A Fórmula 1 chega a Singapura para uma das etapas mais exigentes fisicamente do calendário. A FIA declarou, pelo segundo fim de semana consecutivo, um alerta de calor para o fim de semana, diante da previsão de índice de calor superior a 31°C.

Mesmo disputada à noite, a corrida em Marina Bay combina temperatura elevada, umidade e um circuito de 19 curvas que exige esforço físico constante. Em condições extremas, os pilotos podem perder cerca de 3 kg ao longo da prova por desidratação.

O protocolo da FIA determina que os carros estejam preparados para utilizar um sistema de resfriamento do piloto. O equipamento pode utilizar um colete com tubos por onde circula líquido refrigerado, mas o piloto pode optar por não vestir a parte do sistema que fica junto ao corpo. Nesse caso, é necessário acrescentar 0,5 kg de lastro ao cockpit para compensar a diferença de massa.

A regulamentação de 2026 também estabelece requisitos mínimos para o sistema, incluindo capacidade de retirar calor do piloto e regras específicas para o armazenamento e circulação do fluido.

Verstappen: “Não preciso”

Max Verstappen é um dos principais críticos da solução. O tetracampeão mundial afirmou em Singapura que não pretende utilizar o colete e questionou tanto sua necessidade quanto sua eficácia. O piloto da Red Bull também reclamou das conexões utilizadas pelo sistema, que, segundo ele, prejudicam a liberdade de movimento dentro do cockpit.

“Para mim, não é necessário. Sim, está quente, mas não é uma sauna. Com esse colete de resfriamento, você tem essas mangueiras estúpidas no carro, então isso também limita seus movimentos. Mesmo que funcionasse por 1h30, eu não precisaria. Mas ele não funciona por 1h30.”

A posição do neerlandês não é exatamente nova. A discussão sobre tornar o equipamento obrigatório já havia provocado resistência entre os pilotos, especialmente depois dos problemas físicos registrados no GP do Catar de 2023.

Russell está do outro lado

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Foto: Mercedes

George Russell apresenta uma visão completamente diferente. O piloto da Mercedes é atualmente o principal defensor do uso dos sistemas de resfriamento e argumenta que o impacto do calor sobre o desempenho e a segurança não pode ser medido apenas pelo cronômetro.

“Você nunca consegue quantificar quanto tempo de volta está perdendo porque seu corpo está realmente superaquecendo, mas eu sei.”

Russell citou ainda uma conversa que teve com Alex Albon após o GP do Catar de 2023. Segundo o britânico, o piloto da Williams relatou que chegou a ter alucinações durante aquela corrida.

“Ele sentia que estava alucinando durante a corrida. Você simplesmente não conseguia respirar e faria qualquer coisa para se refrescar.”

Para Russell, portanto, o debate não deveria ser tratado apenas como uma questão de conforto. O britânico considera que o superaquecimento pode comprometer diretamente a capacidade do piloto de conduzir o carro.

O piloto da Mercedes também reconheceu que os carros atuais são menos quentes internamente do que eram alguns anos atrás, graças a mudanças no posicionamento de componentes eletrônicos, hidráulicos e radiadores. Ainda assim, ele gostaria de ter o colete disponível.

“Eu correria com ele em todas as corridas, exceto Las Vegas e pistas realmente frias. Definitivamente vejo um benefício nele, gosto muito.”

Ironia: Mercedes não tem o equipamento

A discussão ganha um componente particularmente curioso no caso de Russell. Apesar de ser um dos pilotos que mais defendem a tecnologia, a Mercedes não desenvolveu um sistema de resfriamento para seus pilotos em 2026.

A equipe decidiu direcionar os recursos disponíveis dentro do teto orçamentário para o desenvolvimento do próprio carro. O problema é que desenvolver um sistema confiável exige não apenas dinheiro, mas também engenheiros e estrutura de produção. O diretor-adjunto da Mercedes, Bradley Lord, explicou que a equipe considerou insuficiente a margem financeira disponibilizada especificamente para o desenvolvimento do equipamento.

A decisão significa que Russell e Kimi Antonelli enfrentarão o calor de Singapura sem o colete — justamente em uma pista na qual a condição física costuma ter peso importante. Russell reconhece o dilema. Para ele, não basta simplesmente obrigar as equipes a instalar o sistema: é preciso garantir que exista uma solução efetivamente funcional.

“Precisamos encontrar uma maneira de fazer isso funcionar coletivamente entre as equipes e a FIA”, disse.

Antonelli teve experiência traumática

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Kimi Antonelli (Foto: Mercedes)

Andrea Kimi Antonelli, líder do campeonato e companheiro de Russell na Mercedes, está mais próximo da posição de Verstappen. O italiano contou que teve experiências ruins com o equipamento em 2025. Em uma delas, o sistema deixou de funcionar antes do esperado. Na outra, uma falha na bomba fez com que o equipamento passasse a circular água a aproximadamente 50°C.

“Sofri uma insolação depois da sessão, então não foi muito agradável”, revelou.

Desde então, Antonelli afirma que prefere preparar fisicamente o corpo para suportar o calor a depender do equipamento. O italiano, porém, não descarta uma mudança de posição no futuro. Se o sistema se tornar confiável e capaz de funcionar durante o período necessário, ele admite reconsiderar a utilização.

Grid dividido em três grupos

A discussão em Singapura mostra que não existe consenso entre os pilotos. De um lado, Verstappen e Antonelli questionam a necessidade ou a confiabilidade do equipamento. O piloto da Red Bull chegou a afirmar que o colete deveria continuar sendo uma escolha individual, enquanto Isack Hadjar foi ainda mais contundente e defendeu que a tecnologia deveria ser banida.

Do outro, Russell se tornou o principal defensor da solução, enquanto pilotos como Alex Albon e Carlos Sainz também relataram uma avaliação positiva dos sistemas utilizados por suas equipes. Sainz, inclusive, brincou que o desenvolvimento do colete foi uma das áreas em que a Williams mais acertou em 2026.

O problema é que a tecnologia ainda precisa superar uma questão fundamental: ser capaz de resfriar o piloto durante toda a corrida sem criar novos problemas. É justamente nesse ponto que Verstappen concentra suas críticas. Segundo o holandês, o sistema pode funcionar nos primeiros momentos, mas perde eficiência conforme o líquido e o próprio cockpit esquentam.

FAQ F1

O que é o colete de resfriamento da F1?

É parte do sistema de resfriamento do piloto criado para situações de Heat Hazard. O equipamento utiliza componentes instalados no carro e um sistema que pode circular líquido refrigerado por tubos presentes em um colete utilizado sob o macacão.

O uso do colete é obrigatório em Singapura?

Não. Quando a FIA declara um Heat Hazard, os componentes do sistema precisam estar instalados no carro e disponíveis para utilização. O piloto pode, porém, optar por não vestir os itens pessoais do sistema e recebe um acréscimo de 0,5 kg de lastro para compensar a diferença de massa.

Por que Russell defende o colete e Verstappen é contra?

Russell entende que o superaquecimento pode comprometer o desempenho e a segurança do piloto. Verstappen considera o equipamento pouco eficaz e reclama que as mangueiras limitam seus movimentos. Antonelli também é cético depois de ter enfrentado falhas no sistema em 2025.