O título do Mundial de Pilotos já foi sacramentado por Oliver Rowland na etapa mais recente da Fórmula E, o eP de Berlim. Mas isso não quer dizer que o campeonato tenha acabado, e a última etapa da temporada 2024/25 pode reservar à Porsche um momento sonhado há muitos e muitos anos. O problema é que algo que deveria ser uma força, na verdade, coloca-se como um obstáculo para a equipe rumo ao tão sonhado título mundial: a relação entre Pascal Wehrlein e António Félix da Costa.

Com três Mundiais em jogo, a Fórmula E premia campeões por Pilotos, Equipes e Construtores. O primeiro já ficou com Rowland, da Nissan, mas os outros dois seguem em aberto para o eP de Londres, última rodada do campeonato — e com apenas a montadora japonesa e a Porsche na briga. Os alemães, porém, vivem uma situação curiosa: apesar de ter o favoritismo, há uma sombra e tanto rondando a garagem.

E isso se dá pela relação praticamente inexistente entre os dois titulares, Wehrlein e Da Costa. O primeiro é o líder claro da equipe desde o início na Fórmula E, responsável pela primeira vitória da história e também o inédito título mundial (o de Pilotos, na temporada passada). O português, por outro lado, chegou como um nome experiente e já campeão da categoria, mas nunca chegou a se encaixar inteiramente. Agora, parece um estranho no ninho.

Ainda que a relação entre Da Costa e o chefe Florian Modlinger nunca tenha sido realmente boa, a treta com Wehrlein tem contornos recentes. Especulações dão conta de que uma rixa começou no desfile dos pilotos do eP de São Paulo, primeira etapa da temporada, e gerou uma relação diferente a partir de então, com quase nenhuma palavra trocada entre os companheiros de garagem.

Da Costa vive momento tenso na Porsche e segue com destino em dúvida (Foto: Fórmula E)

Mesmo evitando se colocar contra a equipe em entrevistas, Da Costa já deixara claro em momentos anteriores que não tinha como prioridade ajudar Wehrlein na busca pelo bi. No entanto, sempre garantiu que o foco seria vencer os Mundiais de Equipes e Construtores, um sonho ainda não alcançado pela Porsche. E que pode acontecer em Londres.

A montadora alemã entra no último fim de semana da temporada com 228 pontos no Mundial de Equipes, 23 a mais que a Nissan. Nos Construtores, a vantagem é ainda menor, de apenas sete tentos. Definitivamente, o jogo está em aberto para a ExCel Arena — e a Porsche tem uma gestão de relações importante a fazer na Inglaterra.

Mesmo que tenha sido ruim o ano inteiro, a relação entre Wehrlein e Da Costa foi o suficiente para colocar a Porsche na primeira colocação dos dois campeonatos ao entrar na última etapa. O problema é que o ponto mais baixo veio justamente no último fim de semana, o eP de Berlim: logo no TL1, os dois se chocaram no fim da atividade e geraram não apenas uma batida surpreendente, como uma série de risadas nos outros chefes do grid. A cena foi sintomática e mostra como a equipe não fala mais a mesma língua.

No TL1 de Berlim, os carros da Porsche se tocaram e Da Costa ficou no muro (Foto: Porsche)

Em Londres, pista muito apertada e de difícil ultrapassagem, com muita energia para gastar, a Porsche vai precisar coordenar bem os trabalhos dos titulares. Com o Mundial de Pilotos decidido, o foco estará inteiramente nos outros, mas será que Wehrlein e Da Costa vão trabalhar juntos? Pela equipe, é provável que sim; mas e na necessidade de um abrir passagem ao outro? Questões que só serão respondidas na pista.

Por fim, a Porsche ainda tem uma carta na manga interessante para Londres: pode nem precisar dos dois titulares para ser campeã do Mundial de Construtores. Isto porque, ao contrário da Nissan, o time alemão tem seis carros empurrados por seu trem de força no grid. Como os dois primeiros de cada fornecedora pontuam, o time pode acabar beneficiado por boas apresentações de Andretti ou Cupra Kiro. Os japoneses, porém, contam apenas com a McLaren — que prepara o adeus.

Há seis temporadas, a Porsche sonha em escrever o próprio nome no topo da Fórmula E. Foi lindo vencer em 2024 com Wehrlein, mas a montadora quer a própria glória em 2025. O momento está mais próximo do que nunca, e o título de Rowland no Mundial de Pilotos limita o foco ao trabalho pela equipe. Mas o que deveria ser uma força, a relação entre companheiros, borra a imagem da taça e surge como um grande ponto de interrogação no horizonte. A ver se a coreografia vai funcionar em Londres.

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