Ainda não vai ser em 2027 que a Indy voltará a correr no Brasil. No entanto, o país tem avançado para voltar a receber a categoria nos próximos anos — e, desta vez, em Goiânia, que assumiu a dianteira para abrigar o certame norte-americano, deixando São Paulo, que esteve em negociações, para trás.

Antes de falarmos especificamente do que Goiânia fez para assumir essa dianteira e se tornar praticamente uma candidata isolada para receber a Indy no Brasil, São Paulo esteve em boas condições para receber a categoria, com a qual já possui uma história. Até aqui, antes da Indy desembarcar em Barcelona no próximo ano, a última vez que a categoria deixou o eixo Estados Unidos-Canadá foi para correr na capital paulista.

Entre 2010 e 2013, São Paulo abrigou quatro etapas em um circuito de rua montado no Anhembi, onde a Fórmula E corre atualmente, mas, nas conversas mais recentes, a região do Anhembi não foi opção para a Indy. O primeiro motivo é com relação ao traçado, que não teria mais a Marginal Tietê liberada pela Prefeitura, o que faria com que a extensão da pista fosse pequena e travada para a Indy. O segundo motivo diz respeito à estrutura da categoria, que hoje é maior do que no período em que o Anhembi a recebeu, com 25 carros em temporada regular.

Mas, diferente do que aconteceu entre 2010 e 2013, Interlagos não tinha mais uma trava contratual que a impedia de receber a Indy em detrimento da F1 — o que deu motivo à origem do circuito no Anhembi, na Zona Norte da capital. Logo, as conversas entre os representantes da categoria e a Prefeitura passaram a tratar o Autódromo José Carlos Pace como possível palco dessa empreitada.

Em 2024, algumas conversas deram um bom tom entre as partes, que se animaram com a possibilidade de uma corrida no futuro. Em outubro daquele ano, em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO, Gustavo Pires, então presidente da SPTuris, e Willy Herrmann, representante da Indy na América Latina, confirmaram o avanço e projetaram uma prova para 2026.

Gustavo Pires, ex-presidente da SPTuris (Foto: Rodrigo Berton/WarmUP)

“Temos todas as intenções possíveis. Fizemos uma reunião muito boa com a Indy, onde todas as demandas que eles passaram, que seriam da prefeitura, são tranquilas de a gente fazer. Agora a bola está com a própria Indy para viabilizar e vir para cá”, disse Pires ao GRANDE PRÊMIO.

“O que posso dizer é que estava congelado até uns quatro meses atrás. Hoje, o processo volta a andar e estou muito otimista. Não tem nada garantido, mas a gente avançou muito na última reunião. Algumas questões que a Indy precisava da nossa parte, já não precisa mais. Tudo que eles precisam, a gente consegue atender”, completou.

Na ocasião, as duas partes indicavam que até um promotor do evento estava alinhado, mas Interlagos tem o desafio de adequar uma nova prova da magnitude da Indy diante de tantos eventos, que também superaram o automobilismo, com os festivais de música que recebe constantemente. A F1 demanda do circuito um tempo considerável antes da corrida, que sempre envolve reformas, sejam pequenas ou grandes. Além disso, tem o WEC em julho e, mesmo sendo no Anhembi, a Fórmula E, que migrou de dezembro para março.

Com tudo isso no tabuleiro, a Indy também tem um calendário peculiar, que é realizado entre março e setembro para fugir do futebol americano, que mingua a audiência das demais modalidades esportivas nos Estados Unidos. Com o encaixe desafiador, até uma corrida extracampeonato foi considerada.

COLETIVA GP DE SÃO PAULO, INTERLAGOS
Autódromo de Interlagos (Foto: Rodrigo Berton/Agência WarmUp)

Ao mesmo tempo em que São Paulo preparava o terreno, Goiânia e Brasília também se movimentavam — o que foi confirmado por Giovanni Guerra ao GRANDE PRÊMIO, em entrevista realizada em novembro de 2025. A capital federal tinha o combustível financeiro do Banco de Brasília (BRB), que patrocina a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e apoiava equipes, pilotos e campeonatos, além de ter a concessão do Autódromo de Brasília. Mas os escândalos envolvendo a instituição com o Banco Master, que tem Daniel Vorcaro como peça central, contribuíram para a mudança na presidência — Paulo Henrique Costa foi preso acusado de gestão fraudulenta. O atual comando prega austeridade financeira e tem cortado alguns investimentos, assim como concessões.

Por outro lado, Goiânia, que já tinha contrato com a MotoGP e promoveu uma enorme reforma no Autódromo Ayrton Senna para receber o principal campeonato do motociclismo mundial, acenou à Indy de modo consistente e entrou no jogo em um momento de fragilidade da candidatura paulista.

A situação de São Paulo, porém, ganhou um novo componente em fevereiro de 2026 com a demissão de Gustavo Pires da presidência da SPTuris e a exoneração do secretário-adjunto Rodolfo Marinho. A medida foi tomada após investigações da Controladoria-Geral do Município apontarem indícios de irregularidades em contratos com a agência MM Quarter.

Com a nomeação do coronel Marcelo Vieira Salles para o comando da estatal e a abertura de auditorias internas, o órgão municipal entrou em modo estritamente defensivo. Em meio ao pente-fino administrativo e sob holofotes de órgãos de controle, qualquer tratativa complexa que exigisse investimento expressivo e compromissos orçamentários de longo prazo — como a repactuação para trazer a Indy — foi sumariamente congelada.

Mark Miles, CEO da Penske Entertainment, com Daniel Vilela, governador de Goiás (Foto: Lucas Diener)

A prioridade da SPTuris passou a ser estancar crises e blindar a casa, matando o ímpeto e a agilidade necessários para negociar um evento desse porte.

Apesar dos problemas no asfalto durante a etapa da MotoGP, Goiânia entrou firme para ter a Indy, convidando uma comitiva da categoria, capitaneada pelo CEO Mark Miles, e colocando o governador Daniel Vilela para recebê-los. Foi uma ação certeira, que demonstrou peso institucional e ainda contou com o vácuo da concorrência.

É verdade que as eleições atrapalharam o sonho de a Indy voltar ao país neste momento, pois as negociações foram pausadas em um período-chave para a definição do calendário de 2027, com Barcelona acelerando como Álex Palou para definir a sua etapa, mas Goiânia abriu uma margem considerável em relação a São Paulo e é a ficha nº 1 caso a categoria retorne ao Brasil.