Esqueça o desânimo de 2025, as frases tristes e as palavras questionadoras do próprio talento. Em 2026, Lewis Hamilton deixou para trás a faceta estranha que tomou conta da primeira temporada na Ferrari e passou a entregar algo muito mais próximo do que a equipe esperava. Com mudanças na estrutura do carro, incluindo freios, e até uma nova maneira de encarar o simulador, o heptacampeão enfim venceu a primeira em Maranello e mostrou brilhos aqui e ali. Mas também precisa de uma escuderia que chegue junto, no melhor sentido da expressão.

É impossível esquecer a tragédia que foi a primeira temporada de Hamilton pela Ferrari. Claro que a missão pareceu ingrata desde o início, após tantos anos na Mercedes, mas a realidade se impôs de forma consideravelmente pior e o inglês fechou o ano sem um pódio sequer, algo que nunca havia acontecido na carreira. A tristeza, porém, ficou para trás.

O novo regulamento técnico da Fórmula 1 ajudou a renovar as energias de Hamilton, crítico confesso da antiga geração de carros — com a qual o britânico nunca conseguiu se ajustar totalmente. Ainda que com críticas aqui e ali à gestão de energia, a redução de pressão aerodinâmica dos monopostos e a maior leveza ajudaram Lewis, que sofreu no ciclo anterior com monopostos rígidos e consideravelmente maiores.

Assim, o início de temporada começou de forma positiva, com o quarto lugar na Austrália e o terceiro na China, que enfim trouxe um pódio em corridas principais. A sequência entre Japão e Miami foi mais difícil, com dois sextos lugares, mas a ida ao Canadá iniciou uma sequência de três pódios que culminaria na tão sonhada primeira vitória, em Barcelona. Entre elas, um segundo lugar em Mônaco, mesmo resultado de Montreal.

Desde então, Hamilton não saiu mais do top-5, com mais um pódio somado com o terceiro lugar na Inglaterra — que seria segundo, não fosse uma parada equivocada da Ferrari. Em resumo, um campeonato completamente diferente do que se viu no ano passado, com um Lewis visivelmente mais confiante, animado e veloz.

Nem tudo foi perfeito, porém, e Hamilton viveu uma dor de cabeça frequente com punições nas últimas corridas. A maior pedra no sapato tem sido o limite de velocidade no pit-lane, curiosamente, que já rendeu alguns decréscimos de tempo ao heptacampeão. No geral, contudo, é quem tem tirado mais do carro na garagem da Ferrari, soma 31 pontos a mais que Charles Leclerc e conseguiu até separar as duas Mercedes no Mundial de Pilotos.

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Ao contrário de 2025, a temporada 2026 vem sendo feliz para Hamilton na Ferrari (Foto: F1)

Claro que isso diz muito mais sobre o ano tenebroso de George Russell a bordo das Flechas de Prata, que mandam no campeonato, mas o feito de Hamilton é bem considerável ao se analisar o poderio da Mercedes. Os alemães já chegaram a 379 pontos no Mundial de Construtores e nadam de braçada, enquanto a Ferrari já os vê de longe, com 307. A distância de 50 pontos para Kimi Antonelli é grande, mas a discrepância de ritmo entre os carros também.

E é aí que entra a necessidade de ter a Ferrari ao lado. Ainda que Hamilton fizesse a melhor temporada da carreira, e o mesmo serve para Leclerc, o carro não permitiria que uma briga de fato pelo título fosse travada. Não que seja ruim, claro, mas a distância para o que a Mercedes tem feito ainda é bem considerável e impossível de ser tirada apenas no braço.

O projeto italiano para a nova geração de carros da Fórmula 1 começou bem, com um carro bem nascido e de chassi competitivo, talvez o melhor em termos de aerodinâmica na categoria. A questão reside principalmente na unidade de potência: a Mercedes tem um conjunto superior e mais eficiente, além de dominar os novos sistemas com precisão que a cliente McLaren nem conseguiu chegar perto ainda. E esse trabalho precisa ser feito em Maranello.

A primeira atualização sob permissão do ADUO veio no GP da Áustria, mas terminou em desilusão: comendo os pneus loucamente, a Ferrari teve Hamilton em quinto e Leclerc apenas em oitavo, ambos longe da batalha pelo pódio. A expectativa, agora, é de que a segunda e última permitida em 2026 traga uma evolução considerável após a pausa.

Se quiser sonhar em pegar a Mercedes, que ainda parece um pouco longe, a Ferrari precisa evoluir (Foto: AFP)

Na Hungria, só para ficar em dois exemplos, o desgosto foi ainda maior. Em uma pista mais truncada e sem grandes retas, a expectativa era de que o motor contasse menos, enquanto a aerodinâmica teria uma importância ainda maior. E os treinos livres confirmaram a força da Ferrari, antes de a classificação derrubar Hamilton — com mais uma punição — e iniciar uma sequência de erros que só terminaria no domingo. No fim, Leclerc foi quarto e Lewis, quinto.

É bem verdade que, apesar da grande campanha de Hamilton, Antonelli tem sido brilhante e precisaria de um cataclisma para perder o primeiro título mundial. No entanto, caso a Ferrari entregue nas mãos do britânico um conjunto capaz de brigar regularmente, não deixaria de ser curioso ver uma batalha direta entre um heptacampeão mundial e o jovem de 19 anos que o substituiu. A bola está do lado italiano da quadra; após as férias, resta saber como será devolvida aos alemães: em uma cortada quente ou apenas uma devolução sem graça.

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