A McLAREN FERIU INTENSAMENTE SUA HISTÓRIA e do próprio esporte neste domingo (7), na Itália. Pode até parecer extremo, mas a verdade é que as tais regras papaias são um desserviço para Oscar Piastri, Lando Norris e a própria Fórmula 1. Ao impor a troca de posições entre seus pilotos nas voltas finais da corrida em Monza, a esquadra chefiada por Andrea Stella abriu um precedente terrível e interferiu diretamente na disputa pelo título. Na sanha de parecer justo, o time laranja ignorou o fator competição e ainda apequenou os postulantes à taça do mundo, que se viram vaiados por uma multidão inconformada.
A tarefa de gerenciar uma briga interna nunca foi fácil. A história conta como confrontos caseiros podem deteriorar rapidamente os ânimos dentro das garagens e destruir parcerias, mas também escrevem capítulos que permeiam o imaginário do público durante décadas. Rivalidades são necessárias. É assim que nascem os apaixonados pelo esporte, inclusive — aqui contém um recado para a própria chefia da F1, que devia se preocupar mais com o que acontece em pista do que com formatos estapafúrdios por razões sem sentido. Dito isso, a McLaren se encontra nesse ponto central, que é também um privilégio. Mas que, por alguma razão, não está sabendo aproveitar. E pior, ainda exibe uma face covarde, que contradiz sua própria jornada no Mundial.
Afinal, se a ideia é manter a igualdade na disputa, por que interferir como fez em Monza? É falso o argumento de justiça. Porque a esquadra inglesa simplesmente não sabe/quer lidar com o inesperado e tudo o que representa estar sob os holofotes. A excelência técnica, no fundo, segue ofuscada pela mediocridade de pensamento e pelo medo do sucesso.
De novo, a leitura de corrida da McLaren se mostrou confusa. Enquanto Max Verstappen ditava o ritmo à frente, Norris e Piastri vinham em segundo e terceiro, respectivamente. Mas sem qualquer esboço de reação ao tetracampeão. Então, foi preciso pensar em uma forma de tentar contra-atacar o líder taurino.
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De fato, a McLaren tentou esticar o que foi possível o primeiro stint, esperando um desgaste maior dos pneus de Verstappen. Quando finalmente Max foi aos boxes, os papaias assumiram a ponta e por lá ficaram por oito voltas. Neste meio tempo, a discussão no rádio se deu em torno dos pneus escolhidos e também de quem pararia antes. Aqui existia a esperança de um safety-car ou mesmo um bandeira vermelha para fazer frente ao piloto da Red Bull — e era o que restava aos papaias.
Como nada aconteceu, o pit-stop se tornou inevitável. Mas aí vem a primeira questão: Norris estava à frente e, normalmente, as equipe dão preferência de parada para quem vem melhor. Não foi o caso. A McLaren decidiu chamar Piastri primeiro, alegando que monitorava Charles Leclerc, que já havia trocado os pneus 12 giros antes e seguia num distante quarto lugar, em uma tática cautelosa da Ferrari. Depois de deliberar muito com o engenheiro no rádio, Lando acabou por aceitar a opção do time, mas desde que não houvesse risco de um undercut por parte de Oscar, o que Will Joseph garantiu que não ocorreria. Quando chegou a sua vez, na volta seguinte a do companheiro, um problema na troca do pneu dianteiro esquerdo atrasou demais os trabalhos, o que o fez perder o segundo lugar.
Foi aí que a esquadra acionou seus infames princípios de conduta. “Oscar, isso é um pouco como a Hungria no ano passado. Paramos nesta ordem por motivos de equipe. Por favor, deixe Lando passar e você estará livre para disputar com ele”, afirmou o engenheiro Tom Stallard.
Mas o líder do campeonato rebateu: “Quer dizer, nós dissemos que um pit-stop lento fazia parte da corrida, então eu realmente não entendo o que mudou aqui. Mas se você realmente quer que eu faça isso, então farei.”
Na etapa húngara de 2024, o time britânico protagonizou uma lambança poucas vezes vistas. Oscar vinha melhor que Lando, liderando a prova desde o início. Mas aí a McLaren, sem qualquer explicação, resolveu inverter as posições nos boxes. E acabou se arrependendo, pedindo uma nova troca, não antes de uma longa discussão com Norris no rádio. O inglês cedeu aos argumentos, mesmo tentado endurecer a briga contra Verstappen. Embora o caso em Budapeste tenha sido frágil e igualmente alvo de críticas, as circunstâncias agora foram bem diferentes. Especialmente porque a dupla laranja vive uma batalha pelo campeonato.
Por isso, também cabe uma crítica a Piastri. O australiano lidera a classificação e é considerado favorito ao título, diante de um Norris irregular. Mas simplesmente não pode apenas aceitar uma troca de posições sem qualquer ação, passivamente. E pior, quando obteve o sinal verde para a disputa após a mudança, também não agiu. Não é a atitude que se espera de alguém em busca da primeira taça do mundo. E isso deve cobrar um preço alto.
Não deixa de ser importante dizer ainda que, diante do que falou Oscar no rádio, não havia realmente um acordo. A McLaren apenas impôs sua vontade após o erro nos pits. E isso leva a um outro ponto: quebras, erros e um pit-stop falho fazem parte do jogo. São pequenas reviravoltas que alteram a história. É a sorte e o azar. Ao ignorar isso, a esquadra laranja interfere uma segunda vez e abre um precedente complicado de desfazer no futuro. Afinal, como o time vai reagir se, na próxima corrida, o cenário for oposto? Ou se um deles abandonar ou sofrer um furo de pneu?
Chefão da Mercedes e já experiente de disputas internas, Toto Wolff também alertou e disse que a esquadra britânica precisa escolher um caminho ou “será difícil de gerenciar se, de repente, houver uma cascata de eventos inesperados ou precedentes”.
Aliado a isso, há um fator ainda mais perigoso: a McLaren impõe limites a seus pilotos. Não há realmente uma briga livre entre eles, porque a equipe parece temer o confronto, porque não sabe lidar com isso, então é mais fácil comandar a narrativa. É claro que isso também acontece devido à personalidade dócil e pouco combativa de sua dupla. Mas não elimina a sensação de que Andrea Stella vai tentar apagar qualquer sinal de faísca, e isso não só vai contra a competição em si, mas fere muito a história de um time que talvez tenha acompanhado em seus boxes a maior rivalidade da F1.
São tempos estranhos.
A Fórmula 1 retorna de 19 a 21 de setembro no GP do Azerbaijão, 17ª etapa da temporada 2025.