“Vou continuar fazendo o melhor possível, independentemente [da situação com a Haas]. Seria muito bom terminar os últimos três anos vencendo campeonatos. Independentemente do anúncio, vou continuar dando meu máximo para trazer mais um título para casa”. Foi essa a postura adotada por Rafael Câmara durante a entrevista coletiva acompanhada pelo GRANDE PRÊMIO logo depois de o brasileiro ser confirmado como titular na Fórmula 1 em 2027. A declaração deixa claro que o piloto quer fechar a trajetória na base em alta, mas há outro fator que também pode ser levado em consideração: a pressão para isso é consideravelmente menor, o que, em tese, descomplica ao menos um pouco a busca pelo objetivo.
A Fórmula 2 é a maior categoria de base do automobilismo e é uma ótima vitrine para os jovens pilotos exibirem o trabalho não só para chamar a atenção das equipes da Fórmula 1, mas também dos times da Indy, da Fórmula E, do WEC ou de qualquer outro certame de alto nível. Embora alguns se contentem com outras oportunidades que eventualmente surjam, é certo dizer que ninguém ousaria recusar uma oportunidade como titular na principal categoria do esporte a motor, caso ela aparecesse. Por isso, ser campeão na base muitas vezes coloca um nome em evidência e facilita a promoção.
Atualmente, Câmara vive o melhor dos mundos. Vindo de títulos na FRECA e na Fórmula 3 nos últimos dois anos, é o atual líder da Fórmula 2. Além disso, já tem o futuro garantido para o próximo ano e vai defender a Haas ao lado de Oliver Bearman na F1. Portanto, é seguro dizer que o principal objetivo do brasileiro como piloto da F2 foi concluído. Sofrer uma eventual derrota, portanto, não seria o fim do mundo.
Sim, é fato que ele quer fechar a trajetória com chave de ouro e chegar à F1 com a pompa de campeão de todas as categorias pelas quais passou, o que eleva a moral. Mas o fato de não precisar se provar para saber o que será da carreira no próximo ano torna tudo muito mais leve e, inclusive, tende a simplificar a disputa na reta final da F2, caso as etapas no Catar e em Abu Dhabi aconteçam.
Após o fim de semana no Azerbaijão, Câmara assumiu a liderança da tabela com sete pontos de vantagem sobre Nikola Tsolov. Alex Dunne, terceiro colocado, tem 18 pontos de desvantagem. E os rivais do brasileiro ainda não sabem o que será do futuro de suas carreiras em 2027.
O búlgaro é piloto da Academia Red Bull e é visto pelo chefe da Racing Bulls como “próximo da fila”. Porém, o bom trabalho de Arvid Lindblad e Liam Lawson faz a equipe de Faenza se questionar se realmente é necessária uma mudança na formação para o ano que vem. Dunne, por sua vez, não tem o nome circulando no paddock, mas um título da F2 tem o potencial de mudar os rumos da conversa em um futuro próximo.

Portanto, além de terem de reverter uma desvantagem contra um adversário forte, Tsolov e Dunne ainda têm de mostrar algo ainda mais impressionante do que apresentaram até agora para mudar os rumos dos respectivos destinos. Por isso, inevitavelmente, partem para a reta final da F2 muito mais pressionados e precisando assumir riscos, o que abre brecha para eventuais erros.
O que também desperta curiosidade neste caso é que, cada vez mais, a trajetória de Câmara na base se assemelha à de Gabriel Bortoleto. Depois do título da F3 pela Trident no ano de estreia, ambos correram na F2 pela Invicta, tiveram um piloto da Campos que pertence à Academia da Red Bull como principal rival, assumiram a liderança do campeonato no fim de semana do Azerbaijão e foram confirmados como titulares na F1 antes da rodada no Catar.

Gabriel selou o título em Abu Dhabi. Rafael, por sua vez, ainda tem uma última tarefa a cumprir. A resposta virá com o tempo, mas o cenário que se desenha é cada vez mais promissor para o brasileiro.
A F2 ainda pretende visitar Catar e Abu Dhabi para colocar um ponto final na temporada, embora as duas etapas estejam sob risco devido aos conflitos no Oriente Médio. Se de fato forem canceladas, o fim de semana no Azerbaijão foi o último, visto que a categoria de acesso não tem planos de acompanhar a Fórmula 1 em uma possível visita a Ímola.