Michael Schumacher já havia anunciado a aposentadoria da Fórmula 1. Aos 37 anos, o alemão sabia que tinha poucas oportunidades restantes para ampliar uma coleção de recordes que parecia inalcançável. Ainda assim, naquele 1º de outubro de 2006, em Xangai, o heptacampeão tinha uma importante história para escrever — sem saber que seria a última.
O GP da China era a 16ª etapa daquela temporada e, até então, o circuito não havia sido exatamente um território amigável para Schumacher. Nas duas primeiras edições da prova, o retrospecto havia sido decepcionante.
Em 2004, rodou na classificação e terminou apenas em 12º, uma volta atrás do vencedor Rubens Barrichello. No ano seguinte, protagonizou uma das cenas mais inusitadas da carreira ao bater com Christijan Albers ainda no caminho para o grid. Para completar, abandonou a corrida após rodar atrás do safety-car.
Em 2006, porém, a situação era outra. Schumacher chegava à China embalado pela vitória na Itália — justamente onde anunciou o adeus —, enquanto a Ferrari havia superado a Renault no Mundial de Construtores. No campeonato de pilotos, Fernando Alonso ainda liderava, mas por apenas dois pontos.
O cenário, contudo, não parecia favorável ao alemão quando os carros foram para a pista no sábado. A classificação aconteceu debaixo de chuva, e a diferença entre Michelin e Bridgestone, que travavam uma batalha de pneus na época, era brutal no molhado. Alonso foi o mais rápido e garantiu a pole, com Giancarlo Fisichella ao lado na primeira fila. Schumacher, único com compostos Bridgestone a avançar ao Q3, conseguiu apenas o sexto lugar. Parecia pouco para quem precisava recuperar terreno na luta pelo título.
No domingo, a chuva havia diminuído, mas o asfalto continuava molhado. Todos largaram com pneus para pista úmida, e a dupla da Renault aproveitou as condições para assumir o controle da prova. Alonso escapou na frente, enquanto Fisichella mantinha a segunda colocação e protegia o companheiro.

Kimi Räikkönen foi quem começou a agitar o pelotão. O finlandês da McLaren ganhou posições na largada e chegou a ameaçar Fisichella. Schumacher, por sua vez, permaneceu em sexto, esperando a pista mudar. E ela mudou.
Com o traçado começando a secar, a vantagem dos compostos da Michelin desapareceu aos poucos. Schumacher passou Rubens Barrichello na oitava volta e Jenson Button na 14ª, subindo para quarto. No mesmo momento, Räikkönen finalmente conseguia superar Fisichella e partia em busca de Alonso. O cenário começou a virar completamente.
Schumacher era o mais rápido da pista e não demorou para colar em Fisichella. Alonso, por outro lado, começava a sofrer com os pneus e cometia alguns erros, escapando da pista em diferentes momentos.
Räikkönen ainda poderia interferir diretamente na disputa, mas sua corrida terminou no 18º giro com uma falha mecânica. O finlandês abandonou justamente quando se aproximava de Alonso e, depois da prova, afirmou que acreditava ter ritmo para lutar pela vitória. Na pista, a estratégia começava a definir o destino da corrida.

O primeiro ciclo de paradas manteve Alonso na liderança, mas a Renault decidiu trocar apenas os pneus dianteiros. A escolha acabou prejudicando o ritmo do espanhol. A vantagem de cerca de 20s desapareceu rapidamente, até que o líder perdeu posição para os dois rivais. O golpe definitivo, porém, veio alguns minutos depois.
Na 35ª volta, Alonso entrou nos boxes para colocar pneus de pista seca. A parada, porém, foi comprometida por um problema com a porca de uma das rodas e durou mais de 19s. O espanhol voltou à pista em quarto, mais de 50s atrás do líder.
Schumacher e Fisichella foram alguns dos últimos a abandonar os pneus intermediários. A Ferrari chamou o alemão aos boxes na 40ª volta. Fisichella entrou na volta seguinte. E foi aí que a corrida se decidiu.
O italiano conseguiu sair à frente de Schumacher, mas ainda tinha os pneus frios. Na primeira curva, escapou para a área molhada e perdeu o controle da situação por alguns instantes. Schumacher não precisou de um segundo convite: passou por dentro e assumiu a liderança do GP da China.

Faltavam 21 voltas para a bandeirada. Atrás dele, Alonso ainda teria uma última tentativa. Depois de uma corrida que parecia perdida, o espanhol reencontrou ritmo com os pneus para pista seca e começou a estabelecer voltas mais rápidas em sequência. A diferença, que chegou a 24s, começou a desaparecer.
Alonso passou Fisichella sem dificuldades quando o companheiro não ofereceu resistência. Depois, partiu atrás de Schumacher. A vantagem caiu volta após volta, mas o alemão não cedeu. Com a frieza e precisão que marcaram a carreira na F1, Schumacher conseguiu, enfim, domar Xangai e triunfar em solo chinês.
A vitória tinha um significado que só seria completamente compreendido depois. Era a 91ª da carreira e tornou-se a última de uma trajetória que já havia acumulado sete títulos mundiais e um sem-número de marcas históricas. Naquele momento, porém, ainda havia campeonato pela frente.
Com o resultado, Schumacher alcançou Alonso no campeonato: os dois passaram a ter 116 pontos. No desempate, o alemão assumiu a liderança do Mundial pela primeira vez naquela temporada. A Ferrari também deixava a China ainda na briga pelo título de Construtores, embora o pódio duplo da Renault tenha recolocado a escuderia francesa na liderança por um tento.

O alemão ainda tinha duas corridas pela frente. Japão e Brasil seriam as últimas provas de Schumacher pela Ferrari antes da aposentadoria. E, embora tenha chegado à etapa final ainda na disputa pelo título, não conseguiu impedir Alonso de conquistar o bicampeonato.
Aquele triunfo em Xangai, portanto, acabou ganhando um peso histórico que ninguém poderia dimensionar naquele momento. Schumacher tinha vencido pela 91ª vez. E nunca mais voltaria ao degrau mais alto do pódio, nem à liderança da F1.
O recorde de 91 vitórias permaneceu intocado por 14 anos, até Lewis Hamilton superar a marca no GP de Portugal de 2020. Para Schumacher, porém, o significado daquela tarde em Xangai é ainda mais particular: depois de superar um circuito que havia sido especialmente ingrato nas primeiras visitas, derrotar a chuva, sobreviver à mudança de condições e resistir à reação de Alonso, o alemão encerrou ali o capítulo das vitórias na F1.
Há 20 anos, Michael Schumacher ainda não sabia que aquela seria a última vez no alto do pódio. Mas a história já tinha escolhido o lugar.
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