De todas as novidades preparadas para a temporada 2024/25 da Fórmula E, com início marcado para o dia 7 de dezembro, em São Paulo, o Gen3 Evo larga na frente como a principal delas. A edição encerrada em julho, que consagrou o primeiro título de Pascal Wehrlein, coroou a trajetória dos aguardados Gen3 da forma que eles mereciam. Depois de um início muito preocupante e atrapalhado, o monoposto atingiu o ápice em 2024 e, aliado ao conhecimento aprofundado de equipes e pilotos, vai ser aposentado pela categoria com a sensação absoluta de dever cumprido.
O começo não foi fácil. Antes mesmo do início da temporada 2022/23, que marcou a estreia do Gen3 na Fórmula E, os problemas se acumulavam. Questões de confiabilidade, dificuldade de fornecimento de peças e insatisfação com a segurança foram apenas alguns dos tópicos que incomodaram as equipes em um momento no qual a categoria depositava toda sua esperança no nascimento da nova geração.
Com o tempo, porém, tudo foi se ajeitando. A WAE conseguiu encontrar um ponto de consistência para as baterias — que chegaram a vazar em alguns testes privados —, uma frenagem secundária de segurança foi instalada e o fornecimento de peças voltou ao estágio natural. Dentro da pista, a única dúvida ficou mesmo pela estreia daquele campeonato, na Cidade do México, porque o restante da temporada deixou claro que haveria mais por vir em 2024.
No fim das contas, realmente veio. Em um dos campeonatos mais espetaculares da história da Fórmula E, o campeão Wehrlein só foi consagrado na última corrida da última rodada dupla, e em momento que parecia até mais favorável aos concorrentes da Jaguar — Mitch Evans e Nick Cassidy, respectivamente vice e terceiro colocado.

Não foi só a definição do campeão que trouxe emoção, porém. Ficou claro que, depois de 16 corridas no primeiro ano, a temporada 2023/24 contou com um conhecimento muito mais completo de todas as equipes sobre os carros. Isso possibilitou crescimentos evidentes, como o da Nissan, e quedas surpreendentes, como a da Envision. O fato é que aqueles que entenderam melhor o carro ao longo do primeiro ano tiveram vantagem no segundo, e isso ficou explícito na pista e na tabela do campeonato.
A história destes dois anos do Gen3 na Fórmula E, no entanto, precisa ser explicada a partir de dois cenários completamente opostos: as corridas ‘raiz’ e as de pelotão. O segundo tipo surgiu quase sem querer: conhecida pelos traçados urbanos e apertados, a categoria foi arrebatada por um novo tipo de disputa, completamente pandemônica e imprevisível até os últimos instantes.
Apesar do show para os fãs, o estilo bagunçado e perigoso dessas corridas caiu bastante mal entre a maioria dos pilotos, que mostraram incômodo com uma suposta falta de ‘justiça esportiva’ e preocupação com possíveis lesões. No fim das contas, porém, o fato é que o Gen3 se mostrou uma besta impossível de ser elevada ao potencial máximo em pistas muito apertadas, algo que caracterizou a categoria no passado — e o acidente de Sam Bird no eP de Roma de 2022/23 é prova disso. Assim, a transição para os circuitos permanentes foi e seguirá sendo natural, e a chegada desses traçados criou uma divisão clara entre os tipos de prova.
Nem tudo foi positivo, porém. Desde o início, um ponto negativo do Gen3 ficou evidente: a fragilidade física. Tentando se desvincular das imagens de disputas ‘ombro a ombro’ da era Gen2, que tinha um carro praticamente indestrutível, a Fórmula E optou por um monoposto sem coberturas nas rodas e muito menos propenso ao contato.

De fato, os empurrões vistos na geração anterior praticamente acabaram, mas as características de muitas pistas simplesmente forçam o caos. Estreitas, nem sempre reúnem espaço para todos os carros, e os contatos são comuns — e as quebras também. A asa dianteira se tornou uma vilã particular, porque está sempre à beira de ficar presa nos pneus da frente caso receba qualquer toque. Geralmente, quando isso acontece, é fim de papo.
Para o ano que vem, o Gen3 Evo promete uma consistência física mais robusta, diminuindo a possibilidade de danos permanentes. Ainda assim, precisa ser um meio-termo entre Gen3 e Gen2, já que o carro de segunda geração era resistente até demais — o que permitia que os pilotos provocassem contatos desnecessários para levar vantagem.
Os dois anos do Gen3 na Fórmula E só podem ser definidos de uma forma: sucesso. A antecipação para o lançamento do carro o obrigava a dar certo, sob perigo de condenar o futuro da própria categoria. Depois de um início claudicante, as coisas entraram nos eixos e o carro se provou um enorme acerto. Na modalidade que mais evolui no mundo, a expectativa é de que o Gen3 Evo chegue para elevar o sarrafo de novo antes do esperado Gen4. A tecnologia, como sempre, pede passagem — mas foi bom enquanto durou.
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