Opinião GP: Russell vence e tenta reabrir disputa. Mas Mercedes não está sozinha
George Russell ganhou sobrevida na Áustria e tem pela frente a chance de voltar ao campeonato. A vitória, muito baseada na calma e na experiência, chega em um momento fundamental, assim como para a Mercedes. Isso porque a corrida austríaca deixou claro que a temporada segue imprevisível e que os rivais estão cada vez mais perto
George Russell precisou esperar 112 dias para voltar a celebrar uma vitória na F1. Da Austrália à Áustria, o britânico passou de favorito ao título a uma espiral inacreditavelmente negativa, agravada pelo fato de dividir as garagens da Mercedes com um jovem piloto que se tornou um fenômeno neste meio tempo. E mesmo que a diferença para a liderança do campeonato permaneça significativa, Russell deixou o Red Bull Ring com a sensação de que nada está perdido, mas que uma reviravolta ainda vai depender de atuações tão fortes quanto a deste domingo (28). Mais do que a sobrevida no Mundial, a vitória também é um alívio. Só não exatamente para a Mercedes, que agora parece bem menos isolada na ponta.
A verdade é que Russell foi capaz de vencer não só na base da experiência, mas também no apoio de quem chefia a equipe alemã. É preciso dizer que há um trabalho para não deixar a situação sair do controle. E uma prova disso foi justamente a mensagem de rádio de Toto Wolff ainda durante a classificação de sábado. “Apenas pilote”. Na superfície, pareceu um recado para que George parasse de se queixar de algo, mas o próprio Wolff revelou que a intenção era muito mais profunda. A ideia era realmente ajudar o piloto a manter o foco naquilo que era preciso ser feito naquele momento, uma vez que Andrea Kimi Antonelli seguia forte.
Isso também se explica pela série de infortúnios e desempenhos aquém do esperado. Russell sofreu com problemas e má sorte na China e no Japão, após o triunfo na primeira corrida do ano. Em Miami, não conseguiu se encontrar em nenhum momento, enquanto no Canadá, em uma pista favorável e de ótimo histórico, George até foi capaz de imprimir desempenho notável, mas Kimi endureceu a briga. Foi o primeiro grande confronto entre eles. No entanto, uma falha no carro enquanto liderava a prova se transformou em um duro golpe.
Na chegada à Europa, em Mônaco, o inglês esteve longe do ritmo de Antonelli e ainda se viu envolvido em punições controversas. Uma semana depois, em Barcelona, a história se desenhava em uma redenção, mas aí a Ferrari deu o drible estratégico e venceu. O italiano abandonou, mas antes já havia ultrapassado George na pista. Ou seja, foram seis etapas longe do alto do pódio, enquanto Kimi vencia e abria vantagem na tabela de pontos.
“Esse ‘apenas pilotar’ é algo sobre o qual falamos muito [depois das últimas corridas]. É simplesmente estar presente no momento de pilotar o carro. Não pensar demais na estratégia, no que o Kimi está fazendo”, revelou Wolff aos jornalistas na Áustria. “Guie o carro o mais rápido que puder e observe a temperatura dos pneus, sem acabar com eles. Essas são as únicas métricas que você precisa observar. E era isso que eu estava tentando dizer a ele naquele momento”, completou.
A postura da Mercedes parece ter surtido o efeito necessário. Tanto que George buscou na experiência a melhor reação naqueles segundos finais da classificação, quando viu a bandeira amarela e só tirou o pé de leve. A pole acabou tendo uma importância ainda maior, especialmente diante de um Antonelli que sentiu mais a perda, em função das mensagens desencontradas após o acidente com Max Verstappen. E isso também se refletiu na corrida.

Enquanto Russell fez uma largada sólida e teve a chance de abrir caminho na ponta, o italiano protagonizou voltas caóticas, andando por fora da pista e quase tomando uma punição. No fim, precisou esfriar a cabeça e usar todo o ritmo que tinha a seu favor, mas foi uma corrida de recuperação. Talvez se estivesse partido mais à frente teria sido um adversário difícil para o colega de equipe.
George sabia disso, tanto que tentou desde o início impor um ritmo forte. Conduziu de maneira consistente no primeiro stint, tendo a equipe a seu lado na prioridade de estratégia — desta vez, a Mercedes não caiu na armadilha da Ferrari com uma parada antecipada. Ao contrário, obedeceu às próprias regras. E ainda que tenha perdido ritmo em determinado momento da corrida, o inglês soube como se manter longe de um Verstappen que vinha muito rápido. De novo, a calma da experiência ajudaram o britânico a levar o carro até a vitória.
Embora ainda sustente uma desvantagem de 40 pontos para Antonelli — que ainda terminou a corrida em terceiro —, Russell agora respira mais aliviado, porque parece entender que há um caminho. “Foram alguns meses difíceis, com algumas corridas realmente complicadas, corridas em que parecia que tudo estava contra mim, e algumas corridas com desempenhos difíceis”, disse.
“E corridas difíceis são um teste psicológico. Essa foi importante para me lembrar que posso conseguir bons resultados tanto em corrida quanto em classificação”, emendou. “Para mim, ir para o Canadá, ir para Barcelona, depois de estar em uma situação bastante difícil, exigiu muita resiliência para conseguir me recuperar e apresentar um bom desempenho. Por isso, conquistar as duas últimas poles e vencer aqui neste fim de semana, especialmente em uma pista que não considero tão adequada para mim, me deixa muito, muito orgulhoso.”
Talvez represente um marco na jornada de Russell e da disputa do título contra Antonelli, principalmente porque é uma vitória que acontece antes da corrida na Inglaterra, na semana que vem. A verdade é que George deve tentar agora abrir de vez o campeonato, fundamentado em uma performance que também exigiu força mental, uma vez que não parece provável uma queda repentina de Antonelli.

Mas há um outro ponto importante dentro desse cenário também. A Mercedes voltou a vencer depois da derrota na Catalunha, só que a disputa na ponta agora parece menos isolada.
Quer dizer, a esquadra alemã ainda é favorita, mas não absoluta. O crescimento de Verstappen e da Red Bull foi notório. O desempenho de corrida do tetracampeão deixou a impressão de que há mais por vir, principalmente porque os taurinos poderiam até ter vencido neste domingo. A estratégia acabou tirando a chance de Max, e talvez isso vá atormentar a equipe por algum tempo. A demora em parar Verstappen uma segunda vez entregou para Russell uma vantagem em pista. De outra forma, o neerlandês provavelmente teria uma performance forte o bastante para tentar o triunfo. No fim, Max foi o segundo colocado, com Antonelli logo atrás.
Esse desenho já faz a Mercedes pensar. Porque Red Bull e Ferrari se aproximaram perigosamente e a tendência é de crescimento, baseado no próprio desenvolvimento do regulamento. Os italianos venceram na Catalunha e, ao menos com Lewis Hamilton, mostraram que há uma chance. Já a dona da casa mudou todo o carro e entregou competitividade. “Esta foi a primeira vez que senti que realmente podia lutar pela vitória”, disse Verstappen após a corrida. Se pega gosto, também será um problemão para as Flechas de Prata.
A Fórmula 1 volta de 3 a 5 de julho com o GP da Inglaterra, em Silverstone, nona etapa da temporada 2026.
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