O fim de semana de Lewis Hamilton em Singapura passou por emoções bem diferentes ao longo dos três últimos dias. Do segundo lugar na corrida sprint à animação pelo forte início na definição do grid principal, a etapa em Marina Bay terminou em decepção, caos estratégico, problema de rádio e um pedido de desculpas à Ferrari — tudo isso alguns dias após as críticas do próprio Lewis à tática do time em Sepang. E o desenrolar dos fatos mostrou uma faceta diferente do heptacampeão.
Começando pelo fim de semana em Singapura, o opaco sexto lugar na classificação sprint evidenciou as dificuldades da Ferrari no início da etapa. No entanto, Hamilton acertou a largada sob pista úmida e ganhou três posições, antes de George Russell bater e deixar a vitória para Max Verstappen na prova curta. Colhendo os frutos, Lewis cruzou em segundo.
Em cenário completamente seco, algumas horas depois, a situação foi diferente na classificação principal. Líder no Q1 e no Q2, Hamilton mostrou ritmo e indicava até certo favoritismo pela pole, já que Verstappen parecia abaixo.
Na última fase, porém, a Red Bull ganhou vida, enquanto Lewis sofreu para acertar o primeiro setor nas duas tentativas que fez. Como resultado, perdeu a pole e ainda viu Charles Leclerc arrebatar o segundo lugar.
E é exatamente aí que o fim de semana de Hamilton toma um rumo diferente. Em terceiro e logo atrás de Leclerc no grid, o heptacampeão não teria a preferência da estratégia em uma pista em que ultrapassagens beiram o impossível entre os carros de frente. A opção, assim, foi arriscar um plano diferente.
Aqui, caro leitor, façamos um retorno rápido a Sepang. Em condições traiçoeiras e pista bastante molhada para a corrida, Hamilton pediu para largar com pneus intermediários, mas recebeu compostos macios.

Após as voltas de reconhecimento, manteve-se na pista, ao contrário de outros: Oscar Piastri, por exemplo, precisou discutir com a McLaren, mas deu a última palavra e calçou os de chuva antes da largada. Naturalmente, Lewis afundou como uma âncora de segundo para os últimos lugares no grid.
Patinando para todos os lados, Hamilton ouviu o comando da Ferrari para trocar pelos intermediários, mas bateu o pé e decidiu permanecer na pista, apostando em uma evolução das condições. Com uma recuperação notável, o britânico terminou a prova em terceiro e viu o próprio plano dar certo; ao fim da prova, até brincou com a aposta furada da equipe.
De volta ao GP de Singapura, Hamilton decidiu escolher a estratégia dessa vez e optou pelos pneus médios, que terminariam a corrida criticados por praticamente todos os pilotos. A questão é que havia bons pontos de interrogação sobre os compostos, já que o fim de semana teve apenas um treino livre e a escolha foi pelos duros, descartados na prova. Com dados limitados sobre os de faixa amarela, Lewis optou por arriscar.
No fim, deu tudo errado. Os compostos renderam muito menos que os macios e perderam aderência rapidamente, enquanto os de faixa vermelha aguentaram longos intervalos de forma mais consistente — principalmente com Verstappen, que voou na parte final do primeiro stint. Lewis foi chamado muito mais cedo do que deveria e calçou os macios, levando a mais uma sequência de problemas.

Novamente atrás de Leclerc na pista, Hamilton dessa vez tinha pneus melhores e claramente perdia tempo com o companheiro à frente. Mesmo questionando a Ferrari, o inglês não recebeu passagem e viu Charles recobrar o ritmo, distanciando-se com o tempo.
Precisando aguentar até o fim com macios, Lewis obviamente perdeu terreno e acabou ultrapassado até por Piastri, que teve de fazer um pit-stop a mais por conta de um furo de pneu.
No meio de tudo isso, Leclerc foi chamado aos boxes durante o VSC, enquanto Hamilton permaneceu na pista. Sem maiores informações sobre o caso, as críticas automaticamente se voltaram contra a Ferrari, que teria supostamente mantido o britânico no traçado com macios que chegariam ao fim em frangalhos. Uma decisão, no mínimo, questionável.
E a moral da história, como sempre, veio no fim — e com duas informações importantes. Logo na linha de chegada, Hamilton tornou pública a decisão de largar com pneus médios e se desculpou com a equipe; uma ação digna principalmente na esteira de outros acontecimentos, como as reclamações em Sepang.
Por fim, um segundo fato ainda veio à tona na entrevista de Frédéric Vasseur, em que o chefe confirma que a Ferrari chamou, sim, Lewis aos boxes no VSC. Ao observar a câmera onboard, não é possível ouvir a comunicação sendo feita ao piloto, que nem fez menção de encaminhar o carro ao pit-lane.
Até a mensagem de retirada do safety-car virtual apresentou falha, o que indica um defeito real na comunicação de Hamilton — algo que ocorreu de forma um pouco diferente com Verstappen.
O vídeo abaixo mostra a onboard de Hamilton após a ativação do safety-car virtual. Logo depois da curva 12, há uma interferência no sinal, que só retorna após a 13. Conforme a volta se desenrola, Leclerc (no canto inferior direito da tela) vai aos boxes, mas não é possível perceber qualquer chamado ou tentativa de Hamilton de entrar no pit-lane. O recorte segue até a retomada da bandeira verde, em que também não se ouve o tradicional aviso de “VSC acabando”.
No fim, o desastre estratégico de Singapura curiosamente inverteu o cenário de Sepang: uma semana após acertar, Hamilton errou e custou o resultado. O pedido de desculpas após a prova indica uma ação objetiva de blindar a Ferrari, que seria alvo natural das críticas, mas as divergências em dois finais de semana seguidos demonstram também que o refinamento da confiança ainda é um trabalho a ser alcançado. Restam seis — ou quatro — corridas para que isso seja feito em 2026.
Com as atividades do GP de Singapura concluídas, a Fórmula 1 tira uma folga neste fim de semana e retorna entre os dias 23 e 25 de outubro, para a disputa do GP dos Estados Unidos. A etapa de Austin será a 18ª da temporada 2026.