A vitória de Lewis Hamilton no GP de Barcelona-Catalunha deixou a falsa impressão de que a fase da comunicação ruidosa entre o piloto e a Ferrari havia ficado para trás. De lá para cá, outros episódios de discussões via rádio e também cobranças públicas expuseram discordâncias não apenas com as decisões estratégicas, como também com a forma como os italianos lidam com a gestão num todo.

Isso não significa, claro, que a parceria entre Hamilton e Ferrari não deu certo, até porque, é muito cedo para qualquer conclusão. Porém mostra que ainda falta um ajuste fino para que os dois lados consigam maximizar o resultado de um fim de semana.

O 10+ desta semana relembra alguns episódios em que Ferrari e Hamilton demonstraram (muita) dificuldade para se entenderem. Confira:

Austrália, 2025: instruções repetidas e falta de sintonia

Já na primeira corrida da vida vestindo o macacão vermelho, Hamilton teve o primeiro de muitos embates com o antigo engenheiro de corrida, Riccardo Adami. Sob chuva, e ainda se entendendo com o carro novo, o heptacampeão reclamou de orientações repetidas e demonstrou desconhecimento sobre os comandos do volante. Depois, aos jornalistas, expôs uma falha por parte da equipe ao dizer que “ficou faltando a orientação sobre quanta chuva mais estava chegando” — o que, segundo ele, custou um resultado melhor que o décimo lugar.

Miami, 2025: a “pausa para o chá”

Em Miami, Hamilton experimentou a primeira negociação de ultrapassagem sobre Charles Leclerc sob o argumento de ter ritmo melhor que o monegasco. Mas a demora da Ferrari para tomar a decisão fez Lewis perder tempo e soltar a pérola “aproveitem para tomar um chá enquanto isso”. Depois, mesmo colocando panos quentes, afirmou que “poderia ter dito coisas piores”.

Hamilton ainda enfrenta dificuldades com carro da Ferrari (Foto: Scuderia Ferrari)

Miami, 2025: Sainz no meio do caminho

Ainda em Miami, após finalmente passar Leclerc, Hamilton não conseguiu abrir a vantagem esperada. A Ferrari, então, pediu aos pilotos para que desfizessem a troca — procedimento comum em ordens do tipo. Após Lewis retornar ao oitavo lugar, Adami entrou em contato pelo rádio para avisar que Carlos Sainz, da Williams, estava apenas 1s4 atrás — e se aproximando. Como resposta, o veterano ironizou: “Você também quer que eu o deixe passar?”

A partir dali, foi ficando cada vez mais clara a dificuldade de comunicação.

Mônaco, 2025: a confusão com Verstappen que rendeu punição

Esse foi um dos inúmeros episódios de Hamilton atrapalhando algum piloto no fim de semana. Na classificação, uma falha na comunicação impediu a Ferrari de avisar ao #44 que Max Verstappen estava em volta rápida. Como resultado, teve de pagar três posições no grid. “Não sei se houve algum problema com o computador. Dizia que Max estava em volta rápida, mas depois isso desapareceu e dizia que não estava. Essa foi a informação que me deram. Disseram que ele estava em volta rápida, então saí do caminho. Eu estava completamente fora da trajetória”, justificou.

“E então, acho que perceberam que ele não estava em volta rápida, então me avisaram. Aí comecei a acelerar. Fiquei totalmente à esquerda e não estava na linha de corrida, mas claro que acabou distraindo Max”, completou.

Lewis Hamilton e Adami não se entenderam em Mônaco (Foto: AFP)

Mônaco, 2025: o bate-cabeça sem fim

Mas o ruído com a Ferrari não parou por aí. Na corrida, novamente Hamilton e Adami não se entenderam na troca de informações. Engavetado atrás de Fernando Alonso e Isack Hadjar, Lewis perdeu mais de 30s em relação a Leclerc depois de passar os dois carros mais lentos que estavam à frente. Foi quando perguntou: “Eles ainda estão quase um minuto à frente?”, só que a resposta do engenheiro foi “Charles está com pneus médios e as McLaren com duros, na curva 16, muito próximos, disputando entre si”. Hamilton, então, retrucou: “Você não respondeu à pergunta. Mas acho que não importa muito. Eu estava perguntando se estou um minuto atrás.”

