu a interrupção aparecer no momento certo, após a primeira ativação do Modo Ataque, e não perdeu nada da potência extra.
A partir daí, o cenário era simples: Eriksson, que viu o Modo Ataque ir embora com a FCY, seguia na liderança, mas teria pressão de Vergne nas três voltas finais. E Di Grassi, que já fazia um milagre em terceiro, simplesmente era o único dos três com um Modo Ataque para ativar. Dito e feito: Lucas acionou a potência extra logo na relargada e executou as duas voltas finais com precisão cirúrgica para limpar a dupla da frente rumo a uma vitória inacreditável. Definitivamente, uma das — se não a mais — incríveis da carreira.
Pouco precisa ser dito sobre o feito além das lágrimas do veterano. A despedida, afinal de contas, será muito mais doce que se esperava; líder de um projeto nascente, Di Grassi despede-se com o primeiro pódio da história da Lola Yamaha, em Miami-2025, e inacreditavelmente a primeira vitória, saindo de 19º para primeiro. É difícil contestar a versão de que o automobilismo, como em um gesto benevolente, tenha dado um adeus mais do que digno a um dos maiores de todos os tempos na Fórmula E. Em dia que Drugovich chegou à primeira pole e acendeu de vez a chama de que o futuro do Brasil pode ser belo, Di Grassi ofuscou a todos com o brilho final que só os campeões têm.
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