Quando é tempo de silly season e discussão das possibilidades de uma equipe no mercado de pilotos da Fórmula 1 para o ano seguinte, a história é sempre a mesma: a opinião pública se refestela na discussão acerca de quais novidades podem oferecer a mais, quem é ou pode ser melhor, quais histórias são mais apetitosas e ofertas deste naipe. Mas há muito mais numa definição de pilotos do que apenas o teste dos olhos e a vontade irrefreável do fato novo. A permanência de Franco Colapinto na Alpine em 2027 se enquadra nessa situação.

BATALHA SEGUE ABERTA NA F1 | TT GP #233

A disputa por uma vaga na Alpine acabou no momento em que Colapinto começou a pontuar e desafiar Pierre Gasly na temporada, ainda que esporadicamente. A única maneira de escapar da renovação evidente era assinar com um piloto de outra prateleira. Por mais que tanta gente tenha torcido o nariz para as notícias ventiladas sobre o interesse em Fernando Alonso, era algo que fazia todo sentido: seria necessário alguém deste quilate para abrir mão do primeiro argentino a guiar na F1 em mais de duas décadas.

Há quem aponte a falta de amarras que Flavio Briatore, o CEO de fato, sempre teve para trocar pilotos na F1. A entrada de Colapinto foi assim, após Jack Doohan ganhar apenas algumas corridas para mostrar que merecia o espaço. A mais famosa delas é a demissão sumária de Roberto Moreno para a chegada de Michael Schumacher, na Benetton, em 1991. Schumacher ainda era um jovem piloto que estava apenas começando, mas já era visto como uma joia. A Mercedes o tratava com carinho ímpar desde novo, mas, para a sorte da Benetton, os alemães estavam fora da F1.

Não há um Schumacher à disposição agora e, se tivesse, não estaria caçando vaga na Alpine, com toda disfunção e dificuldade para seguir uma linha de raciocínio nos últimos anos. Também não existe um piloto de renome que a equipe possa assinar de surpresa. Quem, em sã consciência, sairia de uma equipe mais forte para assinar pela Alpine em 2027? Dois anos atrás, perderam a queda de braço com a Williams por Carlos Sainz. É essa a situação.

As alternativas ventiladas nos últimos tempos mostram a escassez de opções. A mais realista delas era Gabriele Minì, pupilo da companhia e que faz boa temporada na F2. Talvez seja até campeão. Mas Minì não é visto como Kimi Antonelli há alguns anos, alguém que vai tomar de assalto a F1. Nem mesmo Oscar Piastri, campeão da F3 e F2 em anos consecutivos. É um jovem promissor, mas não no primeiro escalão de promessas. É discutível até se está no segundo escalão.

Franco Colapinto e Flavio Briatore (Foto: Alpine)

Até um retorno de Tsunoda, quem sabe trazendo importantes parcerias do Japão, além de experiência no grid. Mick Schumacher, dá para viajar, após passar pela Alpine no WEC em 2025 e migrar para a Indy, onde as coisas não funcionaram. O que todos esses nomes têm em comum é que Briatore, com a imagem de personagem impávido que tenta manter, teria enormes dificuldades para justificar ao grupo mais importante de figuras que o mundo corporativo tem em suas engrenagens: os stakeholders.

Mas por quê? Ora, porque Franco Colapinto foi uma contratação de jogador de futebol efetuada pela Alpine em 2025 e com garantias e convencimento do próprio Briatore. Foi ele quem encheu o jovem de elogios publicamente durante a passagem pela Williams em 2024 e passou os meses seguintes tentando costurar um acordo para contar com Franco.

Naquele 2024 dos primeiros momentos na F1, algo que chegou meio de supetão após a demissão de Logan Sargeant e com data de validade estipulada, uma vez que Sainz estava contratado para o ano seguinte, Colapinto intrigou gente paddock afora. A Red Bull mostrou interesse. O piloto não ficaria como titular da Williams no ano seguinte, é verdade, mas ainda tinha um longo contrato pela frente para representar a marca, provavelmente com a vaga de reserva e várias participações em testes e treinos livres em 2025. A equipe inglesa, então, deu o preço, estimado em US$ 20 milhões (R$ 115 milhões, na cotação de novembro daquele ano) se a rival da marca de bebidas energéticas quisesse contar com Franco para a Racing Bulls em 2025. Ficou caro.

Briatore também disse claramente que gostava do que via, mas assinara cedo demais com Doohan para ser companheiro de Gasly em 2025. Ao menos em teoria, tinha tempo para negociar pensando somente em 2026 e no período de novas regras que se avizinhava.

Franco Colapinto terá o terceiro ano de Alpine, segundo completo (Foto: Reprodução/Alpine)

Foi uma surpresa quando, apenas dois meses depois, em janeiro de 2025, a Alpine anunciou Colapinto como piloto reserva e de desenvolvimento. Estava claro, imediatamente, o destino selado de Doohan e que o relógio corria para o argentino assumir a titularidade.

Alpine e Williams nunca trataram oficialmente dos valores para a liberação, mas sejamos razoáveis: se custava algo em torno de US$ 20 milhões em novembro, por que custaria muito menos em janeiro? De acordo com o portal alemão PlanetF1, a Alpine pagou € 20, cerca de US$ 500 mil a mais do que se falou para a Red Bull. Mesmo que não tenha sido exatamente isso, é universalmente aceito que foi por aí. Mais de R$ 120 milhões, um valor definitivamente do mercado de jogadores de futebol, e por um contrato de cinco anos, segundo informou a agência argentina de notícias Infobae à época da assinatura — acordo para representar a equipe, não necessariamente ser titular na F1.

E é verdade que Colapinto carregou consigo robustos patrocínios, sobretudo com o Mercado Livre, gigante do e-commerce com atuação na América Latina e origem argentina; a Globant, companhia de TI e desenvolvimento de softwares; e, por fim, o apoio da estatal YPF, maior perfuradora e refinadora de petróleo da Argentina.

É comum que o público da F1 ponha o dedo em riste para desdenhar de uma decisão sobre pilotos da qual discorde com uma acusação: a de piloto pagante. Colapinto tem, sim, seus bons patrocínios, mas não é um pagante comum. A Alpine saiu de seu caminho natural e foi ela quem pagou uma fortuna para tê-lo.

Colapinto continua com a bênção de Lionel Messi (Foto: Reprodução)

Impavidez de lado, Briatore tem nos stakeholders os chefes. Como justificaria trocar Colapinto por um piloto que não inspira confiança ou uma promessa de segunda prateleira após dois anos dos cinco de contrato? O que seria daqui para frente? Explicar um esbanjo assim é quase impossível, sobretudo no cenário duma equipe que já mudou chefia, direção e motor nos dois anos desde que assumiu.

Quem tem, como diz o ditado que leitoras e leitores tão bem conhecem, tem medo. Briatore sabe até onde pode levar a valentia aventada. Por isso, Alonso. Seria a única maneira de justificar uma troca, de jogar Colapinto para o banco e ver até onde ir. Não rolou.

Colapinto precisava pontuar um pouco, fazer algumas exibições de chamar a atenção e estaria garantido para 2027. Há muito mais entre o paddock e o cockpit do que a vã filosofia do sofá pode imaginar, ainda que alguém possa pensar que Colapinto não justificou na pista a chance que recebeu, e isso é papo para outra hora e num texto diferente. Na histórica prática do mundo real, a manutenção era a única opção real da Alpine.

A Fórmula 1 volta de 4 a 6 de setembro em Monza, palco do GP da Itália, 13ª etapa da temporada 2026.