SÃO PAULO (hoje tem coisa pacas) – A guerra deflagrada na Mercedes, os motivos de cada um, o futuro da dupla Ferrari, Vettel dando uma de come-quieto, os azares de Massa, a estreia de Lotterer… Um GP nunca termina na quadriculada, como sempre digo (nunca disse isso, mas a frase é boa). Vamos aos ecos de Spa:
– Está na cara que quando Rosberguinho falou que fez o que fez “para provar uma coisa”, referia-se a este momento aí do lado. Foi no começo do ano. Hamilton, deliberadamente, agrediu o companheiro nos países baixos. Isso não se faz. É muito mais grave que qualquer toque em corrida. As imagens tomadas por um cinegrafista amador me foram enviadas anonimamente pelo Renan do Couto. Não é montagem. Está tudo explicado.
– A Mercedes não sabe direito o que fazer. Qual a única ordem de equipe aceitável numa situação dessas? Não façam merda. Porque o título vai ficar em casa, com um ou com o outro. Melhor que seja decidido com lisura e sem mais atritos. Se possível, sem um bater no outro. Se não querem mais se falar, paciência. Se tiverem de almoçar e jantar em motorhomes separados, tudo bem. Mas não batam um no outro. Esse foi o motivo da ira de Lauda e Wolff ontem. Não há mais ilusões sobre camaradagem. Nenhum vai abraçar o outro numa vitória, ou pole. A paz acabou. Ou, como escrevem nossos amigos das organizadas nos muros dos clubes, “A PAS ACABOL”.
– Agora, que é divertido pacas, é. OK que assistir ao fim de uma longa amizade é algo que pode chocar, é meio triste, como disse ontem, mas do ponto de vista de marketing para a categoria, não há nada como uma grande rivalidade. Leva as pessoas a assumirem um lado, a torcerem para um ou para outro, a odiarem o rival, a procurarem defeitos atávicos e qualidades únicas. De que lado você está? Do neguinho emotivo, aguerrido, talentosíssimo, que se sente injustiçado, ou do branquelo coxinha, loirinho, frio e calculista, igualmente talentoso, que luta com as armas que tem e é vaiado no pódio? É uma boa disputa, convenhamos.
– Sobre o toque, mantenho minha visão do momento: coisa de corrida. Podia ser evitado, mas não podia ser tão bem calculado quanto algumas pessoas imaginam. Há uma diferença entre bater de propósito e não se esforçar muito para não bater. Rosberg assumiu o risco porque tinha menos a perder, talvez. Se batesse e os dois não pontuassem, não mudaria muito sua vida. Hamilton, por sua vez, não tinha muito a fazer. Estava na frente, fez sua linha. Nico poderia ter tirado o pé levemente. O ponto que depõe contra o alemão, para mim, é apenas um: precisava tentar a ultrapassagem na segunda volta? Poderia esperar um pouco mais? Acho que sim. O que não faz dele automaticamente culpado. E há um fato: ele não evitou. E isso faz dele automaticamente um pouco culpado. Um pouquinho só.
– Raikkonen e Alonso ficam na Ferrari em 2015, disse Machu-Pichu. OK. Têm contrato, tudo bem. Mas ainda acho que no fim do ano Kimi vai pedir para sair, se não enxergar uma luzinha no fim do túnel. Alonso não tem para onde ir, exceto para a McLaren, para liderar o projeto com a Honda. Mas acho improvável.
– “E na Mercedes?”, alguém pode perguntar. Sim, porque do jeito que a coisa anda, alguém consegue imaginar dois caras que passaram a se odiar tanto continuarem na mesma equipe? A conferir. Esse tipo de relacionamento não funciona. Prost se mandou da McLaren no fim de 1989. Piquet foi embora da Williams depois de conquistar o título de 1987. O próprio Alonso achou por bem não ficar brigando com Hamilton na McLaren, ao final da temporada de 2007. São todos competitivos, e quase todos dizem que não precisam ser amigos de seus companheiros de equipe. Mas, no fundo, ninguém gosta de conviver tão intimamente com quem não gosta. Um acaba roendo a corda.
– Não se iludam com o mau campeonato de Vettel. O rapaz não se acertou com esses pneus e com a maneira que esses carros devem ser pilotados, com turbo, dois motores extras e frenagens diferenciadas, para usar um termo caro aos dias de hoje. Eu diria que está usando esta temporada para se adaptar à nova F-1, algo que outros pilotos conseguiram rapidamente. Ele voltará muito forte no ano que vem. Quanto a Ricardão, é um que pegou a mão rápido. Como Bottas.
– Já Massa… Não sei se vou continuar usando a frase “precisa desesperadamente de um bom resultado”. Venho falando isso desde, sei lá, Mônaco. Somem-se à dificuldade de ter um companheiro velocíssimo e muito bom, tecnicamente, azares como o de ontem, de carregar restos mortais de pneu furado no assoalho por voltas a fio. A Williams levou dois pit stops para perceber. Felipe deveria ter parado na hora. Mas também não sabia o que estava acontecendo. Sabia que algo estava acontecendo, mas não exatamente o quê. No fim das contas, porém, fica apenas a sensação de que está desperdiçando chance em cima de chance de fazer um bom campeonato com um carro surpreendentemente bom. Bottas, por sua vez, aproveita cada oportunidade.
– Lotterer, coitado, deu só duas voltas. Mas largou na frente de Ericsson, que é um piloto fraco. Não sei qual o dedo da Audi nessa brincadeira. Talvez haja. Talvez não, e tenha sido apenas para curtir um pouco. Saberemos.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.