A temporada 2027 mal começou, e a Fórmula 1 pode se ver com um problema e tanto nas mãos ao confirmar não apenas a abertura do Mundial no Bahrein em rodada dupla com a Arábia Saudita, como toda a pré-temporada no circuito de Sakhir. Isso porque, entre muitas idas e vindas, o Oriente Médio ainda vive sob a tensão de um conflito iniciado em fevereiro deste ano e sem data para terminar.
O ponto de partida do atual conflito entre Estados Unidos e Irã foi o dia 28 de fevereiro, quando os norte-americanos, apoiados por Israel, decidiram atacar instalações militares, autoridades iranianas e locais estratégicos na capital, Teerã, e em outras cidades como Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah. Como justificativa, o governo de Donald Trump afirmou que o objetivo da ofensiva era eliminar o programa nuclear iraniano.
A partir daí, foi uma reação em cadeia, pois apesar da distância geográfica entre os dois países, o Irã usou como tática bombardear as bases militares norte-americanas espalhadas pelo Oriente Médio. Um desses primeiros contra-ataques foi contra a Atividade de Apoio Naval (NSA) dos EUA no Bahrein, onde está sediada a Quinta Frota da Marinha americana. O local fica a cerca de 35 km do Circuito Internacional do Bahrein, que recebe a F1.
Sete meses se passaram desde então, mas a instabilidade da segurança na região não coloca as corridas que ainda restam de 2026 em xeque, como também lançam dúvida sobre a possibilidade de realização dos eventos do ano que vem. A organização do GP da Austrália, aliás, já se manifestou e rejeitou a chance de antecipar a corrida em caso de nova impossibilidade de a F1 ir para o Bahrein e/ou para a Arábia Saudita.
O GRANDE PRÊMIO separou uma cronologia que explica a escalada dos conflitos e como a F1 ainda se vê em uma encruzilhada para cumprir o calendário.

F1 e a guerra no Oriente Médio: por que Catar e Abu Dhabi ainda estão sob ameaça?
28 de fevereiro — EUA e Israel iniciam ofensiva contra o Irã: este é o ponto de partida da atual guerra no Oriente Médio. O ataque norte-americano matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e atingiu instalações militares e nucleares. Em resposta, o Irã lançou mísseis e drones contra Israel e bases americanas na região, incluindo alvos em Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos.
2 de março — FIA e F1 alertam para a segurança e passam a enxergar o calendário como um problema: o presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, afirmou que a segurança e o bem-estar seriam os critérios para decidir sobre os próximos eventos. A F1 também informou que acompanhava de perto a situação. Ao mesmo tempo, os ataques provocaram interrupções no transporte aéreo regional, afetando, inclusive, o deslocamento de integrantes das equipes para a abertura da temporada, na Austrália.
Na ocasião da etapa em Melbourne, o chefe da Mercedes, Toto Wolff, disse aos jornalistas que a Fórmula 1 havia se tornado “a segunda prioridade” diante da situação na região. Wolff afirmou que esperava que as corridas fossem realizadas, mas admitiu que não tinha certeza de que seria realista naquele momento.

14 de março — GPs do Bahrein e da Arábia Saudita são suspensos: F1, FIA e os promotores anunciaram que as corridas não seriam realizadas nas datas originalmente previstas. Também ficou decidido que não haveria substituição em abril. F2, F3 e F1 Academy perderam igualmente aquelas etapas.
Na época, o CEO da F1, Stefano Domenicali, classificou a decisão como difícil, mas “a certa” diante da situação no Oriente Médio, e Ben Sulayem reforçou a preocupação com a segurança. Havia, no entanto, outro complicador: a logística, uma vez que o transporte de equipamentos precisava ser organizado com antecedência, e a aproximação do prazo para envio da carga tornava cada vez mais difícil manter a prova de Sakhir.
Fim de março — Conflito afeta infraestrutura estratégica: a escalada continuou e passou a atingir instalações de energia no Golfo. Em 18 de março, ataques israelenses contra estruturas energéticas iranianas foram seguidos por ataques iranianos contra instalações na Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Ou seja: a guerra passou a interferir em rotas aéreas, infraestrutura, energia e, principalmente, no Estreito de Ormuz, rota fundamental para o transporte marítimo, sobretudo de petróleo, da região, que é controlado pelo Irã.
26 de julho — Bahrein encontra solução, mas problema não desaparece: cada vez mais sem tempo e longe de ver um fim para a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, F1 e FIA anunciaram a realocação do GP do Bahrein em Sepang, na Malásia, entre 2 e 4 de outubro, mantendo o nome e a identidade por questões comerciais. A justificativa foi a logística favorável para formar uma perna tripla com Baku e Singapura.

29 de julho — Domenicali admite que Catar e Abu Dhabi podem não acontecer: em coletiva de imprensa, o dirigente afirmou que, naquele momento, Catar e Abu Dhabi continuavam confirmados, mas estabeleceu um limite: a F1 esperaria até meados de setembro para avaliar a situação. Se não fosse possível realizar as corridas, a final seria transferida para a Europa.
1º de setembro — Catar e Abu Dhabi entram definitivamente na zona de incerteza: o presidente da Federação de Automobilismo e Motociclismo do Catar, Abdul Rahman Al Mannai, afirmou que o país continuava planejando receber a F1 e a MotoGP e garantiu que o aeroporto estava funcionando normalmente, além de considerar o local seguro.
7 de setembro — FIA insiste em não adiar etapas do Oriente Médio: Ben Sulayem disse à AP que pilotos e integrantes das equipes não seriam colocados em risco e que a FIA continuava acompanhando a situação junto aos governos e aos promotores.
11 de setembro — Decisão sobre etapas finais de 2026 postergada: a agência de notícias Reuters informou que a decisão sobre Catar e Abu Dhabi poderia ser adiada para outubro. Um dos problemas apontados era justamente a logística: com o Estreito de Ormuz praticamente fechado para o transporte marítimo, o equipamento teria de ser levado por via aérea.
16 de setembro — F1 divulga o calendário de 2027 com Bahrein, Jedá e companhia: mesmo incertas em 2026, todas as corridas programadas para o Oriente Médio apareceram no calendário da temporada 2027, e a categoria ainda confirmou quatro dias de pré-temporada no circuito de Sakhir. Só que a Austrália, que recebe a F1 apenas em abril, já avisou que não vai antecipar o cronograma, caso haja de novo as suspensões. A FIA, todavia, já pensou na solução: colocar a abertura do Mundial na China.
A Fórmula 1 2026 volta entre os dias 24 e 26 de setembro, com o GP do Azerbaijão, 15ª etapa da temporada.