A hora da verdade chegou para a Aston Martin. Com o pior carro do grid desde a estreia das novas regras, no começo da temporada, a equipe põe na pista o que é, na prática, um novo carro para a sequência do campeonato 2026 da Fórmula 1. É o bote salva-vidas para tentar pôr fim ao que já se tornou uma das maiores vergonhas da categoria desde a virada do século.

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Ninguém gastou mais tempo e dinheiro com infraestrutura nos últimos anos que a Aston Martin. Mexeu e ampliou a equipe de trabalho em posições estratégicas, inclusive com nomes grandes de rivais, botou abaixo a antiga fábrica e reconstruiu com tudo de melhor que podia encontrar, produziu o túnel de vento mais caro e moderno entre todas as equipes. Para que tudo isso desse frutos, embalou com Adrian Newey, a lenda, para tocar o conceito do projeto do novo carro.

Ainda mais do que isso, entendeu que o próximo passo no caminho do sucesso era deixar de ser cliente. Nada de motor ou câmbio dos outros, não: acertou com a Honda para ser sua equipe oficial. A mesma Honda que possibilitou a Max Verstappen seus quatro títulos mundiais com a Red Bull nesta década. A fábrica japonesa deixou a de energéticos e partiu para a Aston Martin empapada de glórias e com o perfume do sucesso.

O que se viu desde então, neste ano, quando as coisas deveriam acontecer, beira o surreal. Parece algo saído duma realidade fantástica de Buñuel, uma cena de ‘O Discreto Charme da Burguesia’, ou a repetição do sonho distópico de David Lynch em ‘Eraserhead’. Está além do mapa do bizarro, tamanha é a extravagância do fracasso.

Fracasso, sim, mesmo que o regulamento tenha anos pela frente e apenas uma dezena de provas já realizadas. Na Bélgica, Fernando Alonso sequer terminou na mesma volta que Valtteri Bottas, da estreante Cadillac. Lance Stroll já levava 1min de desvantagem quando abandonou, porque ainda há isso, um problema atroz de confiabilidade, de quiques e desconforto geral, bem como a ausência completa de rendimento.

Cena de ‘O Discreto Charme da Burguesia’ (1972) (Foto: Reprodução)

Numa F1 que se livrou das equipes nanicas, mas que vez ou outra vê um time em crise financeira naufragar para longe do pelotão, a Aston Martin se destaca. Porque não é nanica, afinal ia ao pódio até outro dia, e tampouco está em crise financeira, uma vez que carnavalizou bonança nos últimos anos.

Também mudou de CEO algumas vezes, de chefe de equipe mais ou menos uma vez ao ano e vive com personagens do espetáculo tratando abertamente do nível de cobranças do dono Lawrence Stroll — que é tratado de forma bastante dócil pela imprensa internacional, de maneira geral, como se devesse apenas despejar dinheiro e nada mais. Não é assim que a banda toca no mais alto rendimento, mas Stroll, o pai, deu várias demonstrações que não sabe o que fazer. Como o personagem de xerife com terno bem cortado é tão cansativo quanto responsável pelo insucesso que o segue na F1, desde os tempos de mecenas da Williams.

Com uma equipe de fábrica, uma fábrica que vem de títulos, e com tanta capacidade financeira e tecnológica, não é absurdo dizer que a Aston Martin tem o pior carro que a Fórmula 1 viu nestes últimos 25 anos, levado em conta o custo/benefício e a expectativa/realidade. O pior.

A vergonha da Aston Martin é tamanha que toma todos os cuidados para não dizer que se trata duma nova especificação e, assim, um novo carro. Mas é o que é. Teve de passar por todos os testes que novos carros passam no início do ano, os de impacto e tudo mais. É um novo carro com o qual a Aston Martin, que até aqui quase nada mexeu, pretende voltar ao pelotão. O limite da incapacidade de desempenho é tão grotesca que ninguém mais sonha com pódios ou coisas grandes. A equipe estará satisfeita com um reflexo tão rudimentar quanto participar do pelotão. É a última chance de evitar que o cataclismo continue.

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Fernando Alonso fica até quando? E quando for, terá despedida digna de quem é? (Foto: Aston Martin)

Por fim, há a questão Alonso. Pessoalmente, acredito que se a novidade não aplacar o desastre de imediato, a prova no Hungaroring pode ser a última do bicampeão na F1. Por que retornar após o recesso? Mas diz ele que não será o caso e tudo bem, resta esperar para ver. É altamente provável, porém, que anuncie nas próximas semanas que deixa o grid no fim da temporada.

Aos quase 45 anos de idade, que completa na próxima semana, Alonso é um dos pilotos mais importantes destas últimas três décadas. É o mais longínquo de todos, afinal estreou em 2001, e um dos mais talentosos que já passaram por lá. Pelas circunstâncias da vida e carreira, vai terminar a jornada sem ter nem de perto os números de Michael Schumacher, Lewis Hamilton, Max Verstappen ou Sebastian Vettel, todos contemporâneos num momento ou em outro, mas é tão marcante quanto todos estes. Não se conta a história da Fórmula 1 sem passar pelo nome de Fernando.

O fim da carreira é fato muito relevante. Por tudo que fez e por ser quem é, merece um encerramento digno, com alguma alegria e motivo para festejar, seja qual for. Permitir que encerre a trajetória na F1 com um carro hediondo e andando 1min atrás do pelotão será uma vergonha histórica, que ficará para sempre na equipe, mesmo após deixar o grid um dia.

O GP da Hungria pode marcar o recomeço ou a ruina num fracasso que jamais irá embora.

A Fórmula 1 volta de 24 a 26 de julho em Budapeste, palco do GP da Hungria, 11ª etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REALalém de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

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