Após mais uma atuação sólida, Felipe Fraga conquistou, com méritos, o bicampeonato da Stock Car durante a 12ª etapa, realizada em Interlagos no último fim de semana. É uma pena, no entanto, que a temporada 2025 não fique marcada pela ótima campanha do paraense, que teve o igualmente competitivo Gaetano Di Mauro como companheiro de equipe e rival na briga pelo título. Isso porque a principal categoria do esporte a motor do Brasil deixou o protagonismo ser tomado pelos inúmeros problemas de confiabilidade, segurança e até pelas mudanças em praças do calendário ao longo do ano.

Antes de entrar nos problemas da Stock Car, é importante dar o devido crédito a Fraga pelo que foi feito em 2025. Depois de começar a temporada com o pé direito e liderar a dobradinha da Eurofarma RC na abertura em Interlagos, Felipe sempre figurou na parte de cima da classificação do Campeonato de Pilotos. O maior tropeço do #88 aconteceu na terceira rodada, no Velocitta, quando abandonou a corrida sprint e terminou apenas em 17º na prova principal, somando somente 19 pontos no fim de semana.

A sequência do campeonato, porém, foi primorosa. Sempre marcando bons pontos, o destaque da campanha veio em Brasília, quando acertou na estratégia durante a corrida sprint ao parar instantes antes da entrada do safety-car na reta final da prova e cruzar a linha de chegada em décimo. Posteriormente, herdou a vitória depois de os nove pilotos que estavam à frente serem desclassificados por não realizarem a troca obrigatória de pneus sob bandeira verde. Na corrida principal, voltou a ser competitivo e terminou em segundo. A combinação de resultados o deixou com a mão na taça.

Assim, Fraga chegou à final em Interlagos precisando apenas de um 12º lugar na sprint para assegurar o bicampeonato. Porém, fez muito mais do que isso, e ainda que tenha contado com uma decisão da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) que gerou revolta ao jogar Gaetano Di Mauro para o fundo do grid após a bandeira vermelha, o #88 fez mais do que o necessário e venceu a prova. Não satisfeito, voltou a andar bem na corrida principal e cruzou a linha de chegada em sétimo. A decisão dos comissários no sábado até pode ter mudado o rumo da sprint, mas não foi isso que fez Fraga conquistar o bicampeonato.

Felipe Fraga e Gaetano di Mauro brigaram pelo título da Stock Car 2025 (Foto: Ricardo Saibro)

Feitas as considerações sobre Fraga, é preciso falar do assunto que pautou a categoria. A temporada 2025 trazia um ano repleto de expectativas para a Stock Car, que abandonou os sedãs equipados com motores V8 para adotar SUVs impulsionados por motores turbo de quatro cilindros. No papel, a ideia de fato era boa, já que uma renovação era necessária. A realidade, porém, foi totalmente oposta ao que planejava a Vicar, promotora da categoria.

Antes mesmo do início da temporada, as equipes enfrentaram problemas no recebimento das peças, e a sensação entre parte do grid era de que a abertura em Interlagos seria realizada de forma “desafiadora”. Além disso, alguns testes conduzidos pela própria Vicar foram alarmantes, com inúmeros carros apresentando falhas. A Stock Car se viu obrigada a mudar o formato do fim de semana, que contou com cinco treinos livres, apenas uma corrida com pontuação reduzida e diversos abandonos causados por quebras.

Parte dos pilotos reclamou abertamente dos problemas de confiabilidade que ainda persistiam nas etapas seguintes. Felipe Massa e Bruno Baptista, os mais vocais, acabaram multados em R$ 100 mil pelas manifestações. Após uma passagem marcada por inúmeros contratempos no Velopark, a Stock Car foi obrigada a adiar a etapa do Velocitta na tentativa de melhorar a confiabilidade dos carros.

É preciso reconhecer que, após o adiamento da etapa do Velocitta, a situação da Stock Car apresentou leve melhora. No entanto, as quebras e perdas de potência durante as corridas persistiram e continuaram a desagradar pilotos e patrocinadores. Como tentativa de solução, Lincoln Oliveira, CEO da Vicar, confirmou o retorno dos motores V8.