Mônaco, 2025: “Tá chateado comigo?”

O desfecho do conturbado GP de Mônaco de 2025 trouxe um Hamilton completamente confuso, sem entender as instruções de Adami e cruzando a linha de chegada somente em quinto, enquanto Leclerc foi ao pódio. Foi quando Lewis começou a relatar a corrida: “Perdi muito tempo no tráfego. O resto, precisamos investigar. E recolha um pouco de borracha [da pista], por favor”, disse, mas sem resposta.

Ele, então, continuou: “É, um muito obrigado ao pessoal por consertar o carro [após a batida no treino de sábado]. Não foi um fim de semana fácil, mas seguimos na briga”. E diante de novo silêncio por parte de Adami, indagou: “Você está chateado comigo ou algo assim?”, disse Lewis sem obter a resposta.

Áustria, 2026: a ressaca da vitória

Lewis bem que tentou repetir o feito de Barcelona na Áustria, mas a estratégia de três paradas não se pagou porque a Ferrari não encontrou ritmo com nenhum tipo de pneu. Embora não tenha havido embates com o novo engenheiro de corrida, Carlo Santi, cobrou atualizações no motor e ainda disse que a etapa no Red Bull Ring era “um choque de realidade”. 

Lewis Hamilton e Max Verstappen na Áustria (Foto: Reproducción / F1)

Países Baixos, 2026: a paz chegando ao fim

O atrito voltou com força em Zandvoort, e de novo envolvendo troca de posição com Leclerc. Com ritmo mais forte e na briga pelo pódio, o heptacampeão pediu à equipe que o colega abrisse caminho, mas ele não cedeu a posição, fazendo com que Lewis perdesse tempo em relação a George Russell, que ficou com a terceira posição. “Ótimo jeito de me fazer perder tempo, pessoal. Bom trabalho”, disparou no rádio. Depois, ainda perguntou se estava sendo “usado como isca”. Após bandeirada, quando Santi disse que houve “azar” com Russell, Hamilton não titubeou: “Nós não demos azar. Perdemos tempo mais cedo, e isso nos custou o terceiro lugar. Podemos discutir isso fora do rádio”.

Itália, 2026: a tempestade após a bonança

2026 trouxe a primeira vitória de Hamilton com a Ferrari graças a um acerto estratégico e tanto em Barcelona, ao apostar em três paradas e dar um nó na Mercedes. Houve um safety-car virtual decisivo no fim, é claro, mas chamou atenção o entendimento maior entre Hamilton e Santi, que foi o escolhido para subir ao pódio com o heptacampeão.

Pois bem, era o início de um sonho, só que começou a desandar nas etapas seguintes, com estratégias que não se pagavam e cobranças públicas por atualizações. Veio, então, GP da Itália, a corrida mais importante da Ferrari no ano, que acabou para Hamilton ainda na segunda curva após a largada após toque com Leclerc. O monegasco resolveu dividir a culpa, porém Lewis se negou ao dizer que “não havia ‘nós'” no lance. Mais um climão na conta…

Lewis Hamilton e Charles Leclerc: o toque que causou um abalo sísmico na Ferrari (Foto: AFP)

Singapura, 2026: a negativa à chamada de boxes

Na corrida disputada no último domingo, durante o safety-car virtual, a Ferrari chamou Hamilton aos boxes, mas ele perdeu a entrada e decidiu permanecer na pista. A estratégia terminou mal: o desgaste dos pneus macios o fez cair de terceiro para sexto. A onboard de Hamilton, porém, mostra que a mensagem da Ferrari realmente não chegou ao piloto, dando a impressão de uma possível falha de rádio.

Mas Hamilton bateu no peito e assumiu a culpa pela corrida desastrosa por ter escolhido fazer o primeiro stint e médios, ao contrário de Verstappen e Leclerc, que largaram de macios. Uma proteção à Ferrari, mas que deixa claro que a comunicação ainda é um problema nas garagens do #44.