A temporada 2026 marcou um ponto de virada no regulamento técnico da Fórmula 1 ao ampliar a eletrificação das unidades de potência e trazer a aerodinâmica ativa para os carros, e esse último ponto em específico abriu para os engenheiros interessante janela de possibilidades que aliam muito estudo à criatividade e apresenta soluções às vezes intrigantes dada a originalidade. E como nada se cria, tudo se copia, sempre tem quem fique atento aos mais engenhosos.

Quando as novidades são constantes, aí mesmo que as rivais voltam as atenções tentando entender como é possível tanto desenvolvimento em larga escala. Foi essa a pergunta que Neil Houldey, diretor-técnico de engenharia da McLaren, fez ao admitir que hoje tem a Ferrari de inspiração quando o assunto é a linha de evolução de um projeto, por mais que tudo ainda o deixe “impressionado”.

Não é de hoje, aliás, que o time de Maranello está na mira dos demais adversários pelo número de atualizações levado para a SF-26 nos finais de semana. Toto Wolff, chefe da Mercedes, chegou a insinuar que a Ferrari logo teria problemas com o teto orçamentário, atualmente fixado em US$ 215 milhões (R$ 1,1 bilhão), o que irritou um bocado Frédéric Vasseur. Mas será que os italianos são realmente os líderes de novidades?

Bom, o Lado a Lado desta quinta-feira (13) foi atrás desta resposta, e os documentos oficiais da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) que indicam as novidades levadas pelas equipes para cada etapa indicam que ela é, na verdade, a terceira da fila. É necessário dizer que o trabalho de atualização sempre tem um foco principal que precisa que outras áreas do carro também passem por revisão. Exemplo: mudanças na asa traseira geralmente trazem modificações no difusor e conjunto de rodas traseiras para otimizar o trabalho da peça principal, daí alguns pacotes serem robustos.

F1 2026 tem visto muitas novidades nos carros (Foto: AFP)

Importante frisar também que a lista a seguir desconsiderou as mudanças feitas “específicas para o circuito”, ao contrário dos ajustes permanentes. Confira:

Red Bull

Sim, é a Red Bull a líder do ranking de atualizações, de acordo com os documentos que listam as peças novas submetidas ao controle da FIA. Da Austrália até a Hungria, foram 35 novidades inseridas no RB22, sendo os pacotes levados para Miami e Áustria os maiores, com sete atualizações cada. Foi na corrida norte-americana que os taurinos levaram pela primeira vez a versão da asa traseira Macarena, enquanto as novidades introduzidas no Red Bull focaram o assoalho, além dos sidepods e conjunto traseiro para melhorar o downforce e a confiabilidade.

Cadillac

A novata escuderia da Carolina do Norte já contabilizou 33 atualizações na primeira parte do Mundial, e Miami também viu um grande pacote de novidades que envolveu praticamente todas as áreas substanciais do carro (asa dianteira, assoalho, retrovisores, suspensão traseira e difusor). Depois, na Áustria, dez novidades para também melhorar o sistema de arrefecimento, uma vez que as altas temperaturas têm sido um problemão para a Cadillac na temporada.

Ferrari

Equipe que mais desperta curiosidade entre as rivais, a Ferrari aparece ‘só’ em terceiro por ter promovido 30 ajustes na SF-26 desde o GP da Austrália, que abriu a temporada, porém o trabalho maior se concentrou nos GPs de Miami, quando promoveu o maior pacote até aqui, com 11 atualizações, e Barcelona-Catalunha, com oito novidades. O conjunto das rodas dianteiras, asa dianteira, assoalho, difusor e asa traseira já passaram por mudanças ajudam a manter a equipe como segunda força do grid. Além disso, já são duas vitórias na temporada e a promessa de mais novidades vindo por aí na segunda metade do ano.

Lewis Hamilton e Charles Leclerc já venceram corridas este ano (Foto: Ferrari)

McLaren

Vencedora do GP da Hungria com Lando Norris, a McLaren contabiliza 29 atualizações no MCL40, mas ao contrário das principais rivais, o trabalho foi bem distribuído entre as etapas de Miami (6), Canadá (6), Mônaco (4) e Hungria (4), que concentraram os maiores pacotes. Em comum, nota-se que são pistas mais seletivas e que exigem mais da eficiência aerodinâmica, uma vantagem que até o ano passado era evidente no carro, mas que se perdeu nas primeiras etapas. Por isso o triunfo no técnico Hungaroring foi tão importante e desenha uma competição mais realista contra a Mercedes.

