A Williams iniciou 2026 diante de um cenário que contrasta fortemente com a trajetória ascendente construída nos últimos anos. Após deixar para trás um dos períodos mais difíceis da longa história na Fórmula 1 e se recolocar como protagonista do pelotão intermediário sob a liderança de James Vowles, a equipe de Grove esperava consolidar o crescimento e dar um passo adiante. No entanto, os primeiros sinais da nova temporada indicam um projeto que, ao menos neste momento, está muito aquém das ambições traçadas e que impõe dúvidas relevantes sobre a capacidade imediata de sustentar o impulso conquistado até aqui.

Para entender a dimensão da frustração, é preciso voltar alguns anos. Ainda sob a gestão da família fundadora, com Claire Williams no comando, a equipe mergulhou na fase mais difícil da gloriosa história. Após entrar na era híbrida como uma das principais forças do grid — ficou no terceiro lugar no Mundial de Construtores em 2014 e 2015 —, entrou em uma espiral decrescente até o fundo do poço, lugar de onde demorou para sair. Entre 2018 e 2022, terminou na última colocação quatro vezes, símbolo de uma estrutura que havia perdido competitividade técnica e capacidade de investimento.

Em enorme crise financeira, a Williams passou a depender quase que exclusivamente da verba de patrocinadores trazidos pelos chamados ‘pilotos pagantes’. Por mais que os valores fossem suficientes para manter o time na pista, ainda ficava muito longe dos orçamentos polpudos ostentados pelas principais escuderias do grid — e até os de times medianos —, em uma época em que o teto de gastos ainda não existia. Adicione nisso a qualidade (no mínimo) duvidosa de alguns nomes que passaram a ocupar o cockpit e você chega a uma receita que não poderia resultar em outra coisa que não fosse um fracasso retumbante.

A luz se acendeu no fim do túnel em 2020, quando o grupo americano de investimentos Dorilton Capital decidiu desembolsar € 152 milhões (cerca de R$ 1 bilhão à época) para comprar a equipe e colocar fim na era da família Williams na F1 — apesar de decidir manter o lendário nome vivo. Com o tamanho do estrago e a categoria às vésperas de passar por uma revolução estrutural que incluiu, além da mudança no regulamento técnico, a introdução do limite orçamentário, a decisão foi preparar o terreno para a nova era.

Williams chegou ao fundo do poço nos últimos anos da gestão de Claire (Foto: David Davies/PA)

A nova gestão solucionou os problemas financeiros, mas a parte operacional e técnica não teve a melhora esperada. A direção de Jost Capito — que chegou com o grupo americano para comandar o projeto — não se mostrou capaz de tirar a Williams do fundo do pelotão, levando à saída do dirigente ao fim de 2022. Eis que surgiu a figura de Vowles, engenheiro com mais de 20 anos de experiência na F1, que deixou o cargo de estrategista-chefe da Mercedes para ser o chefe de equipe do time britânico.

Ele assumiu o comando no início de 2023 com a missão de recuperar a credibilidade do nome Williams no paddock e, para isso, precisou fazer uma revolução completa, com reorganização de departamentos e modernização de processos. A resposta veio de imediato, com o sétimo lugar no campeonato, com 28 pontos — maior marca desde 2017. Em 2024, porém, o time sentiu o peso de não ter dois pilotos capazes de entregar resultados constantes. Alexander Albon, que chegou ainda no último ano da gestão Capito, carregava a equipe nas costas, mas com um Logan Sargeant que foi capaz de marcar apenas 1 ponto em duas temporadas, a formação de Grove precisava de outro nome à altura do tailandês para seguir evoluindo.

A Williams decidiu sonhar alto e fechou a contratação de Carlos Sainz para 2025. De saída da Ferrari, que optou pela chegada bombástica de Lewis Hamilton, o espanhol era um dos nomes mais cobiçados do mercado e escolheu o projeto comandado por Vowles, acreditando ser o melhor passo para a carreira. E a decisão demonstrou ser um acerto retumbante: a Williams deu um grande salto de performance em 2025, fechou o campeonato no quinto lugar e Sainz subiu ao pódio duas vezes, encerrando jejum de quatro anos da equipe britânica.

Era o tipo de progresso que alimentava ambições maiores. O discurso já falava em dar o próximo passo em 2026: não apenas liderar a ‘F1 B’, mas começar a incomodar as quatro principais equipes. O que se viu na prática neste início de ano, porém, não estava nem nos piores pesadelos dos integrantes do time.

Pódio de Carlos Sainz em Baku foi marco da reconstrução da Williams (Foto: F1)

A Williams perdeu completamente o shakedown em Barcelona após o FW48 falhar nos testes de impacto da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). A necessidade de ajustes estruturais de última hora comprometeu o cronograma e todo o projeto desenhado para a temporada. Nos testes do Bahrein, até conseguiu reagir parcialmente. Foi a terceira que mais completou voltas, mas a quilometragem elevada não escondeu as limitações do novo carro.

O FW48 é claramente pesado — estima-se que está entre 20 e 30 kg acima do peso mínimo —, o que prejudica aceleração, eficiência em curvas e gestão de pneus. Além disso, apresenta restrições aerodinâmicas perceptíveis, principalmente em curvas de média e alta velocidade. Em simulações de corrida, o ritmo ficou aquém das principais rivais do pelotão intermediário — um contraste preocupante para quem sonhava em reduzir a distância para o top-4. A perspectiva para o campeonato, portanto, tornou-se mais cautelosa. Em vez de mirar diretamente as quatro grandes forças, vê-se obrigada a defender posição no bloco intermediário enquanto tenta desbloquear potencial de desenvolvimento ao longo do ano.

Há ainda um componente que torna o cenário mais delicado: segundo a Sky Sports, tanto Albon quanto Sainz estão em reta final de contrato. Ambos compraram a ideia da reconstrução e foram pilares do salto recente, mas também sabem que o tempo na F1 é curto e que oportunidades competitivas não surgem com frequência. Então, caso a Williams não consiga corrigir o rumo e demonstrar potencial real de evolução, é natural que ambos passem a avaliar alternativas no mercado. Perder qualquer um dos dois justamente no momento em que o projeto enfrenta turbulência representaria um golpe técnico e simbólico difícil de absorver.

Com isso, 2026 tornou-se mais do que um campeonato para a Williams: na primeira crise da ‘era Vowles’, é um teste da consistência do projeto. Se o atraso e as falhas iniciais do FW48 forem apenas um tropeço isolado, a equipe ainda pode recuperar terreno e manter viva a ambição de crescimento. Caso contrário, o risco é ver todo o esforço posto na reconstrução ir por água abaixo justamente no momento em que deveria dar o salto definitivo.

Fórmula 1 retorna neste fim de semana, de 5 a 8 de março, com o GP da Austrália, abertura da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REALalém de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

GP da Austrália de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:

SessãoBRA*CBVPOR
ANG
MOZ
Treino livre 122:300:3002:3003:30
Treino livre 202:0004:0006:0007:00
Treino livre 322:300:3002:3003:30
Classificação02:0004:0006:0007:00
Corrida01:0003:0005:0006:00

*Horário de Brasília

▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GPTV