O eP de Madri da Fórmula E, disputado no sábado (21), deixou marcas no campeonato, tanto pelo impacto direto nos resultados quanto pelas narrativas que começam a se consolidar ao longo da temporada. Entre desempenhos dominantes, reações consistentes e frustrações evidentes, a etapa no Circuito de Jarama serviu como termômetro importante para entender quem, de fato, entra na briga pelo título e quem começa a ficar pelo caminho.

De um lado, nomes como António Félix da Costa e Pascal Wehrlein reforçaram o momento positivo e a condição de protagonistas, enquanto a Jaguar mostrou força coletiva mesmo em meio à crescente tensão com Mitch Evans. Além disso, atuações como a de Dan Ticktum indicam uma possível mudança de patamar dentro do grid.

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Por outro lado, a etapa espanhola também escancarou dificuldades que começam a se tornar recorrentes. Felipe Drugovich precisa urgentemente começar a entregar resultados. Oliver Rowland e Nick Cassidy viveram mais um capítulo da instabilidade que marca a temporada 2025/26 de ambos, enquanto Nyck de Vries se esforça cada vez mais para justificar uma demissão por parte da Mahindra.

Com o campeonato avançando e a margem para recuperação diminuindo, cada etapa passa a ter peso ainda maior na definição dos rumos da temporada. Nesse contexto, o GRANDE PRÊMIO separou quem deixa Madri embalado e quem precisa reagir com urgência para não ficar pelo caminho.

António Félix da Costa e Mitch Evans fizeram uma dobradinha para Jaguar em Madri (Foto: Fórmula E)

Quem sai do eP de Madri em alta:

António Félix da Costa

Não existe pessoa mais feliz na Fórmula E neste momento que António Félix da Costa. Após desencantar em Jedá e conquistar a primeira vitória pela Jaguar, o português manteve embalo e triunfou pela segunda vez seguida, agora em Madri. A transferência para o time britânico não poderia ter se mostrado mais acertada: tanto pelo melhor ambiente, quanto pelo maior domínio do conjunto em relação ao período na Porsche. O campeão da temporada 2019/20 parece ter reencontrado a melhor fase e, certamente, é candidato ao Mundial de Pilotos.

Jaguar

O clima tenso ao término da corrida por conta da ordem para Mitch Evans não ultrapassar Da Costa na volta final não pode ofuscar a performance exuberante da Jaguar no Circuito de Jarama. O time felino precisou lidar com dois cenários totalmente distintos: o português largou em terceiro e o neozelandês apenas em 16º. Por isso, optou por estratégias opostas, com António utilizando Pit Boost logo no início da janela, enquanto Mitch adiou o máximo possível. Ainda assim, viu ambos receberem a bandeira quadriculada nas duas primeiras posições. Os incidentes das etapas iniciais do campeonato ficaram de vez para trás, e os resultados começaram a refletir o potencial do conjunto britânico. A Jaguar tem tudo para brigar ponto a ponto com a Porsche pelo Mundial de Equipes. Resta, claro, habilidade para lidar com as rachaduras na relação com o #9.

Dan Ticktum

A maré de azar de Dan Ticktum parece mesmo ter acabado. Após abandonar as primeiras três etapas da temporada por incidentes nos quais não teve nenhuma culpa, o britânico só não pontuou no eP de Jedá 1 e, em Madri, chegou a sonhar com vitória na reta final. O quarto lugar pode ser frustrante por ter perdido o pódio na última curva, mas não diminui o tamanho da atuação. Em uma Cupra Kiro que não é nem a cliente da Porsche com maiores recursos — status pertencente à Andretti —, o #33 não apenas bate de frente com a equipe de fábrica, como demonstra regularmente performances superiores às de qualquer piloto que utilize trens de força alemães que não se chame Pascal Wehrlein. Apesar de Nico Müller apresentar o perfil perfeito de segundo piloto e dar conta da função até o momento, o time de Weissach não poderá fechar os olhos caso o rendimento não seja suficiente para ajudar nas conquistas coletivas ao fim do campeonato e precisará considerar uma promoção a Ticktum. E, mesmo que Florian Modlinger seja conservador e não queira correr o risco de ter outra dupla potencialmente explosiva para controlar, o resto do paddock tem de considerar o britânico como opção para ser o centro de um projeto competitivo. Às vésperas da estreia de uma Gen4 que tende a favorecer o estilo de pilotagem de Ticktum, está na hora de todos prestarem mais atenção às atuações dentro de pista do que às polêmicas fora delas. E atuações como essa são grandes passos nessa direção.

