O destino às vezes é caprichoso mesmo. Foi em meio aos efeitos da pandemia que Pierre Gasly conquistou uma das vitórias mais emocionantes e divertidas da história recente da Fórmula 1. Em uma Monza esvaziada, o francês sequer pôde comemorar como deveria o primeiro triunfo no Mundial e a bordo da pequena AlphaTauri — que ainda tentava emprestar o carisma da Toro Rosso. Foi também um dia de caos, mas que Pierre soube como driblar. Agora, seis anos depois, o mesmo Gasly surgiu do nada para reproduzir um novo feito inédito: a primeira pole da carreira, também em Monza. “Há algo de especial aqui”, disse ele. Há mesmo. Diferentemente daquele 6 de setembro de 2020, o piloto do carro #10 não precisou de balbúrdia, apenas velocidade e um toque de ousadia. E para tornar tudo ainda mais extraordinário, a posição de honra no grid ainda veio com um gostinho de vingança.
Isso porque, antes mesmo de o fim de semana começar, Gasly e a Alpine tiveram de enfrentar a decepção da perda (de novo) do pódio do GP de Mônaco, corrida disputada três atrás. A Corte de Apelações da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) decidiu restaurar as punições dadas a Pierre, atendendo aos recursos de Red Bull e McLaren. Então, é impossível dissociar o sabor da pole dos últimos acontecimentos. De toda a forma, a equipe francesa realizou um trabalho excepcional neste sábado (5), da preparação do carro ao desempenho primoroso de Gasly.
“Essa é a história da minha vida”, reconheceu Pierre, ao lembrar da decisão da Corte. “Não queria ter recebido a notícia de ontem, mas isso é outra história. Agora, é pura emoção. Trabalhamos tanto e, quando somos recompensados assim, é uma sensação impagável. É por isso que faço o que faço.”
É bem verdade que a Alpine liderou até com folga o pelotão intermediário no início da temporada, mas depois sofreu bem com as poucas atualizações e começou a perder terreno para Racing Bulls e até mesmo para a Audi nos últimos tempos, mas é igualmente certo dizer que o time de Enstone também tentou tirar proveito do motor Mercedes em pistas mais velozes, mas nada comparado a Monza. É que o circuito italiano se adapta muito bem às demandas do A526 e premia a eficiente gestão de energia da unidade de potência alemã. Dito isso, a força está basicamente na velocidade de reta, mas os gauleses foram além. O fato de Franco Colapinto também aparecer em sétimo no grid diz muito sobre a qualidade do carro francês e da preparação para essa prova.
Embora a dupla tenha testado ao longo da classificação a estratégia do vácuo — tão importante em um traçado cheio de retas e curvas de alta como Monza —, a decisão de ir à pista atrás dos adversários nos instantes finais do Q3 fez muita diferença. Gasly não usou o vácuo do carro de Colapinto no fim, mas o da Ferrari de Lewis Hamilton, e isso deu o impulso necessário para a volta decisiva. O francês também conduziu com destreza e sem erros, surpreendendo a Mercedes de George Russell em 0s060.
Steve Nielsen, diretor-geral da Alpine, destacou as mudanças feitas no carro desde o GP dos Países Baixos e reforçou a ideia de que a equipe enfim atingiu um patamar técnico consistente na Itália. “Fizemos uma grande melhoria no carro do Pierre em Zandvoort. Essa mesma melhoria foi feita no carro de Franco aqui. Acho que não conseguimos extrair o máximo do conjunto em Zandvoort, porque é um circuito peculiar. Mas viemos para cá e o carro está respondendo muito bem. Acertamos o que era necessário, ajustamos o vácuo, os pilotos não cometeram erros e o tempo de volta está claramente no carro, porque ambos estavam rápidos hoje”, afirmou.

E isso já é o suficiente para embaralhar a ordem de forças da F1. Porque a Mercedes, certamente, esperava a pole. Monza é, talvez, o melhor traçado para o W17. As retas e o gerenciamento da energia são os pontos mais fortes das Flechas de Prata, mas Russell acabou perdendo um tempo precioso nos minutos finais — mesmo o vácuo do carro de Max Verstappen ajudou. Mesmo assim, o inglês segue favorito à vitória, mas terá de ser agressivo, principalmente no início da corrida. A velocidade da Alpine também representa uma ameaça — levando em conta também que a esquadra alemã terá de se preocupar, ainda, com a recuperação de Andrea Kimi Antonelli, que vai partir do fundo do grid após a punição pela troca do motor.
