Dentro das pistas, a Williams passou quase despercebida na temporada 2020. Ainda que houvesse apresentado uma considerável evolução na comparação com o ano passado, sobretudo em ritmo de classificação, não foi o bastante para que a dona de nada menos que nove títulos do Mundial de Construtores e outros sete do Mundial de Pilotos sequer pontuasse neste ano. Aliás, 2020 representou o pior ano desde sempre para a equipe de Grove, que pela primeira vez fechou um campeonato sem um ponto sequer.
O fundo do poço reflete, no fim das contas, uma gestão que deu errado. Ao longo da última década, a Williams teve a chance de ganhar fôlego durante os tempos em que era patrocinada pela Martini, sobretudo entre 2014 e 2016, e foi uma das melhores equipes do grid no início da era híbrida. Mas a escuderia britânica não soube aproveitar o bom momento para crescer de forma sustentável, perdeu não só a Martini, mas a maior parte dos patrocinadores, e não consegue atrair empresas fortes para os seus quadros.

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Tanto que, para sobreviver, precisou recorrer aos milhões de dólares do bilionário Michael Latifi, pai de Nicholas Latifi, vendendo assim um cockpit titular e vários espaços do carro para patrocinadores ligados ao empresário canadense, além de garantir mais patrocínios trazendo o inexpressivo Roy Nissany para participar de alguns treinos livres e também do teste de novatos.
George Russell é um oásis de talento, mas, sem um carro capaz de mostrar sua capacidade — que foi vista quando o piloto teve a chance ímpar de correr pela Mercedes no GP de Sakhir —, não há muito o que fazer.
Sem resultados e, por consequência, sem a capacidade de atrair bons patrocinadores, a saúde financeira da Williams ficou em frangalhos. A derrocada financeira fez com que a família Williams quebrasse um paradigma de quase uma vida toda. Frank e Claire Williams já tiveram a chance inclusive de fazer da escuderia uma equipe de fábrica, vendendo a sua operação para a BMW, mas resistiram. Mas na Fórmula 1 dos dias de hoje, a realidade provou que era impossível sobreviver mantendo a origem garagista da equipe.

Em maio deste ano, a Williams anunciou uma nova estratégia de mercado, o que, na prática, colocou a equipe à venda, total ou parcialmente. Havia a promessa de que o sobrenome vitorioso permaneceria na esteira de uma negociação, mas já se sabia que a era Williams na Fórmula 1 estava perto do fim.
Três meses depois, em 21 de agosto, o Grupo Williams confirmou a venda da equipe para o fundo norte-americano Dorilton Capital, uma empresa de investimentos privados sediada em Nova York.
Fundado há 43 anos por Frank Williams, o Grupo Williams já acenava com complicada situação financeira em tempos recentes. A Williams registrou queda de receita considerável, caindo de £ 176,5 milhões (R$ 1,17 bilhão) registrados em 2018 para £ 160,2 milhões (R$ 1,06 bilhão) no ano passado. Na operação da F1, a Williams caiu de £ 130,7 milhões (R$ 870,1 milhões) em 2018 para £ 95,4 milhões (R$ 635,1 milhões) no ano passado, com prejuízo total de £ 10,1 milhões (R$ 67,2 milhões), na comparação com o lucro acumulado de £ 16 milhões (R$ 106 milhões) em 2018. A crise foi agravada também pelo fator que pegou todo mundo de surpresa em 2020: a pandemia.
Era até esperado que a família Williams permanecesse no pit-wall nas corridas de Fórmula 1 ao menos até o fim da temporada, como parte do processo de transição e troca de bastão na parte operacional de pista. Mas Claire Williams, filha do lendário Frank e chefe-adjunta da equipe, saiu de cena no fim de semana do GP da Itália, em Monza, onde a escuderia já triunfou seis vezes — Nelson Piquet, em 1986 e 1987; Nigel Mansell, em 1991; Damon Hill, em 1993 e 1994; e Juan Pablo Montoya, em 2001.
“A todos do time, foi um enorme prazer e uma enorme honra poder ter trabalho com vocês. Muito obrigada, do fundo do meu coração”, disse Claire, emocionada, pouco depois do fim da corrida na Itália.

Depois do comunicado do desligamento de Claire, o Dorilton Capital anunciou a nova diretoria, composta por dois executivos do grupo, Matthew Savage e Darren Fultz, e o ex-piloto britânico e cunhado da Duquesa de Cambridge, James Matthews. E o escolhido, primeiramente em caráter interino, para ser o novo chefe de equipe na pista foi o britânico Simon Roberts.
Formado em engenharia mecânica pela Universidade de Manchester, o profissional trabalhou nos dez últimos anos na McLaren quando foi contratado nesta temporada para ocupar a função de gerência da Williams, que já tinha no seu horizonte um processo de transição.
Com o desfecho do campeonato e todos de volta à base em Grove, a Williams definiu a sua estrutura em caráter definitivo, efetivou Roberts e anunciou a chegada de Jost Capito, dirigente alemão que fez história no Mundial de Rali como chefe da Volkswagen e que é lembrado recentemente por uma passagem relâmpago, de seis meses, na McLaren antes de a gestão de Zak Brown assumir o comando executivo em Woking.

No âmbito esportivo, a Williams tenta se reerguer depois do seu pior ano, ao mesmo tempo em que busca reconstruir bases financeiras que possam garantir, ainda que num futuro distante, melhores resultados e dias mais promissores.
Mas mesmo com a venda para os norte-americanos, a Williams vai ser Frank Williams, e Frank Williams vai ser sempre a Mercedes. De modo que os últimos dias de 2020 trouxeram preocupação sobre um dos maiores chefes de equipe de todos os tempos após a equipe anunciar que o antigo dirigente, de 78 anos, foi internado em um hospital na Inglaterra e, sem mais explicações sobre o motivo da internação, disse somente que sua condição clínica é estável e pediu privacidade.