A temporada 2025 da Stock Car será lembrada pelos motivos errados (Foto: Magnus Torquato)

A mudança, embora pareça um retrocesso — visto que houve investimento em um equipamento que teve apenas um ano de uso —, foi vista com bons olhos tanto pelos fãs, que apreciam o som do V8, quanto pelos pilotos. Resta saber se os problemas serão, de fato, resolvidos. Ainda assim, é importante destacar que a promotora está tentando soluções para amenizar o desastre.

Mas os problemas da Stock Car não se resumiram aos carros. Belo Horizonte, que já havia trazido dores de cabeça à categoria em 2024, voltou a apresentar entraves em 2025. Desta vez, não por questões envolvendo a UFMG ou o descontentamento dos moradores da região da Pampulha, mas porque, de acordo com a Vicar, não havia tempo hábil para montar toda a estrutura necessária para a realização da prova em 17 de agosto.

O BH Stock Festival, responsável pela etapa na capital mineira, apresentou outra versão e afirmou que o cancelamento da corrida estava relacionado ao Ministério Público Federal, que teria “pedido a suspensão das vendas de ingressos no processo judicial movido”. Com isso, Curvelo retornou ao calendário da Stock Car.

Ao longo do campeonato, a Stock Car conseguiu solucionar, em parte, os problemas de confiabilidade, e a categoria ficou distante das polêmicas por algum tempo. No entanto, o pesadelo voltou a partir da décima etapa, realizada em Cuiabá. De acordo com documentos aos quais o GRANDE PRÊMIO teve acesso, o relato do diretor de prova, Renan Casetta, indicava que “o autódromo ainda não tinha todas as condições para a realização da prova”, citando “muitas entradas para a pista desprotegidas” e “falta de segurança no perímetro do circuito, com facilidade para invasões”.

Cuiabá foi a primeira corrida noturna da temporada 2025 (Foto: Duda Bairros | Scuderia Bandeiras)

Casetta seguiu o relato fazendo críticas à Vicar, afirmando que a promotora “não disponibilizou veículos básicos de aluguel para toda a equipe desportiva”, que as vans “saíam em horários que esse time nem sempre poderia utilizar” e que, na quarta-feira, os comissários aguardaram “mais de 65 minutos por uma van para retornar ao hotel após mais de 14 horas de trabalho”. Além disso, no checklist de itens diversos, o diretor de prova assinalou como “NOK” (não está OK) problemas em telas de proteção, postos de sinalização, no PSDP (Posto de Sinalização da Direção de Prova) e na segurança em geral.

Como se não fosse possível piorar, a etapa seguinte, em Brasília, mostrou que o problema dos carros não se limitava à confiabilidade, mas também à segurança. Nos instantes finais do primeiro grupo do TL1 da etapa na capital federal, JP de Oliveira acertou em “T” o carro de Bruno Baptista. Esse tipo de impacto, quando um carro em velocidade atinge frontalmente a lateral de outro veículo, é considerado o mais perigoso em colisões automobilísticas. Por causa do acidente, as atividades de pista ficaram interrompidas por quase quatro horas. Com o impacto, o chassi do carro de Baptista rachou e diversas peças foram quebradas.

Ao tomarem conhecimento da situação, os pilotos chegaram a cogitar não correr no fim de semana e organizaram uma reunião com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), que posteriormente se reuniu com as equipes. As atividades seguiram normalmente no Distrito Federal, mas não sem receio por parte de alguns pilotos do grid.

Em entrevista ao sportv, Lincoln Oliveira garantiu que os carros eram seguros e afirmou que a reação dos pilotos, ao cogitarem não correr, foi fruto de uma “emoção do momento”. No entanto, o GRANDE PRÊMIO teve acesso a dezenas de documentos que indicam que os carros da Stock Car apresentaram problemas de segurança em 10 das 11 primeiras etapas da temporada 2025.

Com exceção da oitava rodada, disputada entre 3 e 5 de outubro no Velocitta, os relatórios do comissário técnico responsável apontaram que, após vistoria, “todos os carros não estavam aptos a iniciar as atividades de pista, pois apresentavam irregularidades que colocavam em risco a segurança dos pilotos”.

Em meio a tantos problemas, as corridas e disputas em pista acabaram ficando em segundo plano na temporada 2025 da Stock Car. O retorno do V8 é uma tentativa válida de trazer de volta a confiabilidade ao campeonato. Porém, a categoria não pode simplesmente ignorar as questões de segurança e colocar em jogo a vida dos pilotos. Portanto, a expectativa é que 2026 seja um ano de redenção e que seja lembrado pelos motivos certos.

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