Punição bizarra à parte, a Andretti viveu o fim de semana mais competitivo de sua história na Fórmula E entre sexta-feira (19) e sábado, na disputa do eP de Sanya. Dominante, a equipe americana levou Jake Dennis e Felipe Drugovich à final da classificação, colocou os dois na primeira fila e executou uma corrida praticamente perfeita para completar seu primeiro 1-2 de todos os tempos na categoria. O brasileiro foi punido por um toque com Pascal Wehrlein após a corrida e caiu para quinto, é verdade, mas nada que diminua um grão do que foi a etapa para a esquadra: uma imagem clara de um time que tem condições de fazer muito mais.
Parceira da Porsche desde o início da era Gen3, a Andretti aproveita um dos melhores — se não o melhor — trem de força da categoria, inclusive capaz de ocupar os três lugares do pódio em Sanya antes da punição ao brasileiro (e sem nenhum carro da equipe de fábrica). E isso ficou claro logo na primeira temporada da geração, com o primeiro e único título do Mundial de Pilotos para Dennis. Desde então, porém, o nível se manteve bem longe daquilo.
A farra das clientes na primeira temporada da Gen3 (com título da Andretti no Mundial de Pilotos e da Envision no de Equipes) foi efetivamente encerrada a partir do campeonato seguinte, em que Porsche e Jaguar completaram a ascensão ao topo e passaram a ditar os rumos da categoria. E isso afetou diretamente o time americano, que viu o ritmo cair e nunca mais almejou uma batalha de verdade pela taça.
É bem verdade que Dennis seguiu garantindo vitórias aqui e ali, mas nunca mais com a capacidade regular que o levou ao título com apenas dois triunfos em 16 corridas. Neste cenário, ainda entra uma relação cada vez mais fraturada com a Porsche, simbolizada pela forte rivalidade entre Jake e Wehrlein, que se encerra ao fim do ano; e a dificuldade de encontrar um segundo piloto que ao menos acompanhasse o ritmo do britânico a ponto de ajudá-lo na pista.
Afinal de contas, André Lotterer, Norman Nato e Nico Müller passaram pela Andretti nos últimos anos e foram engolidos por Dennis, que nunca teve um parceiro de verdade nas estratégias de pista — até agora. Com Drugovich em grande ritmo, Jake foi protegido no início do eP de Sanya e trabalhou junto com o brasileiro para executar o plano traçado pela equipe. Deu certo e, com louvor, o britânico voltou ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez desde a abertura da temporada, em São Paulo.
E esse é justamente o retrato do que a Andretti pode ser na Fórmula E, ainda que não seja no momento: um time com grande equipamento em mãos, uma estrutura competente, ainda que não no nível das grandes montadoras, e um dos pilotos com mais ritmo, experiência e capacidade de leitura no grid. Este ano, ainda há a adição de Drugovich, um novato que já chegou com certo conhecimento da categoria, após testes na Maserati e duas corridas na Mahindra, e de velocidade comprovada.

E não se trata de nenhum elogio exacerbado ao brasileiro, mas algo dito pelos números. Em toda a temporada passada, Müller somou 48 pontos em 16 corridas pela Andretti e fechou o campeonato em 15º; antes disso, Lotterer fez 23 em 2023, enquanto Nato conseguiu 47 em 2024. Em 11 etapas de 2026, Drugovich já tem 42 e está claramente a caminho de superar com folga todas as marcas; não fosse a punição, inclusive, Felipe teria 50 tentos, já acima da meta.
E o que mais anima é a sequência, já que todos esses pontos vieram nas últimas três rodadas. Ou seja, após um início difícil, de adaptação a uma categoria completamente diferente, Drugovich simplesmente empilhou 42 pontos em quatro corridas, média de 10,5 por disputa. Para se ter uma ideia, a média de Müller ao fim da temporada passada ficou em 3 por prova.
Mas, afinal, o que emperra a Andretti? Na Fórmula E, as fabricantes desenvolvem o trem de força e os fornecem às clientes, bem como o software utilizado para os acertos e demais ajustes no motor, além de outras peças. No entanto, as atualizações desse software ficam a cargo das equipes, o que invariavelmente dá certa vantagem às montadoras — que têm mais tempo de pista em testes e mais condições de explorar e evoluir o programa.
Assim, é natural que a Andretti não consiga andar sempre no mesmo ritmo da Porsche, por exemplo, por ter menos dados para trabalhar. Isso também se aplica às outras clientes, com a Cupra Kiro abaixo das duas e a Envision bem atrás da Jaguar, por exemplo. Até a temporada passada, a McLaren — que deixou o grid — também via boa distância para a Nissan, que fornecia os motores do time papaia e levou o título com Oliver Rowland.

Mas o fato é que a equipe não pode se acostumar ao marasmo dos últimos anos, em que nem foi citada na briga pelo campeonato e viveu de brilhos puxados muito mais pela capacidade de Dennis do que por finais de semana realmente bons. História completamente diferente à de Sanya, em que o time foi a referência em ritmo de classificação e corrida — algo extremamente raro na Fórmula E.
Ainda que o resultado tenha sido prejudicado pela controversa punição de Drugovich, a Andretti cruzou a linha de chegada com 46 de 47 pontos possíveis: uma demonstração clara de força e do que a equipe tem capacidade de fazer. E, se faltava um companheiro de verdade a Dennis, não falta mais; Felipe mostrou que está a postos para dar conta do recado. Com um motor Porsche em mãos, um campeão mundial sedento pelo bi e um parceiro enfim à altura, a Andretti ‘só’ precisa de uma coisa para efetivamente almejar o título da Fórmula E: tornar o desempenho de Sanya, uma imagem clara do que a equipe pode ser, em realidade constante.
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