A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (o último!) – Chega de abraços e sorrisos em cor de laranja! Acho que a imagem mais marcante de Abu Dhabi foi, mesmo, o adeus de Lewis Hamilton à Mercedes. Ele abraçou e acarinhou o último carro da marca que guiou na F-1. Não foi o melhor de todos, […]
Publicado em 09/12/2024 às 20:58
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A IMAGEM DA CORRIDA
O adeus de Hamilton à Mercedes: “Maior honra”
SÃO PAULO(o último!) – Chega de abraços e sorrisos em cor de laranja! Acho que a imagem mais marcante de Abu Dhabi foi, mesmo, o adeus de Lewis Hamilton à Mercedes. Ele abraçou e acarinhou o último carro da marca que guiou na F-1. Não foi o melhor de todos, longe disso. Mas lhe deu duas vitórias, na Inglaterra e na Bélgica.
Lewis é grato à marca que defendeu a vida toda na categoria. Desde a chegada pela McLaren, em 2007, até hoje. Nunca usou outro motor. Fará parte eternamente da família da estrela de três pontas, como disse Toto Wolff pelo rádio. E se despediu com uma atuação de gala. Não deu taça, é verdade. Mas terminou em quarto depois de largar em 16º.
E fez sua última ultrapassagem na última volta sobre outro carro da Mercedes. Se alguém tivesse de escrever esse roteiro, não sei se capricharia tanto.
Abaixo, mais fotos da última das 246 corridas que o heptacampeão fez pela Casa de Stuttgart.
Capacete assinado por todos da equipe: fim de uma era
Ainda falando de Hamilton, o que acharam de seus modelitos para o fim de semana? Ele chegou na sexta de “prata off-white” quase cinza, a cor começou a mudar no sábado e, no domingo, o piloto aparece no paddock de Yas Marina todo de vermelho. Teve gente que achou desrespeitoso. Eu achei genial. Hamilton usa a moda como linguagem, forma de se expressar. Sem dizer uma palavra, anunciou sua metamorfose.
Foi o maior barato.
Metamorfose: sem ofender ninguém
E o campeonato mais legal dos últimos tempos acabou com uma série de cifras interessantes. Foi a primeira vez na história que sete pilotos venceram mais de uma corrida, a saber: Verstappen (nove), Norris (quatro), Leclerc (três), Piastri, Hamilton, Russell e Sainz (duas cada). Também a primeira vez desde 2010 sem que um piloto ou uma equipe vencessem três provas seguidas. Os três primeiros na classificação foram de times diferentes — Red Bull, McLaren e Ferrari. Quatro equipes ganharam quatro ou mais corridas. Cinco pilotos diferentes fizeram poles (Verstappen, Leclerc, Sainz, Norris e Russell). E houve uma incrível série de seis corridas com seis vencedores diferentes: Azerbaijão (Piastri), Singapura (Norris), EUA (Leclerc), México (Sainz), Brasil (Verstappen) e Las Vegas (Russell).
Mas número bom, mesmo, é esse aqui:
O NÚMERO DE ABU DHABI
0
…de prejuízo deu Pierre Gasly à Alpine com batidas em 2024. Ele pegou o carro no dia 2 de março no Bahrein e devolveu ontem, nove meses depois, sem um arranhão, polido, higienizado e com os pneus calibrados. O piloto que mais arrebentou a viatura foi Sergio Pérez. Com ele, a Red Bull teve de gastar cerca de US$ 5 milhões em peças, componentes e serviços. O mexicano terminou o Mundial em oitavo, a pior posição de um piloto da equipe dos energéticos desde o oitavo de Daniel Ricciardo em 2015.
Gasly, Pérez e Hulk: francês tirou 10º do alemão, mexicano foi 8º
Outro que merece menção honrosa numérica é Piastri. O australiano da McLaren percorreu as 1.444 voltas das 24 etapas do campeonato. O segundo lugar na lista foi Norris, com 1.437 — sinal claro da confiabilidade do equipamento papaia.
É a primeira vez que um piloto completa todas as voltas de uma temporada sem ser campeão mundial. Os outros que fizeram isso foram Michael Schumacher em 2002, Hamilton em 2019 e Verstappen no ano passado.
A propósito, aí embaixo vocês veem como ficaram os dois campeonatos de 2024. Gasly, na última corrida, tirou a décima posição de Hülkenberg. Que, por sua vez, comemorou o que chamou de seus melhores anos na F-1, o período na Haas, fazendo pontos em seis das últimas sete provas. Nico estará na Sauber no ano que vem.
Pontos para todos: McLaren campeã, Ferrari vice
Falando em Haas, o autor da melhor volta ontem foi Kevin Magnussen, que se despediu da equipe e da categoria. Vai para a BMW no WEC. Foi a terceira vez na carreira que o dinamarquês fez a volta mais rápida de uma corrida. Curioso é que em nenhuma dessas levou o ponto extra, porque chegou fora da zona de pontuação: foi 18º em Singapura/2018 e 17º na mesma pista em 2019. Ontem, terminou em 16º.
Mais um que falou tchau foi Valtteri Bottas. Ele causou um acidente justamente com Magnussen, que perdeu qualquer chance de chegar entre os dez primeiros e por isso colocou pneus macios para fazer a melhor volta da prova no fim. O finlandês pediu desculpas e tomou uma punição de cinco posições no grid na próxima corrida. Que, para ele, não haverá. Ao saber do pênalti, Bottas não perdeu a chance de fazer a piada: “Oh, não. Não é a situação ideal”, falou.
Bottas bate em Magnussen: os dois deixam a F-1
A FRASE DE YAS MARINA
“Forza, Ferrari!”
Carlos Sainz, ao se despedir da equipe
Sainz: orgulho dos quatro anos de vermelho
Com quatro vitórias e seis poles em quatro anos, Carlos Sainz se despediu do time italiano sem ressentimentos. Disse que compreende a opção pela permanência de Leclerc, que faz parte dos planos ferraristas desde sempre. E que quando se tem a chance de contratar alguém como Hamilton, é normal que haja um esforço para fazê-lo. Alguém tinha de sair.
Um dia depois de fechar sua história de vermelho com um segundo lugar em Abu Dhabi, Sainz já acelerou a Williams na mesma pista, para uma espécie de shakedown — o time ainda tinha direito a 200 km livres para filmagens na temporada. A partir de amanhã, estará nos testes de fim de ano com a nova equipe. Hoje, o banco espanhol Santander, que patrocinava a Ferrari, anunciou que passará a colocar seu logotipo nos carros azuis da Williams.
Espanhol recebeu o carinho de Leclerc e a grana do banco
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… de ver a McLaren voltar à primeira prateleira da F-1 com o título mundial conquistado depois de 26 anos. Foi o nono de sua história, o primeiro desde 1998 — já explicamos aqui ontem por que a equipe perdeu o título de 2007, embora tenha terminado a temporada na primeira colocação. E gostamos muito de ver Andrea Stella, seu principal dirigente de pista e de fábrica — Zak Brown é mais um executivo –, usando um broche com o capacete de Gil de Ferran na camisa. Gil, cuja morte completa um ano daqui a 20 dias, foi importante no processo de reconstrução papaia. Justa lembrança.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.