Pascal Wehrlein

Wehrlein vem seguindo à risca o roteiro que costuma contar a história de um campeão. É o único que pontuou em todas as corridas até aqui, não deixa passar nenhuma oportunidade de subir ao pódio ou vencer quando tem carro para tal e, quando o cenário não é favorável, consegue driblar as adversidades para maximizar o resultado. Foi o que aconteceu em Madri, quando foi acertado na traseira ainda na primeira volta por Nyck de Vries, teve o desempenho comprometido e, ainda assim, arrancou um terceiro lugar na última curva. Tentando fazer uma média de atuações, talvez seja o piloto mais constante ao longo de toda a era Gen3. Agora, com uma Porsche que parece ter sanado as deficiências que causaram altos e baixos nos últimos anos e parece pronta para “varrer” a Fórmula E, o alemão tem a faca e o queijo na mão para superar a concorrência e conquistar o bicampeonato mundial.

Felipe Drugovich precisa começar a entregar resultados se quiser ter vida longa na Andretti (Foto: Fórmula E)

Quem sai do eP de Madri em baixa:

Felipe Drugovich

Passamos do ponto em que o “fator novato” pode justificar a ausência de pontos de Felipe Drugovich. Continua não sendo justo cobrá-lo de fazer frente a um companheiro tão forte quanto Jake Dennis, mas o fato do britânico só não ter pontuado em uma corrida na temporada — por conta de um furo de pneu que o afundou no pelotão em Jedá — mostra que a Andretti tem carro para que o brasileiro entregue alguma coisa. E a situação fica ainda pior comparando com os outros estreantes, principalmente Pepe Martí, que corre com o mesmo trem de força Porsche, mas em uma Cupra Kiro com recursos consideravelmente mais modestos e, ainda assim, pontuou em quatro das seis etapas. Não falta talento e potencial a Felipe, como vimos no eP de Berlim de 2025 e até em momentos deste ano — como em São Paulo e Miami —, mas algo segue escapando aos olhos do brasileiro para destravar o nível de entrega esperado dele. E é bom que encontre a solução rápido, senão correrá sério risco de engrossar a lista de nomes que não duraram mais de uma temporada na equipe americana.

Oliver Rowland

Se uma regularidade acima da média marcou a campanha que foi coroada com título em 2024/25, os altos e baixos vêm sendo a tônica da atual temporada de Oliver Rowland. O britânico subiu ao pódio em metade das corridas, mas não marcou nenhum ponto nas outras. Mesmo sem ter uma Nissan tão dominante na segunda metade do último campeonato, Rowland constantemente era capaz de salvar bons resultados para administrar a gordura acumulada. Mas a queda da marca nipônica parece ser vertiginosa demais até para o atual campeão conseguir extrair alguma coisa. Ainda pode ser cedo demais para descartá-lo da briga pelo título, mas a cada corrida que passa o bicampeonato parece um sonho ainda mais distante.

Nick Cassidy

O que começou com altas expectativas, terminou em lamentação. Nick Cassidy largou da pole-position — a primeira da Citroën na Fórmula E — e conseguiu imprimir bom ritmo no terço inicial de corrida. Porém, a partir do momento que entrou na janela do Pit Boost, viu a carruagem virar abóbora e despencou para um distante 17º lugar. Talvez fosse muito esperar um título no primeiro ano da equipe francesa na categoria, mas foi impossível não fantasiar após o pódio em São Paulo e a vitória na Cidade do México no início do campeonato. Se algum piloto é capaz de colocar a marca de Saint-Ouen nas costas e protagonizar um conto de fadas digno da Disney é o neozelandês. Mas a sequência de um único top-10 nas últimas quatro corridas é um indicativo de que a realidade está batendo à porta e dizendo que, talvez, o relógio vai marcar meia-noite antes do que se imaginava e Cassidy será obrigado a ver o baile real de fora.

Nyck de Vries

Nyck de Vries está virando figurinha carimbada entre os que deixam as etapas em baixa, mas não deixa de surpreender a capacidade que o neerlandês tem de oscilar entre altos muito altos e baixos muito baixos. E o eP de Madri foi a síntese perfeita disso: bateu no TL1, teve ritmo fortíssimo na classificação e chegou ao duelo final, mas acertou a traseira de Wehrlein no início da corrida, foi punido e terminou em 18º. Após anos de reconstrução, a Mahindra finalmente tem potencial para bater de frente com as principais equipes, mas De Vries está sendo uma verdadeira âncora. O contraste com Edoardo Mortara é cada vez mais gritante e, a cada etapa que passa, se torna cada vez mais injustificável a permanência do #21 na montadora indiana.

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