Aston Martin

A Aston Martin foi a equipe que levou atualizações para menos corridas (quatro), mas chegou a um total de 29 mudanças graças ao superpacote do GP da Hungria que contou com 16 novidades. Não é exagero, portanto, dizer que os esmeraldinos colocaram em Budapeste um AMR26-B, ainda que essa nomenclatura não seja oficial. Na prática, a única coisa que não sofreu alteração foi a suspensão dianteira, enquanto todo o resto, da asa dianteira, passando por assoalho, entradas de ar e asa traseira, teve alguma mudança com um único objetivo: melhorar a carga local em busca de performance.

Haas

A Haas tentou levar ao menos uma novidade em cada final de semana, porém nada se compara às mudanças feitas ainda na Austrália. Foram sete ao todo, e, daí em diante, os elementos foram sendo refinados, totalizando 27 atualizações permanentes até aqui em 2026. Mas a equipe já ligou o sinal de alerta diante da evolução das rivais diretas e tenta equilibrar o teto orçamentário para investir em mais novidades para voltar à zona de pontos na segunda metade da temporada — algo que não acontece desde Mônaco, sexto GP do ano.

A Haas levou muitas novidades no começo do ano, mas perdeu fôlego (Foto: Haas F1 Team)

Racing Bulls

A Racing Bulls é uma das rivais diretas da Haas que mais apresentaram evolução na primeira parte do Mundial, e isso é fruto do trabalho que já rendeu 25 atualizações aos carros de Liam Lawson e Arvid Lindblad. A única vez que a equipe B da Red Bull terminou com os dois carros fora da zona de pontos foi no Canadá. Dali em diante, foram 52 pontos somados e um total de 66 que a levaram ao quinto lugar na tabela, ultrapassando a Alpine.

Alpine

E falando em Alpine, está na hora da base em Enstone pensar em mais atualizações para a A526 que as 21 mudanças promovidas até a Hungria. O maior pacote foi levado para Miami, com seis alterações que envolveram o conjunto das rodas dianteiras e toda a parte traseira, incluindo conjunto das rodas, asa e suspensão. Ainda assim, a principal força reside no motor Mercedes, que gera potência extra ao carro, por isso dá para esperar mais algum pacote significativo dos Países Baixos em diante.

Mercedes

A líder do Mundial aparece na antepenúltima colocação com 20 atualizações ao todo, sendo sete apenas no Canadá. As outras etapas viram ajustes pontuais em itens isolados para refinar o conjunto que trouxe mudanças importantes na frente do carro, assoalho e conjunto traseiro. Mônaco, aliás, mostrou como os alemães possuem nas mãos um carro bem equilibrado em termos de downforce, uma vez que Andrea Kimi Antonelli dominou em uma pista com importância quase nula da potência do motor.

A líder Mercedes mexeu pouco no carro, comparada às rivais diretas (Foto: Mercedes)

Audi

A Audi também já introduziu 20 atualizações permanentes no R26 e escolheu a Áustria para a estreia do robusto pacote que contou com sete modificações que passaram pela asa dianteira (endplate), assoalho e conjunto traseiro (entradas de ar, suspensão e asa). O refinamento das atualizações já ajudou a equipe a pontuar nas três últimas corridas com Gabriel Bortoleto e Nico Hülkenberg, chegando a 12 pontos no ano de estreia da F1. E a expectativa é de mais mudanças aerodinâmicas, enquanto as atualizações de motor ficarão para 2027.

Williams

A Williams é a lanterna da lista, e as 18 atualizações feitas até aqui também ajudam a ilustrar as dificuldades que o time de Grove ainda enfrenta na F1, como pontuou James Vowles, o chefe da equipe. Na prática, até mesmo a Aston Martin, que começou o ano completando uma média de 15 voltas nas corridas, alcançou alguma evolução com o pacote da Hungria, enquanto o FW48 não parece sair do lugar. Tanto Carlos Sainz quanto Alexander Albon não enxergam alguma solução a curto prazo diante de tantos problemas, e com áreas estruturais precisando de reformas, é difícil imaginar que o orçamento realmente vá ser concentrado em atualizações para o carro.