Necessário dizer que, para o andamento do campeonato, George precisa tem de partir para uma vitória categórica ou pode colocar tudo a perder.
“Sempre precisamos levar todos a sério. Eles têm uma velocidade de reta enorme. Reduziram muito o arrasto e, em volta lançada, isso provou ser exatamente o que era necessário. A corrida é uma história completamente diferente, então vamos ver”, disse o chefão Toto Wolff.
De fato, o austríaco tem razão. A simulação de prova da Alpine não foi nada assombrosa, mas o sábado mostrou que as coisas mudam rápido. “Há tantas incógnitas”, falou Gasly aos jornalistas. “Isto é Fórmula 1, você não pode controlar tudo. Não sei onde vamos terminar amanhã, só espero ficar na frente o máximo possível. Sei que as probabilidades não estarão do meu lado mais uma vez, mas não estamos aqui para previsões. Estamos aqui para dar tudo de nós. Farei tudo o que puder para chegar à corrida preparado, e podem ter certeza de que darei tudo de mim.”
Também será interessante entender o que a Ferrari prepara para a etapa caseira. Embora tenha ficado longe da briga pela pole, a escuderia vai partir da segunda fila do grid, ajudada pela punição dada a Oscar Piastri, após o incidente com Liam Lawson durante a classificação. O australiano caiu de terceiro para sexta e terá de lidar também os perrengues que a McLaren enfrenta na Itália. Alheia a tudo isso, a equipe italiana tem nas mãos uma chance de pódio — até mesmo com os dois carros. Mas terá de ser perfeita.

Interessante colocar aqui que a Ferrari foi a única que simulou ritmo de corrida com os pneus macios — o time vem adotando táticas diferentes nas últimas corridas e, talvez, tenha realmente uma carta da manga, especialmente se a corrida se desenrolar no troca-troca de posições em função do gerenciamento das baterias. Só tem uma questão: a velocidade de reta. A aposta é em uma largada agressiva também, na tentativa de trazer a narrativa para si.
“Temos um carro realmente bom. O motor da Mercedes ainda está à frente, mas creio que fizemos um bom trabalho para chegar tão próximo quanto estamos, mas no fim das contas eles ainda ganham vários décimos nas retas. Temos que fazer o melhor que pudemos”, relatou Lewis Hamilton, que sai em quarto, uma posição atrás do companheiro de garagem, Charles Leclerc.
Em termos de estratégia, o GP da Itália deve ser decidido em uma parada apenas. A Pirelli, fornecedora dos pneus, entende que “as características do circuito, com suas longas retas e demandas de tração relativamente baixas, também ajudam a controlar a temperatura dos pneus traseiros e, portanto, promovem uma gestão térmica ideal”, o que abre a chance do uso dos três compostos levados para Monza — C3, C4 e C5. O caso é que a opção mais convencional ainda é o uso dos médios e duros.
“O pneu médio parece oferecer a maior flexibilidade, permitindo que as equipes reajam a qualquer paralisação tanto no início quanto na parte final da corrida. Teoricamente, a estratégia mais rápida envolve largar com o pneu C4 e fazer um pit-stop entre as voltas 24 e 30, antes de seguir até a bandeirada com o pneu duro”, afirmou Dario Marrafuschi, diretor da fabricante de Milão. “Já o C5 provou ser totalmente competitivo e pode representar uma opção interessante para aqueles que buscam explorar seu maior nível de aderência inicial para ganhar posições na longa reta que leva à curva 1.”
Também não se espera um desgaste crítico dos pneus, mesmo diante da previsão de altas temperaturas em Monza neste domingo. “As equipes terão, portanto, diversas opções estratégicas disponíveis, com os três compostos totalmente utilizáveis e capazes de oferecer diferentes oportunidades dependendo de como a corrida se desenrolar”, completou o dirigente.
Isso quer dizer que a tática terá um papel menor, enquanto o ritmo e a posição de pista devem contar mais.
O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do GP da Itália, 13ª etapa da temporada 2026, AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
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